02/08/2020 - Homenagem Romualdo Romanowski


Presença do Romualdo
Por Cláudio Laks Eizirik

Conheci o Romualdo em março de 1972, quando fui a sua casa com meu amigo Rogério Aguiar para iniciar a supervisão de psicoterapia psicanalítica do Curso de Especialização em Psiquiatria da UFRGS. O Romualdo colocava um disco, como se dizia então, de música clássica, e supervisionava ao som de música.

Alguns anos depois, já na formação analítica, o Cyro Martins não pôde continuar os seminários e foi substituído pelo Romualdo, que estreou com nossa turma sua brilhante carreira de professor de psicanálise. Chegou com seu sorriso simpático, cheio de papéis com anotações, e a partir daí os seminários fluíram com naturalidade, num clima agradável, mas compenetrado e atento. Romualdo unia leveza e seriedade.

Ao longo dos anos, conversas, encontros, conselhos, seu trabalho de Membro Efetivo, uma presença sempre amiga, acolhedora, estimulante.

Quando a Sociedade me elegeu para presidente da FEPAL, em 1998, convidei colegas e amigos daqui para formar a diretoria, e o Romualdo, com sua enorme experiência internacional, para Diretor Científico. Por dois anos trabalhamos juntos, num grupo coeso e cheio de entusiasmo, que culminou no maravilhoso congresso de 2000, em Gramado.

Em anos mais recentes, compartilhamos com outros colegas o difícil e delicado trabalho da Subcomissão de Ensino do Instituto, e um grupo de amigos e de chope, a partir de uma ideia dele, que era o líder natural. Embora nos últimos encontros às vezes dissesse que estava chegando a hora de sair de cena, ninguém acreditava nisto, e até brincávamos juntos a respeito.

Assim, recebi com total incredulidade a notícia que sua neta Laura nos enviou sobre sua morte. E ainda, de vez em quando, dou uma olhada no Whats para ver se há alguma mensagem, piada, provocação colorada, música ou foto sublime. Agora, só o silêncio.

Ao longo desses quase 50 anos de convívio e amizade, a sensação que eu sempre tive do Romualdo era a de uma pessoa essencialmente vital: cheio de energia, informado sobre quase todos os assuntos, com uma extraordinária capacidade de trabalho, uma enorme cultura humanística e psicanalítica, às vezes se arriscando a perder um amigo para não perder uma piada, generoso, acolhedor, rápido nas associações e trocadilhos, divertido, com um transbordante amor por sua família, e uma dedicação e lealdade inquebrantáveis à psicanálise e à SPPA.

Há inúmeras outras facetas dessa pessoa notável que perdemos, mas uma sempre me impressionou: sua acuidade clínica. Discutir casos com ele, individualmente ou em grupo, era sempre uma experiência única, pois não havia vez em que não captasse algo que havia escapado aos demais: uma experiência contínua de pensar analiticamente.

Como tantas e tantos, sempre vou sentir tua falta, querido Romualdo. O único consolo é que tuas mensagens vão continuar chegando à mente e ao coração, por meios mais sutis que o Whats.

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Um memorial para meu avô
Por Laura Romanowski Wainer

 

Não sei ao certo se um memorial fala da vida ou da morte, mas desconfio de que se trata de algo de outra ordem, talvez de um impulso que teima em fazer sobreviver aquilo que não temos mais presente. A memória de meu avô repousa nessa brecha de tempo sensível em que lançamos luz a seus feitos e afetos, que sempre andaram de mãos dadas e hoje nos convidam a fazer ciranda.

Pouco mais de quatro meses separam o dia em que escrevo da última vez em que o vi, mas desde então tenho tido a oportunidade de reencontrá-lo em uma porção de coisas. São roupas, livros e um sem-fim de objetos, mas também o cheiro nas roupas, as anotações nos cantos das páginas, nossas fotos de criança na carteira, as 127 cartas de amor trocadas com minha vó, essas coisas-testemunhos que fazem lembrar da vida que houve, mas também do futuro que não houve e que agora é outro. Na memória de uma câmera filmadora antiga encontrei alguns registros esquecidos por anos sem que ninguém os tivesse visto. Meu avô era quem sempre filmava e só vez que outra fica-se sabendo dele pela voz grave ao fundo. Há um trecho em particular em que quem assiste é surpreendido pela entrada repentina dele na cena, pulando e fazendo caretas, como quem interfere pelo puro prazer de mostrar-se presente. Se ouve a voz de um dos meus primos junto à filmadora, reagindo à invasão: “sai, vô!”.

A aparição de meu avô na cena representa mais que um efeito surpresa. Pelo contrário, ela revela uma configuração bastante familiar. Antes mesmo de assistir à filmagem, há essa assunção de ser ele a nos olhar. Foi por isso que tantas vezes entramos no mar despreocupados, que crescemos banhados de afeto, que nos foram dadas as condições ao sonho e ao desejo. Não sabíamos à época, mas ao nos ensinar o amor, ele também nos ensinava que seria possível suportar a cabeceira da mesa vazia. A preexistência do olhar cuidadoso de meu avô, pelo qual fomos olhados e em que hoje nos reconhecemos, permite que agora digamos “sai, vô” para construirmos os próprios registros, sabendo que ele continuará presente, ainda que não se mostre.

Assim poderemos fazer frente à morte: um tanto desamparados, mas certos de que somos portadores de uma herança imaterial e singular que ele não economizou em partilhar em vida com cada um de nós. Por isso, esse memorial não passa da continuação em aberto de um testemunho de vida, vida vivida, que seguirá pulsando em todos nós que nos deixamos afetar pelo carinho, pela dedicação e pela maestria de meu avô. Que sorte a minha em ter sido neta dele e que imenso nosso privilégio de poder (querer!) manter viva a ciranda da sua existência.