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Trabalhos

Realidades sociais marginalizadas: limites e alcances da psicanálise na adolescência.

 

 

Maria Elisabeth Cimenti*, Porto Alegre

Heloísa Tonetto**, Porto Alegre

Magali Fischer**, Porto Alegre

Suzana Golbert** , Porto Alegre

Josênia Munhoz***, Porto Alegre

Leonor Brandão***, Porto Alegre

Luciana Secco***, Porto Alegre

Ivani Bressan Valentini****, Porto Alegre

 

 

 

Neste trabalho as autoras propõem apresentar a experiência do trabalho realizado com adolescentes que vivem em situação de vulnerabilidade social.

 

 

 

 

Palavras-chave: psicanálise, vulnerabilidade, relações, adolescência

 

 

* Psicóloga, membro efetivo, analista didata e de criança e adolescente da Sociedade Psicanálitica de Porto Alegre.

** Psicóloga, membro efetivo da Sociedade Psicanálitica de Porto Alegre.

*** Psicóloga, membro aspirante graduado da Sociedade Psicanálitica de Porto Alegre.

**** Psicóloga, membro aspirante em seminaries da Sociedade Psicanálitica de Porto Alegre.

 

 

Como ciência dinâmica, a psicanálise está em constante evolução. Para além da neurose, sua teoria também nos permite pensar no sujeito inserido dentro de um grupo, em uma determinada realidade social. Especialmente nos últimos anos, a psicanálise tem mostrado sua maior inserção na cultura, seguindo as reflexões de Freud sobre a relação do homem com a sociedade, referidas em “Totem e Tabu”, (1912), “Psicologia das massas e análise do ego” (1921), “O futuro de uma ilusão” (1927) e “O mal-estar na cultura” (1930).

Estas formas de abordagens voltadas para os grupos sociais se fazem cada vez mais necessárias na América Latina, onde, a despeito de sua extensão e diversidade, apresenta realidades de marginalização social, desemprego e insuficiência educacional, que atingem camadas menos favorecidas da população. Há, pois, uma grande necessidade de um olhar preocupado e continente.

Pensando nisso, a SPPA tem focado sua atenção em alguns grupos sociais menos favorecidos.  Em 2013, organizou uma atividade vinculada a FEPAL: "A SPPA de Portas Abertas". Propusemos uma aproximação com a comunidade através de grupos de discussão com adolescentes e seus pais na SPPA. Porém, à medida que ocorriam os encontros, vimos que esta proposta de trazer as pessoas até a sede da SPPA não era a melhor. Era preciso ajustá-la.

 Surgiu, então, a possibilidade de uma parceria com um grupo que trabalha com a profissionalização de jovens. Trata-se de um projeto da iniciativa privada que proporciona situações de aprendizado e de treinamento profissional para grupos de jovens em situação de vulnerabilidade, oriundos de camadas menos favorecidas da sociedade, no intuito de facilitar o seu ingresso no mercado de trabalho. O projeto, que possui diversas sedes de atendimento, cada uma com sua própria equipe técnica, acompanha, durante um ano, turmas compostas por estes jovens. Vamos relatar nossa experiência e aspectos significativos de nossas vivências nesta atividade em uma das sedes deste projeto.

 

  1. Sobre nossa experiência em 2013:

 

 A partir do segundo semestre, formamos, na SPPA, um grupo de psicanalistas disponíveis a trabalhar em parceria com o Projeto. Nosso trabalho consistiu basicamente na realização de encontros mensais com dois grupos de adolescentes (manhã e tarde). Trabalhamos em dupla com os grupos: uma dupla atendeu ao grupo da manhã e outra ao grupo da tarde. Uma terceira dupla trabalhou com os pais à noite.

 Planejamos iniciar os nossos encontros com os jovens utilizando o recurso de discussão de filmes, escolhidos a partir de temas supostamente de interesse para adolescentes. O primeiro filme que escolhemos foi "Antes que o mundo acabe”, dirigido por Ana Luiza Azevedo (2010). Trata-se de um filme gaúcho, produzido numa cidade do interior do Rio Grande do Sul. Seus personagens são adolescentes de classe média, que apresentam situações típicas de sua etapa do desenvolvimento.  Os jovens assistiam ao filme antes do horário de início de nossa atividade. Chegávamos ao final da apresentação e procurávamos conversar com eles sobre o que lhes ocorrera a partir do filme. Receberam bem nossa primeira escolha de filme, mas percebemos, a partir das manifestações dos grupos, que a realidade de classe média apresentada se distanciava muito da realidade que aqueles jovens viviam. Ele retratava uma realidade mais próxima àquela que nós mesmas conhecemos e vivemos. O distanciamento entre as realidades se impôs. Sentimo-nos mobilizadas, o que nos levou a refletir sobre a experiência que se iniciava. A partir desta reflexão, passamos a solicitar que os próprios adolescentes indicassem os filmes, conforme os seus interesses.

Foi interessante observarmos que as escolhas de filmes feita pelos jovens evidenciava diferenças entre os dois grupos, ainda que ambos os grupos demonstrassem vulnerabilidades semelhantes, como sua precária condição financeira e social. O grupo da tarde era mais tranquilo, e os jovens apresentavam problemáticas próprias de sua fase de vida. Comparados aos jovens da manhã, eram menos desafiadores. No grupo da manhã, eram mais rebeldes e contestadores.  Questionaram se nós tínhamos ideia de sua vulnerável condição social, da realidade que eles viviam.

Em certa ocasião, um componente do grupo da manhã, a quem chamaremos de Elvis, sugeriu que assistíssemos o filme Cidade de Deus, o que foi acatado pelo grupo. Perguntado por que desse filme tão violento, respondeu que isso era o que viviam no seu dia a dia. Seguiu-se, então, um debate entre nós quanto a levar este filme ou não. Perguntamo-nos se tínhamos, efetivamente, a dimensão real da experiência de vida destes adolescentes e como iríamos manejar toda a angústia e violência que o filme poderia fazer emergir no grupo, tanto nos jovens quanto em nós mesmas. Vimos que não poderíamos nos esquivar disso e acatamos a decisão do grupo. Definimos, no entanto, que este filme poderia somente ser assistido na turma da manhã, que o solicitara. Consultamos o coordenador do centro, que confirmou que muitos destes jovens viviam uma realidade próxima a esta.

 O trabalho sobre este filme foi um grande desafio, mas teve consequências significativas.  No dia da exibição, estávamos apreensivas sobre como ele transcorreria, mas o grupo se mostrou suficientemente maduro para a discussão. 

Elvis, o menino desafiador que sugeriu o filme, reafirmou que aquela era a realidade deles. No entanto, grande parte do grupo disse não sentir assim, que se tratava de um filme muito violento e que esta não era a realidade de todos que ali estavam. Seguiu-se um bom debate, em que se manifestaram diferentes realidades, distintas percepções e formas de enfrentá-las. Durante o debate, foi possível observarmos o surgimento de novas lideranças no grupo. Um menino que falava pouco abordou a questão da supervalorização da violência, como um contraponto no debate. Isso levou a uma discussão consistente e desapaixonada do filme. No encontro seguinte, detectamos alguma mudança em Elvis: estava de cabelo cortado e numa postura mais participativa. Pareceu-nos que o grupo funcionou como um limite para este jovem e que lhe proporcionou certa continência. Estas nuances de mudança nos deixavam com a sensação de que havíamos podido ajudá-los, permitindo-lhes que falassem sobre a violência e sobre seus temores.

Além do trabalho com os adolescentes, outro polo de nossa experiência eram os encontros mensais com o grupo dos pais dos jovens assistidos pelo Projeto. Num destes encontros, ficaram evidentes as preocupações destes pais com o futuro dos filhos frente à realidade social em que vivem, inclusive com o local onde moram, tendo expressado que "a droga está na porta".  A mãe de Elvis trouxe sua preocupação com o filho, pois ele aparecia em casa usando objetos pessoais de valor, que não condiziam com as condições da família. Percebemos que a questão das drogas é aterrorizante para os pais que, preocupados, se sentem reféns de uma realidade difícil de lidar.

Na reunião de encerramento do ano, os pais verbalizaram sentimentos de gratidão ao Projeto. Vários mencionaram a transformação dos filhos, inclusive a mãe de Elvis. Para os jovens, também se encerrava o ciclo de um ano juntos. Eles teriam uma cerimônia de formatura para formalizar o término de sua participação. Encerrávamos, também, os nossos encontros daquele ano e oferecemos entrevistas individuais aos jovens que tivessem interesse. Algumas entrevistas foram solicitadas e percebemos que era um verdadeiro pedido de ajuda. Estes jovens foram encaminhados para atendimento individual em instituições da comunidade.

 

  1. A experiência continua: o ano de 2014

 

Reiniciamos o trabalho com as duas novas turmas em abril de 2014. A experiência do ano anterior fez com que nos sentíssemos um pouco mais instrumentalizadas. Ficamos cientes da necessidade de nos questionarmos e de procurarmos aprimorar, constantemente, o nosso fazer. Assim, neste segundo ano, já começamos desde outra perspectiva. Utilizamos outras técnicas, além da discussão de filmes, tais como telefone sem fio e quem tem coragem de abrir o pacote.

Entre tantas, destacamos uma experiência na segunda reunião do ano com os pais e os adolescentes. Neste encontro, houve muita dispersão, barulho e dificuldade de comunicação. Comentamos das dificuldades de comunicação ali, entre nós e também a que ocorre entre pais e filhos, dificuldades que são inerentes às diferenças de linguagens entre adolescentes e adultos. Era evidente uma tensão no grupo, derivada destes conflitos.  Embora esta reunião tenha sido agitada, por vezes confusa, surgiu um pedido formal da equipe para que participássemos de uma reunião com eles, o que consideramos um ganho.

Na reunião de equipe que participamos, em função daquela solicitação, observamos que os docentes estavam perplexos e sem saber como fazer a leitura do comportamento de muitos adolescentes, assim como dos grupos atuais. A equipe, composta por professores e por um assistente social, nos pediu ajuda para compreender algumas situações de alunos. A partir de seus relatos, percebemos que se tratavam de situações importantes de depressão. Quando nomeada a depressão para os professores, veio um alívio, acompanhado, porém, de angústia e de temores. A equipe se sentia só e perdida num turbilhão de problemas e de emoções complexas.

Outra situação que o nosso atendimento se fez necessário foi em um fato traumático para a equipe do Projeto. Ocorreu o roubo de um computador pertencente ao professor que fica mais tempo com as turmas. A suspeita da autoria do roubo recaiu sobre Elvis (o mesmo que havia sugerido Cidade de Deus). Esta situação fragilizou a todos da equipe. Percebemos que a instituição estava vivendo um momento de desorganização, com certo desencantamento e desesperança. Talvez pudéssemos caracterizar o momento como “contaminação” da depressão. Novamente, a equipe nos pediu ajuda.

Foi interessante o desenvolvimento destas ocorrências e os efeitos dela, também para o nosso grupo de psicanalistas que trabalha no projeto. Em nosso encontro posterior a estes fatos, estávamos com dificuldade para objetivar nossas tarefas. Dispersas, estávamos com dificuldade de unificar nossas informações. Percebemos, assim, que também na nossa equipe estávamos passando por um intenso – e novo - momento de desorganização e de angústia. Parecia que estávamos “descosturadas”. As nossas emoções, apesar de ainda não evidenciadas, estavam à flor da pele. Precisamos parar para nos observar. Ao refletirmos sobre o que estava acontecendo, nos demos conta de que era possível que, além de nossas próprias angústias, nossa dispersão como equipe também se devesse ao momento da instituição que assistíamos. Detectar isso foi transformador. Pudemos retomar nossa capacidade para pensar os conflitos. Percebemos que frente às circunstâncias, precisaríamos ampliar o foco de nosso trabalho: quando solicitara a nossa presença em sua reunião, a equipe que atendia diariamente os jovens e seus pais estava manifestando a sua própria sensação de desamparo e angústias pela falta de compreensão e intensidade de emoções. Assim, eles também precisavam que nós os assistíssemos. Daí, decidimos priorizar o trabalho com os professores do centro.

Ao conversarmos, entre nós, sobre o roubo ocorrido nas instalações do projeto e sobre o fato da suspeita estar recaindo sobre um ex-aluno, lembramo-nos que no primeiro filme passado na turma de 2013, havia uma cena de roubo de um computador, cometido por um dos adolescentes na escola. O roubo, então, nos pareceu uma reprodução daquela cena do filme. Pensamos que, uma vez confirmada a suspeita sobre o jovem Elvis, tal roubo poderia conter um pedido de socorro do menino. Compreendendo o roubo como uma comunicação do jovem, encontramos como significado o pedido de ajuda através da atuação de uma situação-limite.

 

  • Reflexões

                

              Prosseguimos nosso trabalho com um novo grupo durante o ano de 2015. Estamos, hoje, iniciando 2016, com disposição para trabalhar com mais dois novos grupos. Nos sentimos mais atentas às nossas contratransferências e sensibilizadas com os limites das possibilidades de alcance da nossa intervenção, que se dá apenas através de um encontro mensal com cada grupo. Procuramos prestar muita atenção em nossas reações, sentimentos e pensamentos nesta atividade. As vivências e os sentimentos pessoais de angústia, culpa e dor a que somos confrontados no contato com realidades muitas vezes cruéis nos convocaram a revisar os parâmetros com os quais vínhamos trabalhando.  Fomos levadas a pensar em nosso papel na prevenção de saúde mental destes grupos, cujos indivíduos têm vidas familiares tão conflituosas, com diversas vivências de violências, além da proximidade com drogas e tráfico.

 O contato com estes jovens e suas falas nos mobilizavam. Uma de nós descreveu que ao entrar na sala com os adolescentes, vivenciou uma sensação de peso, como se o ar estivesse pesado e fosse lhe faltar o oxigênio necessário para conseguir falar. Em alguns momentos, faltavam-lhe palavras, pensamentos. E assim, ela fazia um esforço para não cair num vazio silencioso. Outra situação de impacto foi experimentada numa ocasião, ao escutar a conversa de dois jovens que, com ar debochado diziam: “roubar é pegar emprestado, não precisa falar para a pessoa”. O sentimento despertado, então, não foi o de pena, tristeza ou dor, mas sim o de medo, de impotência, da sensação de que há uma violência maior, imbatível. E uma angústia associada a estes sentimentos. Qual o alcance de nossa tarefa?

O impacto destas realidades sobre nós, quer seja através de um olhar esquivo, de barulhos da sala, das diferentes formas de linguagem, primitivas ou não, constatações muitas vezes duras, é contrabalançado pelo sorriso aberto que aparece quando sentimos que aqueles jovens se sentem respeitados e compreendidos por nós. Esta complexidade da experiência nos enriquece. Será esse o alcance da nossa tarefa?

Salientamos, ainda, nossa ideia de que é fundamental que façamos uma leitura profunda e constante de todo o nosso processo neste trabalho. O trabalho junto a uma população mais vulnerável nos coloca diante da questão do limite: os nossos limites, internos, os das nossas teorias e práticas e também os limites impostos pelas realidades de exceção. A partir de nossa experiência e consequentes preocupações, percebemos a pertinência de fóruns de discussão mais ampla e abrangente a respeito de como a psicanálise poderá intervir em situações sociais com tais realidades, especialmente frente aos adolescentes vítimas sociais do desamparo.

Prosseguimos, a guisa de conclusão, com o relato de duas experiências vividas nos grupos, em 2015, uma junto aos adolescentes e outra junto aos pais.

 

Éramos três analistas com certa experiência a caminho do local onde encontraríamos um grupo de adolescentes de baixa renda, ligado a um projeto profissionalizante. No percurso recordávamos o que havíamos combinado em reunião, sobre como iniciar o trabalho que duraria todo o ano de 2015 com estes jovens. Estaríamos preparadas? Havia certa apreensão no ar. Agora, por nossas experiências anteriores, tínhamos ideia de que tipo de população encontraríamos.

                  Eram jovens sorridentes de 16 a 18 anos. Prontamente aceitaram fazer um círculo, e iniciamos com breves apresentações: nome, idade, grau de escolaridade, onde moravam e estudavam. Observamos que muitos residiam bem distantes dali e de suas escolas, precisando fazer longos percursos diários. E, ao contrário de outras turmas com quem trabalhamos, a maioria já estava cursando o ensino médio.

Explicamos porque estávamos ali e que tipo de trabalho pretendíamos. Falamos sobre a possibilidade de se pensar o momento de suas vidas, angústias possíveis, conflitos que pudessem surgir nesta caminhada. Acreditávamos que falar, escutar uns aos outros, colocar o que sentiam em palavras poderia ajudar. A seguir, solicitamos que cada um escrevesse uma palavra que fosse significativa para si. Distribuímos folhas e, de improviso, combinamos de nós mesmas também escrevermos. Assim, iniciamos falando nossas palavras: vida, amor e contribuição. Colocamos suscintamente o motivo de nossas escolhas e eles seguiram lendo e explicando as palavras que escreveram. Foi impressionante ver a capacidade de expressão afetiva destes jovens. Suas palavras foram: amor, união, felicidade, novamente amor (que move as pessoas), sofrimento (querendo aprofundar o assunto e saber de nós o que é sofrimento), paciência, amor e respeito (essencial para o ser humano), compaixão (se colocar no lugar do outro), mãe (menino adotado que revela a falta), família e fé, desafio, dedicação (para se chegar a um lugar), união (é o que já começa a faltar neste grupo), sucesso (ter sucesso com ética), conhecimento.

Cada um foi explicando o motivo da eleição da palavra e apareceram coisas surpreendentes para um primeiro encontro. Falaram que iniciaram todos se relacionando muito bem, mas de um momento em diante começaram a se fazer sentir diferenças entre eles. Alguns tinham brincadeiras pesadas com os demais; às vezes faltava ética na forma como se colocavam. Vários comentaram que levavam tudo na brincadeira na tentativa de não levar para lá o peso que carregavam com a problemática de suas vidas; o menino que colocou a palavra “mãe”, contou que era adotado porque seus pais eram drogados e não o assumiam. Todos foram se escutando, alguns falaram pouco, mas todos se colocaram.

Propusemos, a seguir outra rodada de palavras.  Mais uma vez entramos na tarefa e nossas palavras foram: ética, potencialidade e comunicação. Dos jovens: sabedoria (usar bem o conhecimento), amizade (todos precisam), integração, sofrimento (depois de sofrer as pessoas valorizam a vida), medo, confiança (demoro a confiar pois já levei muitas rasteiras), esperança (tem que acreditar, mesmo que haja 1% de possibilidade), tranquilidade (aqui sou mais tranquilo do que lá fora, que é lugar de angústias), compreensão, equilíbrio (novamente a diferença entre lá fora e aqui dentro), respeito, individualismo e compreensão.

Uma jovem nos chamou atenção. Sua palavra foi: medo. Falou esta palavra com o peso de chumbo. Pediu para não explicar o motivo de sua eleição. Ao se ver respeitada em seu desejo, inesperadamente , diz com o mesmo peso: Matei uma pessoa! Fica um grande silêncio no ambiente. Estávamos próximo do final do tempo. Então, uma das coordenadoras diz: -Algumas vezes a gente mata partes de si mesmo. A jovem ri um pouco excitada e brinca: -Só falta agora eu ter matado uma parte de mim...Hahaha

O trabalho prossegue, os colegas retomam suas palavras e o grupo finaliza. 

Saímos bem impressionadas com o grupo. As palavras pronunciadas pela jovem que trouxe o medo continuaram a repercutir na nossa mente. Em dado momento, associamos com a personagem do filme “Preciosa”.

Ao fazermos isto nos demos conta do profundo impacto que nos causou a sua fala. Certamente a intervenção da coordenadora tinha um caráter defensivo para não  enfrentar a percepção de uma possível violência concreta. A ironia expressa na resposta da jovem, posterior a intervenção da coordenadora, denunciou uma dissintonia de discursos. Situações que revelam nossa vulnerabilidade. Impossível discernir entre ato ou sonho.

Essa primeira vivência com o grupo de jovens acima relatada norteou o trabalho que se desenvolveu durante o ano.

Outra situação a ser relatada foi uma experiência com o grupo de pais.

Na sala, a disposição das classes era em “U”. Em um “L”, estavam as mães. Desta vez, não havia pai presente. Uma mãe na faixa dos 30 anos trouxe um de seus filhos, o mais moço. Um menino que aparentava dez, onze anos. A figura do “U” completou-se conosco, sentadas do outro lado: duas psicanalistas e a educadora social dos jovens. Tratava-se de nosso segundo encontro.

As mães relatavam com alegria e espontaneidade a evolução de seus filhos e o grande envolvimento com as atividades do Projeto, especialmente a respeito de uma importante apresentação que a turma fizera. Envolvera muito estudo e preparo. E foi em meio a este clima de gratidão e reconhecimento que uma pergunta de S., a mãe que tinha o menino a seu lado e que vinha à reunião pela primeira vez, nos mobilizou e surpreendeu:

S - Estou muito contente com o meu filho X, que está no Projeto, vejo ele aprendendo a ter responsabilidades, amadurecendo. Mas eu queria saber se eu posso falar aqui de quem não faz parte do Projeto (enche os olhos de lágrimas, carregada de emoção).

A minha vida e a dos meus três filhos não é fácil, eu sei que a vida de ninguém aqui é fácil, mas eu queria saber se teria como vocês me ajudarem com este meu pequeno aqui (que, timidamente, sorria e tentava se esconder atrás do boné que usava, baixando a cabeça, enquanto a mãe falava sobre ele). É que eu sou sozinha, me separei há uns anos e o meu ex-marido era diabético. Este meu pequeno aqui, que guri maravilhoso, era quem cuidava do pai, aplicava insulina nele, desde os seus 8 anos. Acontece que o pai deles morreu no ano passado, em frente a este meu guri que cuidava dele. Eu fico preocupada com ele (enquanto relatava detalhes sobre a doença e o fato de que o filho que se dedicava ao pai era ele, o menino, silenciosamente, começou a chorar).

Na sala, fez-se um silêncio. Tínhamos a sensação de que as pessoas, solidariamente, não se mexiam. Um grande pesar se impôs. E os nossos olhos se voltaram para aquele desamparado menino, que, tão cedo, já carregava tamanha história de responsabilidade e de dor. O menino, cujos olhos eram só afeto, que antes sorria timidamente, pôs-se a chorar e parecia tentar se conter.

No final da reunião, fomos imediatamente conversar com o menino. Quanta docilidade, dor, tristeza e quanta força para não sentir, como se esta fosse a maneira de superar este grande trauma. Impossível não nos emocionarmos com esta intensidade de sentimentos, tanto da mãe, preocupada, quanto do filho enlutado. O que mais nos vinha à mente era “que menino fantástico, que força, que coragem, que dor!”. E dissemos isto para ele.

A dor daquelas pessoas parece ter nos invadido a ponto de nos emudecer, de termos ficado silenciosas até chegarmos ao carro, findada a reunião. E registramos a impressionante capacidade daquela mãe de buscar ajuda, de avaliar a dor de seu filho, mas também o seu sentimento de impotência. Algo que também sentimos, em certa medida, guardada as proporções e as perspectivas de cada parte. A mãe sentiu-se grata por ter falado, o menino aliviado por sentir que chorar é necessário e, ao contrário, pode dar forças, e não tirar.

Parece-nos haver uma relação direta entre os impactos que sentimos diante de tristes constatações e as nossas emoções primitivas. O trabalho com o grupo deste projeto social nos coloca diante de lugares diferentes de nossa rotina diária. Saímos de um lugar seguro. A cada nova situação, há uma exigência de que nos situemos interna e externamente, numa busca de compreensão.

Muitas vozes surgem, internamente, no contato com estes jovens e com seus relatos. Barulhos que nos são estranhos e que não fazem parte do nosso dia-a-dia, são motivos para que nos avaliemos. Uma das colegas mencionou que lhe chamava atenção o cheiro que sentia ao entrar na sala. Ainda que isto seja algo delicado e difícil de  expor, é, ao mesmo tempo, um registro que merece ser levado em consideração, pois nos revela as intensidades que circulam. É difícil sair do nosso consultório que exala perfumes conhecidos e controlados e ingressar em uma sala onde podemos sentir o mais inexorável do humano, que nos interroga a todo o momento como pessoas. Escutamos coisas diferentes das habituais, sentimos cheiros diferentes daqueles que mais conhecemos.  A gente aprende em cada encontro.

 

 

 

 

 

Referências

 

Freud, S. (1912). Totem e Tabu. In: S. Freud. Edição standard das obras psicológicas     completas de Sigmund Freud (Vol XXI). Rio de Janeiro: Editora Imago, 1969.

_________ (1921). Psicologia das massas e análise do ego. In: S. Freud. Edição standard das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (Vol XXI). Rio de Janeiro: Editora Imago, 1969.

_________ (1927). O futuro de uma ilusão. In: S. Freud. Edição standard das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (Vol XXI). Rio de Janeiro: Editora Imago, 1969.

_________ (1929-30). O mal-estar na cultura. In: S. Freud. Edição standard das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (Vol XXI). Rio de Janeiro: Editora Imago, 1969.

 

 

 

Maria Elisabeth Cimenti

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