29/07/2020 - Artigo: Fragilidade Humana e Responsabilidade e Artigo: Muitos Brasis no Pescar/SPPA


Fragilidade Humana e Responsabilidade
Rudyard Emerson Sordi (Psicanalista da SPPA)

Em “O mal-estar na civilização” (1930), Freud afirma que a ameaça de sofrimento deriva de três fontes: do próprio corpo, o qual, em suas palavras, está inexoravelmente condenado a decadência e dissolução; da ameaça provinda do mundo externo, que pode se manifestar de forma intensa e esmagadora, e da ameaça decorrente da qualidade do relacionamento com as outras pessoas.

Uma revisão da História da humanidade revela que estas fontes ocasionalmente se reúnem em maior ou menor intensidade, denunciando a fragilidade a qual estamos submetidos, bem como demonstrando nossos métodos de lidar com ela.

Nascemos frágeis e necessitamos intensamente da realidade externa, quase sempre parental, para que estas satisfaçam nossas necessidades corporais, mitigando as ansiedades decorrentes do desenvolvimento emocional, repleto de fantasias onipotentes com suas defesas já tão conhecidas. A progressiva substituição do princípio do prazer pelo princípio da realidade pode e deve implicar em um alívio de fantasias terroríficas, ainda que à custa do desenvolvimento de uma tolerância à frustração imposta pela realidade e pela perda da fantasia de uma felicidade incondicional.

É neste ponto que gostaria de introduzir a responsabilidade com o frágil quando se está frente a uma realidade externa potencialmente avassaladora. É no âmbito social, na relação com as outras pessoas, que, em maior ou menor grau, entregamos parte da capacidade crítica aos nossos representantes parentais, ou seja, as nossas lideranças, a fim de que estas tomem as medidas de enfrentamento ao perigo real. No entanto, uma ameaça suplementar e uma maior fragilização podem vir exatamente desta vertente, caso nossas lideranças não tenham a responsabilidade - frente a si próprios - de se conduzirem conforme a ciência, um dos alicerces da cultura e da civilização. Como responsabilidade consigo mesmo, quero dizer senso ético e o não uso dos cuidados dedicados ao frágil somente como satisfação de necessidades narcisistas pois, neste caso, embora supostamente cuidado, o frágil estaria sendo usado.

Uma ameaça desencadeia as correspondentes defesas, podendo estas servirem ao princípio da realidade, em que o desconhecido busca ser conhecido para que tal ameaça seja enfrentada a partir de princípios científicos. Contudo, também pode induzir ao uso de defesas primitivas, quando a onipotência, os deuses e os diabos são convocados como protetores diante da sensação de fragilidade. Lideranças sociais que sucumbem a esta tentação abdicam da responsabilidade sobre si mesmo e sobre os outros, e é provável que, nesses casos, o desfecho se torne o pior possível.

 

Muitos Brasis no Pescar/SPPA

Em 2020, a parceria entre a SPPA e a Fundação Projeto Pescar ampliou o seu alcance no trabalho com os educadores sociais, reunindo profissionais de sete estados: Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Pará. Iniciamos as “Rodas de conversa” com quatro grupos simultâneos, cada um deles composto por oito educadores e duas coordenadoras, membros da SPPA.

Em virtude do acaso, o início dos encontros coincidiu com a evolução mundial da pandemia de Covid-19 e com a consequente vigência do distanciamento social no Brasil. Este momento de reclusão social acabou por acelerar a realização desses grupos por Skype, pois, embora houvesse, por parte do Pescar, a demanda por atendimento de educadores à distância, nosso grupo mostrava-se apreensivo quanto às possibilidades de trabalho dentro dessa modalidade.

Tão logo os grupos foram iniciados, percebeu-se um grande alívio por parte dos educadores ao sentirem um espaço continente em que poderiam expressar e compartilhar suas emoções e experiências. Estavam pressionados por inúmeras demandas: a adaptação à nova realidade, que exigia o trabalho virtual com adolescentes e com suas famílias, além das preocupações em dar conta do trabalho de casa e atender as suas próprias famílias e filhos pequenos, agora sem escola. Alguns manifestaram medo de contrair a doença, enquanto outros compartilharam histórias de familiares e conhecidos doentes, de familiares curados ou de lutos pessoais. Em um clima de grande ansiedade, relataram sentimentos de sobrecarga e até de exaustão. Ao abordá-los, um receio: o de ficarem contaminados pelo vírus “Covid-psíquico”, responsável por deixá-los emocionalmente paralisados e sem a capacidade de reagir.

Se, por um lado, o uso das ferramentas on-line estaria determinando um maior envolvimento dos educadores com seus adolescentes, por outro também se percebiam descobrindo novas maneiras de conduzir a vida e o trabalho. Percebe-se, assim, que a abertura para o novo apresentaria justamente uma possibilidade de contraponto à paralisia.

Ao final dessa primeira etapa de trabalho, todos reconheceram o importante papel de sustentação oferecido pelas “Rodas de conversa”, manifestando gratidão à Fundação Pescar. Sentiram que a experiência foi especialmente enriquecida pelo contato com colegas de outros estados: afinal, logo ali, na realidade do outro desconhecido, existe um outro Brasil, uma outra circunstância, uma outra pessoa. O estranho no outro, algo que nos assusta ao desorganizar a  ilusão das certezas, pode apresentar-se enriquecedor no momento em que possibilita o contato com novas visões de mundo e com outras formas de lidar com realidades tão difíceis.