SMED


Trabalhos

ENTRE A PSICANÁLISE E A EDUCAÇÃO: DIÁLOGOS E EXPERIÊNCIAS

 

 

 

                                                                         Coordenadoras: Alice B. Lewkowicz*

                                                                                               Mery P.Wolff**                                                                                                                                     

 

                                                                          Componentes: Alida Fuhrmeister***

                                                                                                  Ana Margareth Bassols*

                                                                                                  Carmem Keidann*

                                                                                                  Denise Lahude ***

                                                                                                  Eleonora Spinelli*

                                                                                                  Eneida Iankilevich**

                                                                                                  Joyce Goldstein*

                                                                                                  Maria de Fátimas Freitas*

                                                                                                  Maria Elisabeth Cimenti**

                                                                                                  Maristela P. Wenzel *

                                                                                                  Marlene Silveira Araújo**

                                                                                                  Regina Sordi***

                                                                                                  Rosângela Costa***

                                                                                                         

                                                                          Consultor:       Jairo Mello Araujo****

 

 

 

                        Este trabalho inicia com uma interrogação: como apresentar uma experiência? Que nome dar a um trabalho que vem se realizando, com grupos de educadoras, coordenado por psicanalistas e que não cabe nas clássicas denominações de grupo terapêutico, ou pedagógico, ou operativo, ou reflexivo?  Não é objetivo chegar ao final do texto com uma única resposta; pelo contrário, a intenção é seguir sustentando perguntas e perplexidades sobre um trabalho que tem revelado múltiplas potências. Trata-se de apresentar uma experiência que tem se desdobrado em vários planos. E, como toda a experiência, passa por aquilo que nos acontece e por aquilo que fazemos com o que nos acontece.

Passa, sobretudo, pela intensidade dos afetos que vão se desvelando, se aprofundando e alimentando uma convicção de que algo importante se iniciou num passado próximo e segue produzindo efeitos que são, simultaneamente, terapêuticos, pedagógicos, operativos, reflexivos e que, ainda assim, não configuram uma soma simples de todas essas categorias.

                        A iniciativa do contato entre a Prefeitura Municipal de Porto Alegre e a Sociedade Psicanalítica, ocorreu no ano de 2006. Ao que tudo indica, partiu da Secretária Municipal de Educação que, sensível às exigentes demandas provenientes da Educação Infantil, propôs à Sociedade Psicanalítica (SPPA), uma parceria de trabalho. Os esforços foram concentrados nas creches conveniadas, instituições nascidas em comunidades carentes e cuja origem remonta às práticas informais de cuidados de bebês e crianças pequenas, filhos de pais trabalhadores. 

            Com a nova Constituição que universalizou a Educação Infantil, a SMED estabeleceu convênios com as Associações de Moradores, representantes das comunidades, transformando grande parte dessas residências em escolas infantis conveniadas, o que favoreceu o recebimento de recursos financeiros, materiais, apoio pedagógico, nutricional e formação pedagógica continuada para as educadoras. A relação entre estas escolas e a SMED, todavia, não é direta. As comunidades que as abrigam possuem seu próprio Conselho Comunitário que estabelecem as leis de funcionamento das próprias comunidades. Muitos destes líderes comunitários elegem os/as diretores/as das escolas e selecionam educadoras conforme critérios nem sempre muito claros para a comunidade nem para os técnicos (assessoras) encarregadas pela SMED de dar orientação pedagógica para as escolas.  Cabe destacar que essa relação entre a escola, o Conselho Comunitário, a comunidade e a SMED configura jogos de poder específicos a cada região da cidade onde estão inseridos.

            Na ocasião em que organizamos o primeiro projeto SPPA-SMED de capacitação de educadores das creches conveniadas, temas políticos que envolviam a complexa relação entre os Conselhos Comunitários, as creches, a comunidade e a própria SMED ainda eram desconhecidos para nós.

            As várias reuniões preparatórias, ocorridas no ano de 2006, decidiram por albergar as creches que haviam participado da Mesa Educadora, projeto de capacitação de educadores vinculado a UNESCO.

            O grupo de educadoras bem como o de psicanalistas com formação em infância e adolescência, deu início ao projeto no ano de 2007. Contamos com a colaboração de 32 psicanalistas e mais três colegas de outras áreas: uma educadora, uma assistente social e uma psicopedagoga e estavam inscritos no programa 106 educadores das creches conveniadas. A SMED colocou como condição para a participação no projeto que todos os funcionários -do diretor à funcionária da limpeza- se inscrevessem na atividade. Essa condição nos surpreendeu favoravelmente, pois as funcionárias “sem nenhuma formação acadêmica” tiveram uma participação fundamental nas discussões podendo legitimar sua função decisiva na equipe das escolas infantis.

O programa, realizado em 2007, intitulou-se “QUEM SÃO NOSSAS CRIANÇAS” (anexo 1). Encontros semanais ocorreram na sede da SPPA, com a duração de três meses. Os trabalhos eram abertos em plenária, sendo que, para cada encontro, uma profissional – psicanalista ou não - era especialmente convidada para expor algumas idéias atinentes ao tema do encontro num breve tempo de 20 minutos.  O intervalo que se seguia a este primeiro momento, era muito apreciado por todos, na medida em que favorecia um contato mais informal entre  os envolvidos na atividade.

Cada encontro culminava com uma reunião em pequenos grupos de discussão. Uma dupla de psicanalistas tinha por função coordenar, por dois encontros seguidos, um grupo de aproximadamente dezesseis participantes do projeto. A composição dos grupos obedecia ao critério de reunir o maior número possível membros de diferentes creches evitando, assim, incluir num mesmo grupo muitos membros de uma mesma instituição.

A riqueza do trabalho foi-se revelando na medida em que as discussões se aprofundavam. Em muitos aspectos de sua prática profissional, as educadoras se enfrentavam com as dificuldades impostas pela própria organização das comunidades e de suas instâncias de poder. Por sua vez, assuntos graves como a constatação de abuso sexual e moral a crianças com idade inferior a 5 anos, vinham carregados de sentimentos de medo e impotência do lado das educadoras e dos psicanalistas que, quando buscavam apoio institucional ou interinstitucional, esbarravam com políticas de silêncio ou ameaças contra a própria vida e/ou de seus familiares. Temas como tráfico de drogas, adultos abusadores, abandono e negligência, eram assuntos recorrentes nos grupos. Muitas das crianças que freqüentavam as creches eram filhas deste ambiente extra-escolar carregado de perigos, ameaças e todo o tipo de miséria humana.

Ao mesmo tempo em que traziam suas preocupações e expressavam suas angústias, as educadoras também apresentavam saídas criativas para muitas das graves situações vividas em seu cotidiano. As trocas eram sinérgicas, havia pouco espaço para a monotonia e a falta de idéias. Muitas vezes, falar sobre a infância de seus pequenos alunos implicava em reconhecer que elas também foram vítimas de abusos semelhantes em sua infância e adolescência. Sendo muitas delas oriundas e/ou residentes da mesma comunidade em que trabalhavam, sendo também educadoras de seus próprios filhos, nas creches, provocavam sentimentos ambíguos nas coordenadoras, ora de confusão, ora de admiração, ora de perplexidade.

Como corolário deste primeiro ano de trabalho, cinco escolas participantes apresentaram projetos específicos, desenvolvidos em suas instituições e considerados importantes pelas educadoras. Cada trabalho foi debatido por uma psicanalista e com a participação da platéia.  Além do esmero na apresentação de cada trabalho, chamou atenção o bom nível das idéias trazidas e que traduziram o investimento no cuidado com as crianças.

 Com a bagagem da boa experiência inicial, iniciamos o ano de 2008 atendendo outras vinte creches conveniadas (85 educadoras), contando com a coordenação de 34 psicanalistas, nos pequenos grupos, e mais três colegas de áreas afins que fizeram apresentações no momento da plenária.

            Foi com esta bagagem de temas e perplexidades que o grupo de psicanalistas decidiu se reorganizar internamente, antes de propor a continuidade do projeto para o ano de 2009. Muitas e importantes questões emergiram do grupo que coordenou os trabalhos com as educadoras. Perguntamo-nos, por exemplo, como pode a psicanálise ser efetiva no trabalho com comunidades carentes, onde sabidamente, existe uma prática de violência e violação dos direitos humanos. Reconhecendo nossas limitações no que diz respeito ao encaminhamento de muitos dos assuntos trazidos pelas educadoras, buscamos uma assessoria com um profissional Assistente Social com larga experiência no trabalho comunitário.  Junto com ele, estudamos vários textos escritos por colegas de áreas afins à psicanálise, com o intuito de melhor compreender as lógicas de vida das comunidades carentes com as quais trabalhávamos.  Fomos acompanhadas por leituras de Fonseca (1994, 1999, 2004), Bondía (2002), Cordié (1998), texto trazido pelo Jairo, Filloux (1996), Laville (1996) e Cassorla (2001). Por vários momentos, tateamos por zonas escuras, auscultando paredes construídas com materiais que sabíamos existir, mas que não sabíamos lidar. Muito embora não sejamos alheias ao mundo de carências materiais e subjetivas que nos rodeiam e atravessam, ainda assim, sentíamos o peso de nossas próprias carências para compor com tantas diferenças: diferenças de valores sociais, familiares, culturais, materiais, crenças e preconceitos. Nossos debates eram intensos e, a cada tanto nos perguntávamos: que tipo de grupo fazemos?  Que tipo de trabalho queremos realizar?  Estamos para ensinar o que é certo, o que é errado, para aconselhar, para dar receitas sobre como proceder frente a tal ou qual situação?  Como pode contribuir a psicanálise no “extra muros”, em diálogo com a educação infantil?  Como pode a psicanálise se articular com a rede de políticas de saúde e de educação, exercendo sua potência e se potencializando com o conhecimento interdisciplinar?

                        Entendemos, após um largo período de estudos e discussões, que nosso principal objetivo, para os próximos grupos, seria o de estimular a abertura de espaços de pensamento, de problematização. Neste sentido, toda e qualquer informação poderia ser oferecida, desde que servisse para os propósitos de abrir espaços de reflexão. Não seria nosso propósito apresentar soluções de como proceder em tais ou quais situações. Muito embora fosse este o pedido de muitas educadoras, nossa postura seria a de dar mais sustentação às discussões, às reflexões, do que alimentar a urgência de encontrar soluções a problemas tão complexos. Entendemos que problemas que envolvem políticas públicas e que, por conseqüência, extrapolam o escopo de nossa intervenção, precisam ser dimensionados em sua larga abrangência. Incluir a reflexão nesta dimensão mais realística tanto pode aumentar a potência de trabalho, quanto diminuir tentativas de encontrar soluções rápidas e imaginárias que, por não se sustentarem, aumentam a descrença, geram impotência e frustração.

            Com uma proposta de trabalho pensada por um grupo mais amadurecido e sempre em conjunto com nossa assessoria e as coordenadoras da Secretaria Municipal de Educação, o programa de 2009, efetuou importantes alterações. Houve um aprofundamento das discussões nos grupos e, para tal, as participantes dos grupos, foram educadoras que já haviam completado uma das capacitações anteriores. Na nova versão, participaram 80 educadoras, sendo 2 de cada uma das 40 creches.

            As coordenadoras dos grupos (duas psicanalistas que se revezavam entre coordenação e relatoria), também se mantiveram constantes durante todo o trabalho, acompanhando o mesmo grupo. Outra modificação importante foi o momento da plenária que passou a ser protagonizado pelas próprias educadoras. A cada encontro, tendo como mote o tema planejado para cada reunião (anexo 2), uma creche era encarregada de realizar uma breve apresentação sobre o mesmo.

        No geral, as educadoras manifestaram a necessidade de seguir aprofundando a discussão sobre temas recorrentes como: sexualidade infantil e sua repercussão na sexualidade adulta, a importância do brinquedo e brincar, a amamentação e desmame, a família e as conseqüências no desenvolvimento infantil, limites, agressividade e violência.

         No final do ano, as psicanalistas visitaram várias creches conveniadas, participantes do projeto.  Sua recepção, nas creches, foi calorosa e muito valorizada pelas educadoras. Era a primeira vez que mostravam sua “casa” para as psicanalistas; até então, todo o trabalho ocorrera na SPPA. 

         No primeiro semestre de 2010, realizamos mais uma etapa do projeto, atendendo a outras XXX creches conveniadas e atendendo a agenda proposta pelo anexo 2. Os temas de cada encontro foram introduzidos ao grande grupo, no primeiro momento, pelas psicanalistas que, depois, seguiram coordenando os pequenos grupos.

         O trabalho seguirá acontecendo no segundo semestre de 2010; felizmente como tem sido nossa prática, nada acontecerá de forma automática, obedecendo a uma agenda pré-planejada. Já estamos novamente nos reunindo, discutindo, refletindo e avaliando, refazendo, inventando.  Como dissemos no início do texto, trata-se de apresentar uma experiência. Mas não apenas isso; trata-se de vivê-la em suas vacilações, em seus sobressaltos, em suas promessas e de estar a altura do seu acontecimento. 

         Se uma conclusão provisória pode emergir deste trabalho, ela diz respeito a uma intuição do biológico Francisco Varela (2007).  Subvertendo alguns princípios da Imunologia clássica, Varela argumenta contra a idéia de que o sistema imunológico só existe para perseguir invasores do organismo.  Se assim fosse, o sistema não se manifestaria na ausência de invasores, fato que não acontece com cobaias criadas em ambientes totalmente livres de qualquer contaminação externa e que apresentam sistemas imunológicos normais e bem desenvolvidos.  Que ilação  podemos fazer pensando no campo social?  Tomemos o exemplo das drogas, ou da violência e todas as doenças que acometem essas comunidades com as quais trabalhamos. Não basta produzir vacinas contra essas doenças, campanhas contra as drogas, guerra ao desarmamento, pois essa visão não leva em conta a natureza global de regulação do sistema.  A doença gera mais doença. Segmentos de drogadição geram mais destruição a outros segmentos da sociedade. O que é necessário, nas palavras de Varela, é reconectar as partes doentes a uma sociedade que ofereça suporte, trabalho e cuidados familiares. Do contrário, de que valeria uma campanha contra a droga, se o drogado retorna a uma condição de vida miserável?   Em nossa experiência, as creches conveniadas têm funcionado como segmentos íntegros e, por vezes, os mais íntegros de algumas comunidades. É preciso, a nosso ver, reforçar esse segmento, injetar doses de reflexão, saúde e alegria nesses espaços.  Ao retornarem às suas casas, muitas crianças pequenas ainda encontram um ambiente avesso à sua dignidade e as educadoras, sentindo-se impotentes e desesperançadas, perdem a dimensão da importância de seu trabalho. Cremos que nossa tarefa psicanalítica - e política - tem sido a de inverter a lógica da desesperança e dar maior visibilidade à potência de vida que se gera no trabalho educativo das creches.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

 

BERENSTEIN, I. (1994) – Devenir outro com outro(s): Ajenidad, presencia, interferência.  Buenos, Aires, Paidós.

 

BONDÍA, J.L. (2002) – Notas sobre a experiência e o saber da experiência.  Revista Brasileira de Educação. n° 19, jan/abr, PP.20-8.

 

CASSORLA,R. (2001) –  Psicanálise e saúde pública. Revista Brasileira de Psicanálise, v. 35, n°3, PP. 729-50.

 

CORDIÉ, A. (1998) – El mal estar del docente. Buenos Aires, Nueva Visión.

 

FONSECA, C. (1994) – Preparando-se para a vida: reflexões sobre a escola e  adolescência em grupos populares. Em Aberto. Brasília, ano 14, n° 61, jan/mar. 1994 pp. 144-155.

 

___ (1999). O abandono da razão: a descolonização dos discursos sobre a infância e a família. In E. L. Sousa (Org.), Psicanálise e colonização: leituras do sintoma social no Brasil (pp. 255-275). Porto Alegre: Artes e Ofícios.

 

___ (2004). Os direitos da criança – dialogando com o ECA. In C. Fonseca, V. Terto Jr. & C. F. Alves (Orgs.), Antropologia, diversidade e direitos humanos (pp. 103-115). Porto Alegre: UFRGS.

 

FILLOUX, J.C. (1996) – Intersubjetividad y Formación. Buenos Aires, Novidades Educativas.

 

LAVILLE, C.B. (1996) – Saber y relacion pedagogica.  Buenos Aires, Novidades Educativas.

 

ZIMMERMAN, D. (1971) – Psicoterapia analítica de grupo.  São Paulo, Mestre Jou.

                                                               

Anexo I

 

 

                                                             

Curso para Educadores de Escolas de Educação Infantil - Convênio com a Secretaria Municipal de Educação/SPPA

 

   Quem são nossas crianças: um diálogo com a Educação Infantil

  

    A nossa proposta é de dividir as atividades do curso em duas etapas: na primeira realizaremos  um encontro por semana, nas quartas-feiras,das 19:30hs às 21:30hs, na sede da SPPA,durante três meses(de 20 de agosto a 5 novembro de 2008) e na segunda, promoveríamos encontros nas escolas,

Cada encontro semanal desenvolverá um tema teórico que será ministrado por um psicanalista da SPPA e, ocasionalmente, contará com um convidado de áreas afins. Temas esses que serão discutidos em reuniões de pequenos grupos que se seguirão a apresentação teórica. A intenção dessas discussões em pequenos grupos é aprofundar a compreensão dos temas propostos e possibilitar a troca de experiências  entre os profissionais de diferentes escolas.

 

 

 

 

Módulo 1-Chegando na escola de Educação Infantil

 

 

20/08/08-Quem são as nossas crianças?

-aspectos históricos (a invenção da infância)

-a família real x a família imaginada

 

27/08/08-Recebendo as nossas crianças

-ansiedade de separação pais x filhos

-expectativas e ansiedades da equipe escolar

    

3/09/08-Adaptação através do brinquedo

-objeto transicional

-brincadeiras (esconde-esconde, por exemplo).

    

10/09/08-Fortalecendo os vínculos

-educador-criança;-educador-família;-pais-filhos

 

17/09/08-O bebê (de 0 a 1 ano)

- alimentação - brinquedos específicos e seu significado para essa etapa do desenvolvimento emocional

- manifestações da sexualidade e da agressividade nessa etapa do desenvolvimento

           

 


Módulo 2-Cuidados integrados com a criança

 

24/09/08-Do andar ao falar (de 1 ano a 2 anos) –

-idem

-idem

    

1/10/08-Autonomia/Limites (dos 2 a 3 anos)

-Controle esfincteriano

-idem

-idem

     

8/10/08-Explorando a fantasia: contando histórias (de 3 a 5 anos)

-conflitiva edípica –

idem

-idem

 

 

 

Módulo 3- A escola como estratégia de prevenção

 

15/10/08-Trabalhando com a diferença

 

22/10/08-Quando a agressividade transborda

-maus-tratos na infância/agressividade na escola

 

29/10/08-Quando a sexualidade denuncia

 

5/11/08-Cuidar e educar

                                                          

 

 

 

 

                                        Anexo II

 

PROJETO SPPA/SMED

Programa do curso realizado em 2009

1° encontro - A equipe da escola

 

    * a equipe da escola, a família  e a comunidade

    * a sexualidade no berçário

    * a sexualidade no maternal 

    * a sexualidade no jardim

    * a questão limites/ agressividade no berçário

    * a questão limites/ agressividade no maternal

    * a questão limites/agressividade no jardim

 

 

 

 

 

 

* Membro Associado da Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre - SPPA

** Membro Efetivo da SPPA

*** Membro Aspirante da SPPA

**** Assistente Social e Professor da PUCRS

Simpósio Comemorativo dos 50 anos da SPPA

Das vulnerabilidades não sabidas

                                                                                                          Coordenadoras:  Alice B. Lewkowicz*

                                                                                                                                          Mery P. Wolff**                                                                                                                                     

 

                                                                                                          Componentes: Alida Fuhrmeister***

                                                                                                                                     Carlos Augusto Ferrari Filho**

                                                                                                                                      Carmem Keidann*

                                                                                                                                      Denise Lahude ***  

                                                                                                                                      Joyce Goldstein*                                                                  

                                                                                                                                      Maria de Fátimas Freitas*

                                                                                                                                      Maristela P. Wenzel *

                                                                                                                                      Marlene Silveira Araújo**

                                                                                                                                      Regina Sordi***

                                                                                                                                      Rosângela Costa***

                                                                                                          Consultor:         Jairo Mello Araujo****

 

A parceria SMED/SPPA teve início em 2007 e desde então já trabalhamos com 87 Escolas de Educação Infantil conveniadas pela SMED e localizadas em zonas de alta vulnerabilidade social da periferia da cidade de Porto Alegre. O trabalho, como já foi descrito em outras oportunidades, se desenvolve na SPPA, nas quartas–feiras, das 19h:30min às 21h:30min, durante os meses de maio e junho e outubro e novembro quando são realizados grupos de reflexão sobre assuntos propostos pelos educadores. São seis grupos coordenados por dois psicanalistas e dos quais participam, alem dos educadores, assessoras da SMED.

Nossa proposta hoje é apresentar algumas considerações sobre o impacto emocional deste tipo de atividade no grupo de psicanalistas que estão envolvidos nesta parceria.

Em 2009, depois de dois anos do início da parceria e apesar da avaliação positiva do grupo de educadores surgiram inquietações no grupo de psicanalistas quanto a qualidade do trabalho que vinha sendo prestado.

O que parecia evocar desconforto era o confronto com situações de violência relatadas constantemente nos grupos que caracterizavam abuso sexual e maus tratos infligidos às crianças pelas suas famílias e histórias do mesmo tipo de violência vividas pelas educadoras.

Em função desta angustia específica decidimos repensar nossos objetivos e o verdadeiro alcance do que poderíamos oferecer com nosso “conhecimento psicanalítico sobre desenvolvimento emocional na infância”. Foi ficando evidente que apenas os conceitos e prática clínica psicanalíticos não bastavam para a tarefa que havíamos nos proposto.

Com a participação de um consultor da área do Serviço Social passamos a nos reunir semanalmente para estudar alternativas que ampliassem nossa compreensão e abrissem novas possibilidades.

Assim, dos 35 colaboradores iniciais, formamos um grupo de 12 que tem se mantido constante, mas não totalmente o mesmo.

Enfrentar a violência racionalmente “conhecida e esperada” quando nos dispusemos a trabalhar tão intensamente com educadores em áreas urbanas de alta vulnerabilidade socioeconômica nos surpreendeu e imobilizou.

Como absorver o impacto desta realidade se somos provenientes de um meio sócio econômico onde a apresentação da violência tem outros matizes? Fazemos parte de um meio que se sente com o direito de ser protegido e de se rebelar quando é atingido por situações que consideramos “alheias” ao nosso mundo sociocultural.

No contato com esses educadores percebemos que a violência não é sentida como “estranha”, “nem provocada pelo descontentamento de um outro segmento da sociedade”: é uma violência reconhecida como “familiar”, inerente ao ambiente.

Em meio a essas impressões fomos dando continuidade ao trabalho possibilitado pela interlocução entre as reflexões provenientes dos grupos com os educadores e aquelas advindas das reuniões com o consultor.

A partir deste esforço emocional conjunto ampliaram-se os espaços de pensabilidade fazendo emergir uma percepção mais realista dos recursos disponíveis e da potencialidade criativa da parceria em construção.

Com menos teoria sobre o que seria o adequado para o desenvolvimento emocional daquelas crianças e mais escuta analítica, ampliaram-se as possibilidades de encaminhamentos para situações até então consideradas insuperáveis.

Enfim, tínhamos ido ancorados em teorias que seriam suficientes para dar conta dos problemas de uma realidade que não conhecíamos tanto quanto imaginávamos e tivemos que, aos poucos, ir nos liberando desta ancora e navegar em águas  revoltas e desconhecidas.

Cada vez mais temos nos deparado com as vicissitudes das vulnerabilidades não apenas no trabalho com os educadores, mas também no nosso próprio grupo para dar conta da complexidade que a tarefa vem nos exigindo.

Entre os psicanalistas do grupo concebemos tanto a psicanálise como a nossa inserção social de formas muito diferentes. Compartilhar essas diferenças tem sido um caminho interessante, mas cheio de “altos e baixos”. Dito de outra forma, intercalamos períodos onde prevalecem as tentativas de transposição do modelo da clínica para dar “conta do recado” com outros em que nos deixamos contaminar por aportes menos conhecidos propostos pelos educadores na dinâmica criada nos grupos que tem se mostrado mais promissores.

Com a intenção de ampliar a compreensão de nossos impasses trazemos as ideias de dois autores não psicanalistas cujas conferencias foram publicadas na RBP.

Começando com O Anti-Narciso: lugar e função da Antropologia no mundo contemporâneo, de Eduardo Viveiros de Castro (2010), antropólogo brasileiro, que discorrendo sobre a antropologia na atualidade propõe o seguinte:

Se é para ir até o outro lado do mundo, é na expectativa de que haja respostas diferentes e - a expectativa ainda mais excitante-perguntas diferentes. E que, portanto, a questão não é de encontrar as respostas que os índios (ou seja lá quem for) dão às nossas perguntas - porque sempre entendemos que as nossas perguntas são as mesmas que todo ser humano faz - mas colocar sob suspeita este pressuposto e imaginar que talvez as perguntas, elas próprias, sejam outras [...]. A arte da antropologia-e eu ousaria dizer a arte das Ciências Humanas - é a arte de determinar os problemas postos por cada cultura, não a de achar soluções para os problemas postos pela nossa.

 

A essa posição antropológica, o autor contrapõe uma outra: “Temos uma imagem do conhecimento antropológico [...] como sendo o resultado da aplicação de conceitos que são extrínsecos ao que estamos estudando [...] Nós temos o conceito e queremos simplesmente ver como ele é preenchido”.

Consideramos que esses recortes das ideias do Viveiros de Castro (2010) coincidem com nossas tentativas de dar conta deste outro que tem desmascarado nossas  vulnerabilidades .

A outra contribuição que propomos é a conferencia “Murar o Medo”, do escritor moçambicano Mia Couto. Citando o autor:

O medo foi um dos meus primeiros mestres. [...] Nem sempre os que me protegiam sabiam da diferença entre sentimento e realidade. Isso acontecia, por exemplo, quando ensinavam a recear os estranhos. [...] Os meus anjos da guarda tinham a ingenuidade de acreditar que eu estaria mais protegido apenas por não me aventurar para além da fronteira da minha língua, da minha cultura, do meu território. [...] O medo foi, afinal, o mestre que mais me fez desaprender. [...] No horizonte vislumbravam-se mais muros do que estradas. [...] Nesta altura, algo me sugeria o seguinte: que há neste mundo mais medo de coisas más do que coisas más propriamente ditas.

 

Após relevantes digressões sobre problemas econômicos, violência contra mulheres, a fome no mundo, o desamparo de crianças, o autor conclui dizendo:

Há muros que separam nações, há muros que dividem pobres e ricos. Mas não há hoje no mundo muro que separe os que tem medo dos que não tem medo.Sob as mesmas nuvens cinzentas vivemos todos nós,do sul ao norte,do ocidente e do oriente.

 

Nos grupos chocamos o desconhecido/depreciado com o desconhecido/idealizado: reconhecer o medo que esse enfrentamento nos produz talvez poderia ampliar nossas reflexões.

Não pretendemos  reduzir a complexidade da tarefa.

Nossa intenção é pensar o quanto temos tido um certo temor de confrontar, não apenas no grupo com os educadores, mas também no próprio grupo dos psicanalistas as diferentes teorias implícitas que movem no dia-a-dia nosso pensar psicanalítico.

Temos feito um esforço contínuo discutindo tanto novas aberturas teóricas quanto relatos dos grupos e elaboração de trabalhos para divulgar a atividade e encontrar novos interlocutores.

Depois destes 6 anos estamos nos aventurando na formalização do processo de pesquisa-ação da parceria SMED-SPPA e para tal passamos a contar com outro colaborador, colega psicanalista,com experiência neste tipo de pesquisa.

Consideramos que a continuidade do trabalho tem sido possível pela receptividade criativa que tanto a equipe técnica da SMED quanto os educadores das Escolas de Educação Infantil tem demonstrado ao longo dos descaminhos que este tipo de parceria nos coloca. Também tem sido decisivo o comprometimento do grupo de colegas que apesar dos impasses e tensões tem se disposto a levar adiante a tarefa através da guarida da SPPA que tem endossado nossas iniciativas.

Para concluir propomos uma resposta dada por um dos grupos de educadores à pergunta:

A escola infantil é um porto seguro?”


“Porto que não é tão seguro

Porto que te quero seguro

Porto seguro, me segura que eu não tô segura”.

 

Reconhecer a vulnerabilidade das nossas teorias talvez possa ajudar a ampliar esse tipo de escuta onde o clima de incertezas serve de matéria prima para alternativas genuínas para o delicado convívio do dia-a-dia entre crianças, educadores, assessores e psicanalistas.

 

Referências Bibliográficas

Viveiros de Castro, E. O Anti-Narciso: lugar e função da Antropologia no mundo contemporâneo. Revista Brasileira de Psicanálise, v. 44, nº4, p 15-26, 2010.

 

Couto, Mia. “Murar o Medo”. Revista Brasileira de Psicanálise, v.47, nº1,

  1. 29-31, 2013.

 

* Membro Associado da Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre - SPPA

** Membro Efetivo da SPPA

*** Membro Aspirante da SPPA

**** Assistente Social e Professor da PUCRS

Impactos que causam impasse frente à vulnerabilidade psico-social

Alice Becker Lewkowicz*, Porto Alegre

Alida Vitória Álvares Fuhrmeister**, Porto Alegre

Denise Vivian Lahude**, Porto Alegre

Josênia Heck Munhoz**, Porto Alegre

Leonor d’Avila Brandão**, Porto Alegre

Suzana Deppermann Fortes*, Porto Alegre

Resumo

O artigo utiliza o mito de Sísifo para ilustrar o trabalho que um grupo de psicanalistas da SPPA realiza desde 2006 em parceria com a SMED (Secretaria Municipal de Educação da Prefeitura Municipal de Porto Alegre) e a partir de 2013, com o Projeto Pescar/Poa. Apresenta uma contextualização e relato de ambas experiências através de vinhetas. Salienta que este trabalho, fora dos consultórios, desperta muitas inquietações e sentimentos de impotência. Obriga-nos a sair da posição do saber até a de sentir o desamparo frente a extrema violência. A banalização da violência tenderia a prejudicar nossa escuta? Primo Levy (1988) e Boris Cyrulnik (2009), que sobreviveram aos campos de concentração, nos ensinam a importância da palavra para dar um sentido possível ao sem sentido; destacam a possibilidade de mudar o sentimento íntimo de uma pessoa a partir do relato de suas experiências. Nos grupos de adolescentes, nos encontros com as familias do Projeto Pescar e nas rodas de conversa com educadores e assessores da SMED/Pref. Poa tentamos criar um espaço transicional que favoreçam a criação de metáforas possíveis que ampliem a capacidade dos sujeitos de dar conta de seus impasses Botbol (2013).

Palavras-chave: desamparo, violência, impasse.

Fonte: Google Imagens, 2016

A escolha desta imagem foi motivada pela lembrança do absurdo existencial proposto por Camus (2004), e a solução encontrada por ele. Para Camus, a questão fundamental da filosofia é o sentido da vida. Saber se a vida vale ou não a pena de ser vivida é o único problema filosófico verdadeiramente sério. E a falta de um sentido superior para a vida é um convite a seu aniquilamento. A constatação do absurdo essencial do mundo e a superação de um convite ao suicídio são os dois polos condutores de seu ensaio O mito de Sísifo.

O absurdo existencial diz respeito à vida, que é um caminho que nos conduz à morte. Viver já constitui um impasse existencial, uma situação sem solução favorável.

A Camus, interessa extrair deste absurdo suas consequências coerentes, que não sejam infiéis à lucidez que o revelou. Quando um homem se divorcia da vida, o suicídio aparece-lhe como solução, e é precisamente a relação entre o absurdo e o suicídio, a medida em que o suicídio é a solução do absurdo, o tema de seu ensaio. A lógica de Camus leva-o a extrair três consequências do absurdo: minha rebelião, minha liberdade e minha paixão. Viver é propriamente experimentá-las. Elas transformam em regra de vida o que era convite à morte e não admitem o suicídio. O homem absurdo esquece o eterno e vive intensamente sua vida perecível, isto é, a rebelião, a liberdade e a paixão que entranha. O absurdo implica um aumento de vida e liga-nos à terra com um laço mortal. Sísifo foi condenado pelos deuses a carregar, sem cessar, infinitas vezes, uma pedra até o alto de uma montanha de onde ela voltaria a cair arrastada pelo próprio peso. Este trabalho inútil e sem esperança é o destino do homem absurdo. Mas para Camus, Sísifo interessa no seu regresso ao pé da montanha, nessa pausa em que toma consciência de sua condição. Assim como Sísifo volta à sua pedra, o homem volta para sua vida. Assim como é inteiramente humano o esforço do herói, é inteiramente humana a origem de todo o humano e, só, o homem absurdo retoma sua vida numa noite que sabe sem fim.

Camus (2004) encerra seu livro:

Sísifo ensina a fidelidade superior que nega os deuses e levanta as pedras. Ele também julga que tudo está bem. Doravante, este universo sem amo não lhe parece estéril nem fútil. Cada um dos grãos desta pedra, cada pedaço mineral desta montanha cheia de obscuridade forma por si só um mundo. O próprio esforço para chegar ao cimo basta para encher um coração de homem. É preciso imaginar Sísifo feliz.

Sísifo tornou-se conhecido por executar um trabalho rotineiro e cansativo. Tratava-se de um castigo para mostrar-lhe que os mortais não têm a liberdade dos deuses. Os mortais têm a liberdade da escolha, devendo, pois, concentrar-se nos afazeres da vida cotidiana, vivendo-a em sua plenitude, tornando-se criativos na repetição e na monotonia.

O exemplo deste personagem da mitologia representa o trabalho que a SPPA realiza com o Projeto Pescar e, há 10 anos, em parceria com a SMED.

Projeto Pescar

Nosso grupo iniciou em 2013, com a atividade vinculada à FEPAL: A SPPA de Portas Abertas. Verificamos que a proposta dos participantes virem até nossa instituição não era a melhor. Surgiu, então, a possibilidade de parceria com o Projeto Pescar, um grupo que trabalha com profissionalização de jovens, em situação de vulnerabilidade. Este projeto é vinculado a diversas empresas e instituições no Brasil e exterior.

No desejo de construir esta nova proposta, um grupo de psicanalistas da SPPA, aceitou o desafio. O trabalho iniciou com grupos mensais de adolescentes e concomitantes grupos com os pais destes jovens. Neste começo, propusemos a exibição de filmes escolhidos por nós e debatidos posteriormente nos grupos. No decorrer do trabalho, os jovens manifestaram suas vontades em escolher os filmes que pudessem representar de forma mais verdadeira, a realidade vivida por eles.

O pedido dos adolescentes nesse momento causou importantes questionamentos e reflexões. Capturadas pelo desconforto e certo estranhamento, compreendemos que estávamos profundamente defendidas. Iludidas, quem sabe, em nosso suposto conhecimento do humano, ou um suposto lugar protegido/psicanalítico?

A recusa da escuta, do olhar as imagens projetadas na tela dos filmes da vida daqueles jovens, poderia estar representando a nossa própria banalização do mal? A maldade sempre está no outro e não em nós? Lembramos o dito/mito popular: “o perigo mora ao lado”. Estar ao lado, próximo, mas não em nós. Aos nossos olhos e ouvidos, a barbárie está lá, longe, no outro, o estranho, o diferente de nós. Para o poeta Saramago (1995), somos todos cegos de nascença!

Então nos perguntamos: do quê e por que estaríamos nos defendendo? E como ajudar aos jovens, aos pais e a nós mesmos, a dar sentido, a não ficarmos impactados, estagnados frente à violência, a desumanização?

Percebemos que na realidade, não tínhamos ideia da dimensão da dor, angústia e do desamparo vividos na pele, sentidos na alma do dia a dia desses adolescentes e de suas famílias.  Nos grupos, a violência, o tráfico, as drogas, as mortes, a vulnerabilidade se faziam presentes, em ruídos, gestos incompreendidos, dando suas vozes. Aos poucos, foram tomando forma, tomando corpo, tocando e se deixando serem sentidas, faladas por todos nós. Compreendemos que é somente através da palavra, das relações linguageiras construídas nos grupos com os adolescentes e grupos de pais, que o irrepresentável, os buracos vazios advindos da barbárie, possam encontrar um acontecer simbólico, dando sentido a um existir, a um Ser. Na “historização” de suas próprias vidas e ao pertencimento do devir de uma humanização.

Nos grupos com os pais, tornavam-se evidentes suas preocupações com o futuro dos filhos frente à realidade social, também motivadas pelo local onde vivem. A questão das drogas é aterrorizante e os pais se sentem reféns de uma realidade violentamente difícil de lidar, dar sentido, nomear.

Concomitante a nossa maior proximidade nos grupos, com os jovens e pais, a equipe responsável pelo Projeto Pescar, como professores e assistente social, nos pede ajuda para compreender algumas situações de alunos. Sentiam-se perdidos, perplexos como, por exemplo, frente ao roubo de um computador do professor que permanecia mais tempo com as turmas. A suspeita recaiu sobre um dos meninos, fato que fragilizou a todos. Percebemos que a instituição estava vivendo um momento de desorganização, com certo desencantamento e desesperança. Talvez pudéssemos caracterizar esse momento como “contaminação” da depressão.

Foi interessante o desenvolvimento destas ocorrências e os efeitos dela, também para o nosso grupo de psicanalistas que trabalha no projeto. Em nosso encontro posterior a estes fatos, estávamos dispersivas, com dificuldade para objetivar nossas tarefas e unificar nossas informações. Percebemos, assim, que também em nossa equipe passávamos por um intenso – e novo - momento de desorganização e de angústia.

Parecíamos descosturadas. Nossas emoções, apesar de ainda não evidenciadas, estavam à flor da pele. Foi necessário parar e nos observar. Ao refletirmos sobre o que estava acontecendo, demo-nos conta de que era possível que, além de nossas próprias angústias, a dispersão como equipe também se devesse ao momento vivido pela instituição que assistíamos. Detectar isso foi transformador. Pudemos retomar nossa capacidade para pensar os conflitos.

Percebemos que, frente às circunstâncias, precisaríamos ampliar o foco de nosso trabalho: quando solicitara a nossa presença em sua reunião, a equipe que atendia diariamente os jovens e seus pais vinha manifestando a sua própria sensação de desamparo e angústia pela falta de compreensão e intensidade de emoções. Assim, eles também precisavam que nós os assistíssemos. Ao conversarmos, entre nós, sobre o roubo ocorrido nas instalações do projeto e sobre o fato de a suspeita estar recaindo sobre um ex-aluno, lembramo-nos de que, no primeiro filme passado na turma de 2013, havia uma cena de roubo de um computador, cometido por um dos adolescentes na escola. O roubo, então, nos pareceu uma reprodução daquela cena do filme. Pensamos que, uma vez confirmada a suspeita sobre o jovem, tal roubo poderia conter um pedido de socorro do menino. Compreendendo o roubo como uma comunicação do jovem, encontramos como significado o pedido de ajuda através da atuação de uma situação-limite.

Retomamos em 2015 e em 2016 em duas novas unidades do Pescar, surgindo-nos novas questões. Estaríamos preparadas? Estávamos apreensivas. A despeito de nossas experiências anteriores não tínhamos ideia de que tipo de população encontraríamos.

Propusemos então um jogo, onde cada um escreveu um segredo num papel sem identificação e outro colega responderia, como se fosse dele, este segredo ou problema. Surgiram impactantes questões: “será que devo procurar meu pai que nunca quis saber de mim”? Ou de um menino que relatou o assassinato cruel do irmão menor “ao lado da casa” onde moram e a impotência e desamparo frente à tamanha brutalidade, barbárie. Situações que revelam a vulnerabilidade deles e as nossas. Impossível discernir entre o real e o imaginado. Parece-nos haver uma relação direta entre os impactos que sentimos diante de tristes constatações e as nossas emoções primitivas.

O trabalho com o grupo deste projeto social nos coloca diante de lugares diferentes de nossa rotina diária. Nunca antes pensados ou imaginados. Saímos de um lugar seguro. A cada nova situação há uma exigência de que nos situemos interna e externamente, numa busca de compreensão. Muitas vozes surgem, internamente, no contato com estes jovens e com seus relatos. Muitas sensações que não fazem parte do nosso dia a dia são motivos para que nos avaliemos a cada encontro. Temos momentos de compreensão e períodos de incompreensão.

Temos dedicado, nesta atividade, mais atenção às nossas sensações, aos sentimentos e pensamentos, procurando estar sensíveis aos limites das possibilidades de alcance da nossa intervenção, que se dá apenas através de um encontro mensal com cada grupo. As vivências e os sentimentos pessoais de angústia, culpa e dor com que somos confrontados no contato com realidades muitas vezes cruéis nos convocam a revisar parâmetros com os quais vínhamos trabalhando. Fomos levadas a pensar em nosso papel na prevenção de saúde mental destes grupos, cujos indivíduos têm vidas familiares tão conflituosas, traumatizados pelas vivências de violência, além da proximidade com drogas e tráfico.

O impacto destas realidades sobre nós quer seja através de olhares, de barulhos da sala ou das diferentes formas de linguagem, primitivas ou não, deparamos com situações muitas vezes duras, mas isso é contrabalançado pelo sorriso aberto que aparece quando sentimos que aqueles jovens se sentem respeitados, olhados por nós. A complexidade desta experiência nos enriquece. É fundamental que façamos uma leitura profunda e constante de todo o nosso processo, pois isto permite nomear e dar um significado a situações tão dramáticas e complexas. O trabalho junto a uma população mais vulnerável coloca-nos diante de questões: quais são nossos limites, internos, e externos, os das nossas teorias e práticas e também os advindos das realidades que vivemos? Quais nossos alcances?

Síntese do Projeto SMED/SPPA

Desde 2006 um grupo de psicanalistas da SPPA mantém com a SMED uma parceria de trabalho junto às Instituições de Educação Infantil com a chancela da Prefeitura Municipal de Porto Alegre. Estas instituições nasceram em comunidades de baixa renda.

Durante todos estes anos o trabalho com os educadores passou por transformações, partindo de um formato de curso, onde cada psicanalista discorria sobre aspectos básicos do desenvolvimento infantil, até chegarmos aos nossos dias com o trabalho se desenvolvendo conforme o modelo de Rodas de conversa, em sua quarta edição, denominação proposta informalmente pelas educadoras e prontamente acolhida por nós, o que já indicava um convite para que horizontalizássemos o encontro, aproximando-nos delas no grupo.

Atualmente cada encontro consiste de um módulo em que o grande grupo se encontra no auditório e um educador apresenta como mote das rodas, que seguirão em pequeno grupo em salas separadas, um fato-problema comum de seu cotidiano, seguido do comentário de um assessor, finalizando com o de um psicanalista.

Ao longo deste tempo perguntamo-nos constantemente se o que fazíamos era psicanálise. Lemos muitos livros e artigos e escrevemos alguns trabalhos. Mas sempre esteve presente em cada um de nós, e no grupo como todo, um rumor de fundo, nossa inquietação frente à violência presente nas narrativas do dia a dia de trabalho destas educadoras. A partir do momento em que nos deslocamos da posição do saber, fomos surpreendidos porsentimentos de perplexidade e impotência frente aos relatos de como era viver um dia na pele destas educadoras.

A culminância deste estado de coisas se deu no final de 2014, numa reunião de planejamento da parceria SMED/SPPA,quando foi noticiado o fato de que uma educadora de escola infantil havia agredido alunos na hora do sono, atirando-os sobre colchonetes como sacos de batatas e gritando ameaçadoramente com eles. Colegas da educadora filmaram a cena, veiculando-a no You Tube.

Assistindo ao filme, à reação indignada do grupo somou-se ainda outra surpresa – a descoberta de que a educadora havia participado de uma das rodas de conversa daquele ano. Soubemos ter sido imediatamente expulsa da escola, estando impedida, também, de participar das próximas rodas.

Decorreram desta experiência inúmeros questionamentos, na busca de compreender como esta violência pôde não ser percebida por nós. Sendo a escuta nosso mais legítimo instrumento de trabalho, o que poderia ter escotomizado esta percepção?

A banalização ou naturalização da violência banalizaria também nossa escuta da mesma?

Diante das perguntas que se multiplicavam em meio à atmosfera de perplexidade, concluímos que era hora de acolher a violência.

Para iniciar esta tarefa, cabia a nós pensarmo-nos como parte do grupo envolvido nesta experiência, SPPA/SMED e educadores, reconhecendo nossa tendência de expulsar o mal para construir a paz, não acolhendo a violência para transformá-la a partir da atribuição de significados e pensamentos, até o encontro de ações reparadoras.

Falhamos e foi precisamente esta falha o que impulsionou nossas reflexões sobre o alcance e limites que temos para lidar com a violência neste projeto.

Por um lado – racionalizamos – como haveríamos de perceber ou escutar esta violência em grupos tão pouco frequentes, apenas oito em cada módulo? Tomamos conhecimento do fato de que o comportamento daquela educadora e o forçar as crianças a dormirem não era um fato excepcional, mas banal. Não haveria estrutura nos grupos – um “setting” - e confiança no vínculo propícios à expressão dos sentimentos ligados ao trato com as crianças, e mesmo um “processo”, o tempo para acolher tais revelações!

A verdade, admitimos, é que não podemos captar tudo o que acontece num grupo.

Mas também é verdade que, tendo conhecimento básico sobre funcionamento de grupos, não ignorávamos que, uma vez relatados fatos violentos cometidos por pais contra filhos e educadores, por traficantes contra a comunidade, por educadores contra colegas, por lideranças da comunidade contra educadores, etc., dedicamos mais atenção à situação de a população sofrer abusos e maus tratos, e não contemplamos a possibilidade de ação violenta dos próprios educadores. E da nossa, omitindo-nos em trazer o tema para dentro do grupo.

Haveria um acordo inconsciente ou mesmo tácito, de se dissociar a violência do todo, identificando-a fora do grupo nos pais negligentes, nos traficantes da região e noutras instâncias depositárias dessas projeções.

E por quê?

Não tínhamos noção de que, ao iniciar o Projeto, nos depararíamos com relatos de tamanha opressão. Tudo começou como uma capacitação, em que psicanalistas apresentariam noções sobre o desenvolvimento da criança, numa relação em que a lógica era daqueles que sabem para aqueles que aprendem, uma relação de sujeição que negava os saberes de cada parte, e que devem, para haver criatividade no encontro, constituir um terceiro, o espaço das trocas e não um reforço da linha de demarcação.

Reconhecemos não estarmos tão disponíveis quanto desejávamos. Se, para os educadores, a violência vivida os impacta, nós, só os ouvindo nos evadimos. Criava-se o impasse, que gerou todas as reações defensivas.

Considerações gerais

Nestes dois relatos de experiências com especificidades distintas cabe entender em que e como elas se entrelaçam.

Primo Levi (1988), que sobreviveu aos campos de concentração, a partir da experiência no horror nos ensinou a importância de poder falar, a importância da palavra para dar um sentido possível ao sem sentido e à fúria que encarna o trauma. A sobrevivência ao horror, despojado de sua condição humana, só tinha o sentido de ser, para o “contar depois”.

Também Boris Cyrulnik (2009), ao tentar metáforas teóricas para sua própria experiência como criança judia na França ocupada pelos nazistas na II Guerra diz que:

É possível modificar o sentimento íntimo de uma pessoa agindo sobre os relatos que a cercam, tanto sobre o que é dito como sobre o modo de dizê-lo. A retórica, ao dar uma forma verbal e gestual aos acontecimentos que ela conta, estrutura a intimidade dos indivíduos

Ao propiciar os encontros entre adolescentes e com suas famílias (PESCAR), entre os educadores e assessores (SMED/SPPA), entre os psicanalistas, tentamos criar um espaço transicional que favoreça a criação de metáforas possíveis que ampliem a capacidade dos sujeitos de dar conta de seus/nossos impasses (Botbol, 2013; Winnicott 1975).

Trabalhar com pessoas, em meio a expectativas e necessárias frustrações sempre carrega um potencial traumático. No caso destes educadoras e adolescentes, sujeitos a pressões de diversas naturezas, desde o encontro com crianças negligenciadas, abusadas, num meio social mergulhado na ditadura do tráfico, com todos os riscos de vida implícitos, somados às pressões dos pais e coordenadores das escolas de educação infantil e de segundo grau, sujeitos também estes às demandas superiores da SMED e do PESCAR, cria-se um caldo de cultura para o desespero e eventuais ações violentas dirigidas às próprias crianças, adolescentes, seus pais e colegas e contra si mesmas. Nós, os psicanalistas, sentimos premente necessidade de nos reunirmos após as rodas para compartilhar os relatos ouvidos no dia.

Todos os que cuidamos de, precisamos de um espaço para ser cuidados por, assim conferindo novos significados às nossas experiências.

Se a psicanálise tem sentido, o mais importante é conceder ao outro a possibilidade da palavra, da expressão, em nossa presença sensível e pensante (Dolto, 2015).

A responsabilidade social de uma instituição, que a leva a intervir no outro, no caso de nossa instituição psicanalítica consiste exatamente no oposto, em sofrermos ativamente a intervenção do outro, capacidade necessária à criação do espaço potencial, o terreno das interações onde se dá o jogo, com fronteiras indeterminadas, onde se faz a realidade de nosso trabalho.

Aprendemos com nossa experiência até agora, dentre tantas lições, a mais importante, talvez, que é a de, antes de impormos nossa palavra e o peso de nossa importância, procurarmos nos deixar encarnar pela palavra de nossos educadores e adolescentes.

Odilon de Mello Franco Filho (1994) fala sobre a mudança psíquica e as transformações que ocorrem na mente do analista. O autor propõe situar tais mudanças como decorrentes de uma posição no campo que não é acidental e resulta do exercício de uma “neutralidade ativa”.

Pensamos que, de certa forma, isto ocorre em nossas mentes nas rodas de conversa e grupos com adolescentes, na medida em que envolve uma “disponibilidade para o novo” e assim nossos valores e identidade são colocados em risco sendo, consequentemente, passíveis de mudanças. Somos “participantes-constituintes” do campo que se estabelece nos grupos. Não se trata de uma contemplação asséptica, mas uma participação com nossas subjetividades em um campo que nos desconcerta e desorganiza.

Na medida em que participamos e nos envolvemos nas rodas de conversa com uma atitude receptiva e garantindo certa estabilidade e continuidade nos encontros, cria-se a possibilidade de troca emocional com ressonâncias em todos os participantes, inclusive em nós psicanalistas.

Momentos de desorganização, confusão e incertezas são frequentes - e indispensáveis- para ocorrer uma transformação nos participantes deste campo (Franco Filho, 1994; Bion, 1965).

O novo seriam os relatos trazidos pelas educadoras e adolescentes que nos impactam e muitas vezes nos paralisam, criando impasses no campo. Nossas crenças e valores são abalados e somos colocados diante de realidades que tentamos não ver. Até que ponto estamos disponíveis para revisar nossos valores pessoais e mesmo preconceitos e viver transformações internas?

Senão vejamos: numa reunião com assessoras e educadores, uma colega, apresentando um relato de nosso trabalho, referiu-se ao mesmo como sendo realizado com educadores oriundos de escolas de educação infantil implantadas em “comunidades de alta vulnerabilidade”. Na oportunidade de comentar, a educadora discordou da denominação de “alta vulnerabilidade”, dizendo que as educadoras trabalhavam nas comunidades delas, no meio delas. Tratar estas comunidades como “altamente vulneráveis” seria o mesmo que negar que também nós, os psicanalistas, vivemos em área de vulnerabilidade, às vezes até mais alta. A cidade delas é também a nossa. O fato de trabalharmos em consultórios fechados em condomínios profissionais guarnecidos e ilusoriamente livres da violência e da pobreza denunciam nossa recusa de entrarmos em contato coma realidade, que é igual para todos. Em nossa cidade, quando não somos surpreendidos em nossas próprias casas por assaltantes, basta dobrarmos a esquina ou pararmos em uma sinaleira para sermos gravemente feridos ou mortos.

A partir de nossa experiência e decorrentes preocupações, percebemos a pertinência da criação e manutenção de fóruns de discussão mais ampla e abrangente sobre como a psicanálise poderá intervir em situações sociais com tais realidades, especialmente frente às crianças e adolescentes vítimas sociais do desamparo.

Quando escolhemos como tema do simpósio os impasses da contemporaneidade, é como se estivéssemos nos referindo a um tempo estranho a nós, um tempo em que acontecem fatos que escapam dos conceitos e métodos de lidar, com os quais estávamos acostumados em nossa prática clínica. E tudo isto nos surpreende, como se o mundo tivesse mudado!

Ora, falar do contemporâneo é falar do nosso tempo, este em que estamos vivendo. Ao concluir esta frase, já se foi aquele tempo porque novos fatos ocorreram e transformaram a realidade. Portanto, o “tempo em que vivemos” é uma ficção. É um movimento que se trata como se devesse ser estático!

Falarmos de impasses do contemporâneo é, em última análise, sermos redundantes, excedendo-nos em palavras.

Contemporâneo é impasse e impasse é contemporâneo.

Nós buscamos soluções clássicas para problemas contemporâneos. Soluções velhas para problemas novos.

Jamais as alcançaríamos. Podemos nos aproximar e, para conseguirmos, não podemos parar. Precisamos, como Sísifo, carregar a pedra incessantemente, até o fim, nossa morte.

Referências

Azevedo, A. L. (Dir.) (2010). Antes que o mundo acabe. [Filme]. Porto Alegre: Casa de Cinema de Porto Alegre.

Bion, W. (1965). As transformações: a mudança do aprender para o crescer. Rio de Janeiro, Imago 1991. 

Botbol, M. (2013). Psicopatologia da violência de adolescentes difíceis: No âmago de situações iniciadas precocemente. Psicanálise Revista da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Porto Alegre, 15(1): 23-37.

Camus, A. (2004). O mito de Sísifo. Rio de Janeiro: Record.

Cyrulnik, B. (2009) Autobiografia de um espantalho. Histórias de resiliência: o retorno à vida. São Paulo: Martins Fontes.

Dolto, F. (2015). A imagem inconsciente do corpo [tradução Noemi Moritz e Marise Levy]. São Paulo: Perspectiva, 2015.

Franco Filho, O. M. (1994). Mudança psíquica do analista: da neutralidade à transformação. Revista Brasileira Psicanálise, 28 (2), 309-327.

Freud, S. (1912). Totem e tabu. In Edição standard das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (vol. 13). Rio de Janeiro: Imago, 1969.

Freud, S. (1921). Psicologia das massas e análise do ego. Freud, S. In Edição standard das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (vol. 18). Rio de Janeiro: Imago, 1969.

Freud, S. (1930[1929]) O mal-estar na civilização. In Edição standard das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (vol. 21). Rio de Janeiro: Imago, 1969.

Google Imagens (2016). O mito do Sísifo. [Blog Ricardo André]. Recuperado de http://www.ricardoandre.com.br/2016/07/14/o-mito-de-sisifo/

Levi, P. (1988). É isto um homem? Rio de Janeiro: Rocco.

Saramago, J. (1995). Ensaio sobre a cegueira. São Paulo: Companhia das Letras.

Winnicott, D.W. (1975). O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago.

 

* Membro associado da Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre (SPPA).

** Membro aspirantes da Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre (SPPA).

 PSICANÁLISE E EDUCAÇÃO: ALGUNS COMENTÁRIOS SOBRE  EXPERIÊNCIAS EM PARCERIA

                                                 Tania Mara Galli Fonseca

Em primeiro lugar, gostaria de agradecer o convite para participar deste debate a respeito das parcerias que a SPPA mantém com a Secretaria de Educação de nosso município e com o Projeto Pescar destinado à assistência a adolescentes em situação de vulnerabilidade social.  Minha aceitação prende-se, de um lado, aos laços afetivos que me ligam a esta Sociedade e de outro, ao teor do problema enfrentado no que diz respeito às parcerias entre Psicanalistas e Educadores.

Buscando tomar uma posição diante dos textos que me foram remetidos, seria preciso iniciar delimitando a perspectiva de meus comentários para que a mesma além de conferir sentido à minha leitura, possa, de alguma forma, também antecipar uma medida relativa às expectativas diante de minhas palavras. Ater-me-ei às narrativas reflexivas dos dois textos que recebi como subsídios e buscarei, se tiver alguma sorte, auxiliar a pensar sobre as conexões entre Psicanálise e Educação, quer no sentido de ratificá-las quer no sentido de ampliá-las.

 

Quando nos referimos a parcerias, falamos, sem dúvida, de uma conversa que poderia vir a ser o traçado de um devir. Torna-se importante ressaltar, em que pese o fato que esta ressalva possa parecer um tanto acadêmica, que devir não é imitar, nem assimilar, acontece antes por contágios sensíveis que resultam em uma evolução a-paralela, em um bloco de devir de seres que nada tem a ver um com o outro. Sob cada palavra cada um coloca seu sentido e também seu contra-senso. Em uma conversa, situamo-nos sempre diante de uma espécie de língua estrangeira e nos vemos impelidos a ser bilíngues no interior de nossa própria língua. Quando a conversa se torna encontro, é no fundo de solidões que ela acontece, levando os interlocutores a perderem seu nome próprio para virem compor um efeito combinado, pois algo se passa entre dois ou mais como um efeito de ziguezague, um não se torna o outro, mas cada um encontra o outro em um bloco de devir que não é lhes é comum, mas que está entre os dois, acontecendo o que se pode chamar de uma dupla ou múltipla captura. Trata-se do conectivo E que substitui o É, do verbo ser. Trata-se de um duplo-roubo de potências que o encontro propicia, de um Fora dos elementos individualizados que corre em uma outra direção, um bloco assimétrico. Isso seria, pois, uma conversa.

Quando elevada ao estatuto de um encontro, uma conversa funciona como um deslocamento, como um choque que embaraça e embaralha colocando à prova nossa potência de suportar o diferente e a diferenciação. Nela, coloca-se à prova a nossa própria condição de autores, pois tudo se passa no “entre” e não pode se confinar ao aspecto de uma reunião ou de uma justaposição. A conversa assume, pois, feições de uma gagueira, não flui reta nos caminhos de regular, reconhecer e julgar. “Truncada e imprecisa”, como nos diz o relato sobre as Rodas de Conversa. Percorre uma linha quebrada, sem hierarquias entre os termos que se conjugam, desenha caminhos em bifurcações, em linhas de desvio, segue uma espécie de involuntário que concerne às singularidades em contágio. Mais do que por seu conteúdo explícito, é acionada por sensibilidades insuspeitas que agem a contrapelo da inteligência e do controle. Na conversa ocorre um tipo de jogo de sorteio ou de chance única a cada vez que se combinam heterogêneos.  Na Roda de Conversa, o círculo não é monocentrado, ele expande-se em espiral, sendo levado por diversos pontos de atração, torna-se tortuoso e rompe a tautologia de uma rima precisa entre começo e fim. Abre-se em direções sugadoras, evolui como um tornado que, ao arrastar os elementos que encontra, os reverte em maior potência indomável. Força selvagem de uma anomalia e de um movimento aberrante, é isto o que pode acontecer em uma Roda de Conversa. 

 Mas ainda podemos perguntar: de que se trata realmente encontrar-se com alguém durante uma conversa? Será um encontro com alguém perfeitamente discernido e identificado, ou com animais que o povoam, ou com ideias e sensações que o invadem e comovem? E como separar tais coisas? Na conversa-encontro, há uma parte dela dirigida contra nós mesmos. Há uma experimentação sobre si mesmo, sobre a potência de tolerar as combinações que nos habitam, sobre a força para suportar o estranhamento e o abalo dos saberes que nos constituem. Para levar em si a potência de um encontro, a conversa, antes de estabelecer concordâncias e junções, tende a disjuntar, processando-se no que podemos chamar de acordo discordante, de síntese disjuntiva. É nesta condição de precariedade e de abalo que uma conversa pode propiciar devires, pode violentar o pensamento colocando-o no ato de pensar, e também de criar algo que ainda não foi pensado. O traçado de um possível se faz, de um futuro que advém não de uma recognição e de uma repetição do mesmo, mas de uma repetição diferenciante daqueles elementos “perdidos”, esquecidos e que se tornaram passivos e sub-representados nos lençóis do passado.  ”Ampliar ou recuperar potenciais dados como perdidos” eis o que lemos em um dos textos, como se ali, os autores quisessem situar um ponto sensível e nevrálgico, afundado em uma escuridão, mas que por algum esforço ativo merece ser trazido novamente à superfície, para que funcione como energia vital e élan para a longa busca recém iniciada e sem garantias. Uma crença na recuperação das perdas de potenciais que a vida e as frustrações impõem a qualquer um. Quem sabe pudéssemos pensar nestes pontos como uma redescoberta de potências infantis ainda não recobertas pela fixação e pelo engessamento, produtoras de coragem e de invenção. Devir-criança mesmo nas crianças e desejavelmente nos próprios adultos. Crença no possível, um pouco de ar para não sufocar, fé na possibilidade não de um outro mundo, mas do outro de um mundo, sendo este outro exatamente extraído do mesmo solo em que se produz o sofrimento, a insuficiência, a desistência que se quer combater e contestar. Crença que a terra calcinada ainda possui reservas a serem redescobertas e desenvelopadas. O que de melhor poderia alguém fazer ao outro senão o de lhe devolver uma vida?  

Não amamos uma música quando ela nos encoraja e aumenta nossa potência de viver? Do mesmo modo, alguém é por nós amado exatamente pelas paisagens que o envolvem e que aos poucos, se descortinam, no convívio insistente. Sabemos que não se trata de virmos com nossa régua para aplainá-lo e regulá-lo segundo nossa própria imagem e concepções. Tampouco de virmos solucionar problemas da vida dos outros, mas de infundir-lhes confiança para os enfrentamentos necessários. Sabemos que não se trata de pedagogia e de educação no sentido de que alguém, o aluno ou cliente, aquele que não tem luz segundo esta concepção, venha recebê-la de uma exterioridade que lhe é superior e cônscia, que lhe transmite o que deve ser. A zona de relacionamento entre Psicanálise e Educação é embaraçosa, mas nem por isso impossível. Educar e governar podem, entretanto,  constituir-se como tentações tanto dos psicanalistas como dos educadores.  Esta tensão não nos leva, entretanto, a concluir que a Psicanálise nada tenha a dizer à Educação.  O que pensamos destacar neste ponto, é a tendência de ambos profissionais, virem-se, por vezes, enredados em um modo de conceber a subjetivação como exclusivamente produzida pelas forças pulsionais interiorizadas nos sujeitos e de tratá-los, por consequência, não como casos singulares, e sim como exemplos de cópias mal feitas frente aos modelos tidos como saudáveis e normais representados pela moral vigente. Elidir as circunstâncias materiais e históricas que operam efeitos sobre os modos de ser dos sujeitos, submetendo-os ao jugo de modelos como apenas suas cópias bem ou mal feitas, parece-nos se tratar de um agudo sintoma que transforma nossas disciplinas humanas em simples recursos ortopédicos aos males de uma anormalidade que grassa por toda a parte, incluindo-nos sem exceção. O que vale, nesta concepção, são representações abstratas, universalizantes, modelizantes e anteriores aos fatos da vida real. Tornar um ninguém em alguém semelhante ao padrão, eis o que a transmissão cultural nos legou, elegendo, antes de tudo, o que deve ser seguido para a manutenção do tom civilizatório vigente. Eis também a crítica que podemos levantar a respeito das políticas de inclusão social. Entendemos que se situar em qualquer circunstância social e econômica, alta ou baixa, sempre se refere a uma queda, a uma caída passiva de nos próprios, nada disto tendo a ver com nosso mérito e vontade. Sempre caímos em certas circunstâncias concretas e estas não podem ser substituídas pelo juízo exterior que avalia nossa força moral para superá-las ou para aproveitá-las. Há algo externo a nós, algo imenso e incomensurável que nos forma que não pode ser simplesmente reduzido a uma natureza biológica e genética. Como sabemos, à natureza humana aliam-se fatores exteriores, sociais, de todas as ordens, que hibridizam os potenciais de suas combinações, ressaltando uma segunda natureza da ordem do cultivado, e não mais da natureza “natural”,  pois agora, esta segunda natureza nos é dada pela cultura que, ao misturar-se ao plano da natureza primeira, torna-se segunda, mas não secundária.

Ir ao campo dos vulneráveis, sentir seus cheiros e barulhos estranhos, perceber o desastre de suas vidas, “confundir uma arma com a letra L”, revela-nos quão estranhos nos colocamos a este mundo. Nada ali combina com nossas concepções, os possíveis incestos e as violências sexuais relatadas ou pressentidas, violências em demasia e sofrimento por toda a parte. Diante disso, encurvamo-nos e carregamos nos ombros um mundo impensável antes de ter sido conhecido, um peso insuportável antes de ter sido experimentado, e o sinal nos dá um Pare!  Como pode tudo isto acontecer? O que posso eu diante de tamanha catástrofe?  O que podemos nós, como testemunhas?

Acreditamos que, nos labirintos de um convívio sensível com populações vulneráveis, podemos nos posicionar como testemunhas do que se encontra inscrito nos corpos de nossas crianças e adolescentes, de nossos educadores - escolares e familiares,  e, sem ignorar a imensa boa vontade que  se verifica e espalha em todos e em qualquer agente da intervenção, seria importante fazer falar as condições mesmas que constituíram o intolerável de suas vidas, trazendo-as do afundamento em que se encontram, para o nível da palavra e da consciência, contraefetuando-se, assim, os efeitos recorrentes das formações inconscientes no presente. Não se trataria de suprimir as estruturas pulsionais e a economia do desejo. Apenas, gostaríamos de, ao lado de reconhecer que também as condições históricas que gestaram modos de viver encontram-se no plano da inconsciência, fazendo parte de toda a dinâmica.

O que ainda podemos considerar como um futuro possível?  Nenhuma outra disciplina das humanas poderia melhor dizê-lo do que a psicanálise. Um futuro pretérito estaria por vir, mas este nunca nos chega, se anuncia em um momento, para logo desaparecer num segundo. Contudo, sabemos de sua natureza insistente e de seu inacabamento. Incessante busca sem garantias é disso que tratamos. Buscar algo que nunca chega embora já tenha chegado, mas ainda não em sua potência plena, querer de todo, e não apenas meio-querer que aquele pretérito se torne vívido em um presente, que sejam recuperados ou redescobertos os potenciais de vida que, em algum dia, no início de cada uma das histórias, tenha sido a marca de um destino e de uma constituição singular. Querer o seu retorno todas as vezes, até mesmo quando o retorno venha a se configurar como antagônico e contrário e até negativo. Eterno retorno da diferença naquilo mesmo que amamos. E o que poderíamos amar mais do que uma vida poderia realizar?

É certo que nossa tolerância ao insuportável tem limites. E é bom que tenha. Sabemos que nosso grau de suportabilidade ao intolerável de nosso presente também não pode ser estendido em uma linha sem fim que acataria tudo o que se passa. O relativismo e o niilismo não definem nossa ética, pois ela nos exige escolhas, nos pede mais do que um meio-querer a cada coisa que desejamos. Nossa ética nos guia para um querer em sua última potência, incondicional.  Sabemos que nosso esforço, mesmo que empregado intensamente, se refere apenas a um dos lados da conversa, pois esta mesma produz seus efeitos apenas no “entre” os termos que ela associa, faz-se diante das distâncias que a conversa sempre revela. Mas o fato de sermos apenas parte de um todo que conversa e se agencia, não quer dizer que estejamos, de antemão, certos.  Tudo é ingarantido e incerto. E, torna-se importante ainda dizer que nossa ética e de nosso esforço de pensamento se refere a ir a contrapelo do imediatismo das vivências apaixonadas, cujas intensidades se fazem como anteparos à reflexão e à conscientização do que estamos nos tornando a cada passo.  Justiça, aqui, se refere a fornecer condições para que pensar o vivido, alçando-o à condição de plasticidade e de linguagem.  Ir a contrapelo do niilismo e do relativismo liberal. Oferecer dispositivos para a reflexão ampliada, crer que todos podem pensar e que este atributo não se confunde com escolaridade e alta erudição.  Querer por inteiro a processualidade desencadeada, pois, lidar com conflitos se faz como o cerne de nossa função Psi. Sair dos binarismos, implicar um termo ao outro, vislumbrar ressonâncias recíprocas das forças que se desprendem do encontro. Eis, aqui, uma circunstância intensa na configuração da parceria entre Psicanálise e Educação. Dois centros no mesmo círculo de conversação, ou seriam dois círculos, cada qual com seu centro atrator, buscando imantar e quem sabe suplantar influências na intervenção?   Pode-se imaginar que a expectativa de ambos é a de garantir para si a conquista do movimento que virá a ser produzido. Pode-se também pensar nas dificuldades inerentes desta aproximação que é, entretanto e sem dúvidas, alimentada pelas melhores intenções.  Mas se trataria também de pensar se a pergunta correta seria vir a saber Quem são as nossas crianças?, pergunta  que funcionou como dispositivo que deu origem a uma das parcerias.  Parece-nos que aquele que pergunta quem é o outro tende a configurá-lo como encarcerado em uma tipologia, envolto por caracterizações genéricas, fixadas e universalizantes. De alguma forma, a pergunta remete cada caso a um certo modelo que paira sobre o julgamento por vir, que regula a percepção do que será apresentado. A pergunta revela a suposição de uma estabilidade do modelo ideal identitário em detrimento das variações diferenciais. Pareceu-me, entretanto, que, com o evoluir da experiência pelos longos 9 anos, algo mudou neste sentido, sendo que, neste aqui e agora da situação, se poderia explicitar uma outra questão:   O que podem as crianças?. Deslocar o questionamento significaria transformar o percurso da conversa nesta questão a ser devolvida por cada um dos segmentos.  

Não se torna difícil transferirmos nossos comentários para o que pudemos ler nos textos apresentados. Em ambos são relatados momentos de choque, de paralisia e mesmo de medo frente aos signos que emergem nos encontros. O estranhamento parece constante, coloca em teste a apurada escuta situada em um certo setting específico e individual, convoca forças sensíveis e, neste bloco perceptivo-afetivo, embaralham-se os psicanalistas, faltando-lhes palavras para momentos críticos. Toda uma inteligibilidade e uma cognoscibilidade veem-se em tensão.  Podemos  pensar mesmo que são acometidos de  uma gagueira, de uma perda da fluência e do conforto provindo dos saberes  adquiridos. Uma colocação à prova, uma quebra na linha, uma errância e mesmo um desvio do protocolar, do habitual: são colocados diante de uma possível passagem, se situam dominados  pela indecisão e, por seus incisivos exercícios reflexivos durante e em especial após os encontros, se vêm reivindicados a ser imaginativos, desenhando , então, outros possíveis procedimentos e abordagens. Torna-se claro, pelos relatos, que é pela experimentação que os encontros se sucedem, não havendo uma fórmula que contenha as forças que atravessam o setting grupal, sempre ameaçado de disrupções e abalos. É na emergência dos momentos, nos choques que os mesmos reservam que a conversa prossegue ou mesmo é interrompida, deixando, inapagavelmente, a dúvida de sua eficácia e, por vezes, a pergunta se valeria a pena continuar e insistir.  

Pergunta-se: como poderia a experiência a que estamos nos referindo ser diferente do que tem sido e do que está sendo? Não manifesta ela exatamente aquilo que lhe é próprio e imanente? Poderíamos perguntar se o dispositivo da intervenção, levado aos seus diversos desdobramentos não estaria revelando ao vivo e sob uma forma sensível e carnal a dramatização de uma conflitualidade que o ultrapassa e o torna um de seus pequenos efeitos? Falamos, aqui, de um trabalho que, por seu caráter “social e aberto”, torna-se ele próprio uma espécie de sismógrafo do que pode vir a ser sentido quando se experimenta viver em proximidade com a alteridade quase que radical. Uma intervenção que diagnostica a enfermidade ao mesmo tempo que testa sua medicação, uma abordagem que deve estar revestida do recuo às soluções, para prestar-se a testemunhar vivamente o vínculo com os avessos do homem e da sociedade, com as negatividades que a moral dominante tanto gostaria de corrigir, que a pedagogia, sobretudo, quer educar, regular , normalizar e incluir.

Diante de meu percurso como Psicóloga, e diante minha dedicação à Psicologia do Trabalho, área à qual me dediquei por longos anos passados, torna-se importante ressaltar ainda que as narrativas que me foram encaminhadas poderiam ser encaixadas no domínio daquilo que chamamos de sofrimento do trabalho, uma vez que, no contexto das parcerias, o que vemos é a associação entre psicanalistas e educadores, trabalhadores provindos de referenciais diferenciados, que lhes possibilitam maior ou menor grau de compreensão daquilo que podemos chamar de inapreensível no humano. Modos de trabalhar distintos que acarretam modos de subjetivar correlatos, que instigam condutas e regulamentam percepções, apreensões e leituras, tornando-se também um modo de ser do próprio sujeito que trabalha. Antes do que fazer seu trabalho tomando-se de forma isolada e individualizada todo o trabalhador se vê mergulhado em algo que o antecede e que se revela muito maior do que lhe aponta sua argúcia, inteligência e percepção crítica. Estas poderiam já ser consideradas como efeitos de um processo de formação, cujo êxito varia em graus no que diz respeito a torná-lo sujeito de seu discurso e de suas práticas.  Anterior aos sujeitos que trabalham em qualquer campo insiste e resiste, pois, um modo instituído de trabalhar específico, regrado histórica e coletivamente, e que tende a sobrecodificar e modelizar o desempenho e os modos de agir, sentir e pensar de qualquer  trabalhador do ramo.  Independentemente de sua área de atuação, aquele que trabalha situa-se nesse plano que o extrapola e ultrapassa. Forma hábitos, elege verdades, segue modelos e normas ditados por esta macroestrutura subjetivante da qual se torna um funcionário, ou seja, uma força que faz funcionar a máquina abstrata de conhecimentos e saberes e que se traduz em condutas e ações.

Diante desta consideração, já ser-nos-ia possível antever aquilo que resta ao trabalhador: resta-lhe uma certa leitura daquilo que a ele chega involuntariamente, resta-lhe, quem sabe, se tiver sorte, inventar um estilo desviante às pesadas normalizações que a disciplina da organização do trabalho lhe possibilita. Portanto, o que se lhe apresenta é o desafio de inventar, através de experimentações tateantes e incertas, outras estratégias que operarão como disparadoras, quem sabe, de novos devires frente àqueles cenários já desgastados e dos quais podem se efetuar desistências e mesmo sentimentos de menos valia.  “Trata-se de algo muito grande para mim”, poderão dizer enquanto guardam em sua maleta suas ferramentas e encolhem sua crença em novos possíveis. Tudo é grande demais para ser solucionado como gostaríamos e, neste reconhecimento, temos, pois, bifurcações no próprio caminho: cair no niilismo, carregando o peso de uma desistência que vai repercutir em um relativismo radical, ou migrar para o campo dos possíveis ou, ainda, manter o posicionamento ressentido pelo qual tornamo-nos vítimas de um sistema intolerante às mudanças de si próprio.  Nestas bifurcações, se fizermos uma retrospectiva, poderemos visualizar alguns homens e mulheres que, ao longo da história, vieram, por sua paciente busca e laborioso esforço enfrentar o desconhecido e as críticas contundentes de seus contemporâneos, para fazer firmar e afirmar um desvio ao pensamento corriqueiro, uma outra inteligência e uma outra sensibilidade distinta da então preponderante.

“Eu julgava ver, nas fábricas em que trabalhei como gestora de recursos humanos, apenas condenados. Pareciam-me iguais aos condenados à prisão”, era isso que atiçava em mim uma espécie de ira e ao mesmo tempo me aguçava a vontade de intervir naquela situação intolerável.  Produzir uma conversação com colegas da administração da empresa tornava-se momentos de grande tensão que me foram reservados. Entendia, aos poucos, que nos situávamos como em uma torre de babel, cada um falando sua própria língua, exercendo os poderes performáticos de suas palavras segundo sua posição hierárquica no contexto do sistema fabril. Algo ou alguém falava sempre mais alto do que minha voz poderia expressar, sentia-me como um Atlas carregando meu mundo de quimeras sobre meus ombros, em busca de alguma salvação para o mundo perdido que se estendia aos meus olhos. Como conciliar economia, administração e Psicologia?  Um agenciamento de saberes díspares, colocados em geral em oposição e contrariedade, colocava-me, sem cessar, diante de alteridades e de uma luta de poder frente à qual, a área de Recursos  Humanos, à qual eu pertencia, quase sempre era  tornada vencida.  Pude ver, com o correr dos anos, que algo havia se modificado, não no estado de coisas sociais, mas em mim própria. Se havia equívocos nas primeiras abordagens de intervenção, elas poderiam vir a ser melhoradas; se havia descrença nos possíveis das mesmas, não. A que me refiro quando, aqui, falo em crença e descrença? Ora, nada mais seria de um querer a mudança, esta colocada não como um “meio-querer”, mas como um querer completo, levado às últimas consequências, até o seu esgotamento. Compreendi que não podemos desistir por cansaço, e sim por esgotamento. Ir até a última potência daquilo que queremos, querê-la eternamente como um retorno aos nossos dias noites, não querer apenas pela metade.

É, neste ponto, que eu faço minha última nota a respeito das parcerias entre Psicanalistas e Educadores, levando este momento como uma pausa que poderia vir a se tornar em realimento e antídoto ao cansaço: Por que nos decepcionaríamos com aquilo que nutre nossa crença no possível? 

Eis-me, aqui, diante de vocês, talvez os tenha cansado com meus longos comentários. Eu os escrevi e os proferi para dizer-lhes que, como vocês Psicanalistas, muitos outros profissionais vivenciam este limiar decisivo da experiência. Nada há de exclusivo e seguro no estatuto das teorias que adotamos, cabe a nós desenvolver também os referenciais de nossa morada conceitual e metodológica possibilitando sua duração renovada ao longo dos tempos.

Obrigada.

SÓ-MENTE MENTE:

UM CORPO DE PSICANALISTAS NO SOCIAL

                                                Alice Becker Lewckowicz¹

                                                              Alida Vitória Fuhrmeister¹

                                                              Carmem Emília Keidann¹

                                                              Denise Lahude¹

                                                              Heloisa Tonetto¹

                                                              Ivani Bressan Valentini¹

                                                              Joyce Goldstein¹

                                                              Maria Elisabeth Cimenti¹

                                                              Mery Wolff¹

                                                             

             Somos dois grupos de psicanalistas da SPPA* realizando trabalhos no “extra-muros”. O primeiro se passa na própria sede da SPPA, onde um destes grupos reúne-se anualmente com educadores de escolas de educação infantil de comunidades de baixa renda de Porto Alegre e assessores da SMED** ( Secretaria Municipal de Educação). Realizam uma série de oito encontros para falar sobre o dia a dia em uma escola infantil, abordando temas do cotidiano desde uma perspectiva dialética, fluindo entre a liberdade e a violência.

O outro grupo trabalha com adolescentes de 16 a 18 anos ligados a dois centros do Projeto Pescar*** ( Grupo profissionalizante de jovens vulneráveis mantidos por empresas privadas). Realizam encontros mensais com os jovens para discutir suas realidades de vida e de relação entre si, que poderiam afetar sua profissionalização oferecida pelo Projeto. Com os pais destes jovens, mensalmente, ocorre um encontro para se pensar a relação destes com os filhos.

Escolhemos relatar este trabalho através de metáforas que tentam dar conta da intensidade que está envolvendo essa experiência.

Começamos com Galeano:                               

 

         “Viajaram para o Sul. Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando. Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza. E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai: - Pai, me ajuda a olhar!”

                                                                                                                                                                                                                                  Eduardo Galeano, O Livro dos Abraços.

           

Esta passagem, reproduzida por Galeano, causou-nos forte impressão, pois há algum tempo nos temos deparado com outro, o “nosso mar”. Diante dessa imensidão, também  trazemos Erêndira através de Ismael Ivo em sua versão do conto de Gabriel Garcia Marques.

APRESENTAÇÃO DO FILME

 

La increible y triste historia de la Candida Erendira y de su abuela desalmada” (1972), de Gabriel García Márquez, é a história de uma jovem de 14 anos, de aparência esquálida e lânguida, cuja única herança em vida é ter a presença de sua avó paterna. Viviam as duas no deserto, longe de tudo, num refúgio incompreensível construído por um contrabandista lendário que se chamava Amadís, com quem a avó teve um filho, que também se chamava Amadís, e que foi pai de Erêndira.

Depois que os Amadís morreram, seus corpos foram enterrados no pátio da casa e ambas continuaram a viver nessa casa. Erêndira era explorada pela avó em obrigações diárias intermináveis:  cuidar da alcova, esfregar os pisos, lustrar as pratas e cristais, fazer almoço, banhar, pentear, e vestir a avó, que só caminhava apoiada no ombro da neta. Erêndira vivia aturdida de sono, enquanto a avó dormia vivendo delírios. Em seu quarto, sem o luxo do da avó, a menina acendia o castiçal sem ânimo nem de despir-se. Quando as cortinas e os ventos fizeram um grande incêndio, elas perderam tudo. Acusada pela tragédia, teria que prostituir-se, oito anos sete meses onze dias, dívida administrada pela avó. Iniciou o trabalho autorizado com um viúvo pagando o preço negociado por sua virgindade.  Todos queriam desfrutar da novidade Erêndira.

A mocinha conheceu Ulisses, um rapaz holandes e ambos se apaixonaram.

Numa das  paragens, missionários  descobriram o trabalho de Erêndira e a levaram para um convento.  Mas a moça de lá fugiu, simulando que estava casando e retornou para a avó e para o negócio.

Ulisses, de deserto em deserto, conseguiu encontrá-las. Fugiriam, mas antes teriam que mata-la e Ulisses preparou um bolo com arsênico.  A avó lambuzou-se, mas não morreu.

A história chegou ao fim com a luta corporal entre Ulisses e a avó, em quem ele desferiu facadas até a morte da avò. Ulisses foi encontrado na praia com a boca para baixo chorando de medo e de solidão. Erêndira tomou o jaleco que a avó vestia, forrado das barras de ouro de seus serviços e saiu correndo pelo deserto, de onde jamais se teve notícia dela nem vestígio de sua desgraça.

 Como já dissemos, somos um corpo de psicanalistas que atravessamos as dunas das paredes de nossos consultórios para realizar trabalhos com a comunidade.

No princípio, quando nos decidimos pela realização deste trabalho, o plano consistia em apresentarmos temas-tarefas para serem desenvolvidos. Sentia-mo-nos psicanalistas que, como autoridades no assunto, teríamos importantes conteúdos para transmitir ao público leigo. Seriam aulas do livro das crianças e adolescentes para educadores que trabalhavam com crianças e adolescentes que não eram de livro - este, um trocadilho síntese dos acontecimentos que estariam por vir.  Convictos estávamos de nossa capacitação.

Neste nosso início, numa abordagem do TODO comprometida pelo pressuposto do “saber” que, por certo, daria conta da apreensão do que iria ocorrer nos encontros, foi impacto o nome da impressão causada pela realidade de nossas educadoras, adolescentes e pais. E vulnerabilidade o nome de nossa condição receptiva. Relatos do seu dia a dia, com descrições de maus tratos, dificuldades sociais de toda espécie, variando entre pobreza extrema, desmantelamento das famílias pelo alcoolismo e dependências químicas, mortes violentas e baixas constantes, incluindo chefes de família pelas execuções do mundo das drogas. Estas eram as histórias que ouvíamos: transitávamos entre a vida e a morte. Realidade diferente daquela dos consultórios de clínica privada que atendem crianças, adolescentes e famílias de classe média alta.

Após os encontros, ansiávamos por nos reunir para contar e recontar o que nossos ouvidos, nossos olhares e nosso corpo escutavam nos grupos.

Veio o tempo da desilusão quanto ao “conhecimento” da e sobre aquela realidade. Crise da identidade de psicanalistas naquele âmbito verdadeiramente novo para todos. Havia relatos de problemas graves, para os quais não tinhamos as soluções, dependentes que eram de providências que se revelaram fugidias, insuficientes, inócuas, inalcançáveis pelos “métodos conhecidos” e repertório à nossa disposição. E a pergunta que se repetia, incessante – O que é e como é ser psicanalista nesta circunstância? Como estamos implicados neste cenário?

Em seu artigo "Diferenças Desigualadas", Fernandez (2009) destaca as dimensões filosóficas, políticas e epistemológicas desta discussão. E propõe algumas questões que nos pareceram relevantes: "Como pensar categorias conceituais que não operem como fundamento de desigualdades políticas? Como operar com uma lógica da diferença que não se sustente no "a priori" epistêmico da diferença como anomalia? Em síntese, como pensar o que não é idêntico nem diferente?"

Aqui vem a calhar o relato de uma passagem num dos grupos em que se perguntou sobre a experiência das educadoras com o tráfico em suas comunidades. Deixaram claro que esta é sua realidade e com ela convivem. Sentem-se, até, relativamente protegidas pelos chefes de boca, porque eles lhes têm simpatia e não querem saber de violência nas creches onde seus filhos passam os dias. Dentre as histórias contadas, uma educadora relatou a seguinte experiência. Coordenadora de sua creche , ao chegar, certa manhã, não encontrou TV, computadores e outros aparelhos utilizados nas atividades. Desolada, comentou na  comunidade sobre o acontecido e um jovem disse que sabia quem era o ladrão- era o Dedé, que havia roubado pra pagar o chefe. A educadora pensou:” Se eu denunciar à polícia, vou amanhecer morta.” E foi à casa do chefe.  Ao entrar e deparar-se com os aparelhos, disse-lhe que eram todos seus e haviam sido roubados da creche pelo Dedé. O chefe pediu que deixasse com ele. No outro dia ela encontrou todos os pertences no pátio da escola. Soube que o chefe mandou seus “funcionários” darem uma surra no Dedé.

 Como iremos classificar a providência da educadora? Com base em que conceitos? No das noções de civilidade? No de certo/errado? Honesto/desonesto?

Outro exemplo de situação:

Em um grupo com os adolescentes, trabalhávamos as palavras significativas para cada um deles. Uma jovem nos chamou atenção. Sua palavra foi medo. Falou com o peso de chumbo, pedindo para não explicar o motivo de sua eleição. Ao ver considerado seu desejo, inesperadamente disse, e com o mesmo peso: matei uma pessoa. Instalou-se um silêncio profundo no ambiente. Já estávamos próximos ao final do grupo e uma das coordenadoras quebrou o silêncio dizendo que, às vezes, matamos partes de nós mesmos. A adolescente ironizou a resposta dada pela psicanalista que, de imediato, se deu conta do inapropriado de sua colocação. Mas, era hora de se encerrar e assim foi feito.

             Saímos impactadas.  Nesse momento nos amparamos na imagem da jovem do filme “Preciosa”.

             Sem o sabido e o conhecido, entrávamos novamente no mar, porém numa perspectiva diferente. Começávamos a nos aproximar do mar, deixando-nos penetrar através dos sentidos e assim, seguíamos pelos caminhos que os grupos iam trilhando.

O modelo das “formações do inconsciente” nos coloca diante de estruturas abertas, algo como redes de pescadores que gostariam de conhecer não apenas o peixe bem formado (as figuras figuradas, as representações), mas o próprio mar. Quando puxamos a rede em nossa direção (na direção de nosso desejo de saber) somos obrigados a constatar que o mar por seu lado se retira. Ele escoa por toda parte, foge, e ainda o percebemos um pouco em torno dos nós da rede onde algas informes o significam, antes de secarem completamente em nossa praia. Compreendemos, lendo Freud, que o psicanalista se obriga a reconhecer que, ao puxar a rede em sua direção, o essencial também desaparece. Os peixes estão bem ali (as figuras, os detalhes, os fantasmas que o historiador da arte igualmente ama colecionar), mas o mar que os torna possíveis guardou seu mistério, presente apenas no brilho úmido de algumas algas presas nas beiradas. Se um pensamento do inconsciente tem algum sentido, então ele deve se reduzir a estruturas feitas de buracos, de nós, de extensões impossíveis de situar, de deformações e de rasgaduras na rede.  (Didi – Huberman, Georges, pp 222-223).

 

Educadores e adolescentes se mantiveram o tempo todo sabendo, não por conhecimento intelectual prévio, mas por experiência do seu cotidiano e por suas próprias necessidades, aquilo que recém agora começávamos a perceber em nossas interações. A constatação deste conhecimento intuitivo esteve sempre no fato de retornarem para os encontros, ano após ano, menos pelos cursos do que por captarem nossa disposição genuína de sermos-com eles.

Segundo Tânia Galli Fonseca, “ numa conversa, situamo-nos sempre diante de uma espécie de língua estrangeira e nos vemos impelidos a ser bilíngues no interior de nossa própria língua. Quando a conversa se torna encontro, é no fundo de solidões que ela acontece, levando os interlocutores a perderem seu nome próprio para virem compor um efeito combinado, pois algo se passa entre dois ou mais como um efeito de ziguezague; um não se torna o outro, mas cada um encontra o outro em um bloco de devir que não lhes é comum, mas que está entre os dois, acontecendo o que se pode chamar de uma dupla ou múltipla captura.... Isso seria, pois uma conversa”.

É este o encontro que buscamos em nossas Rodas de Conversa.

Revelaram-se em nosso trabalho incontáveis Erêndiras que encenam uma diversidade de personagens únicos na enciclopédia da vida e da morte.. A Erêndira de García Márquez contou com o próprio corpo a história desta personagem da vida e da morte; a mesma que sua avó já contara e que inúmeras mulheres e homens já contaram e recontaram. Até que, quem sabe esta personagem do imaginário social possa se fazer representar diferente, simbolicamente. Trauma está presente em todo psiquismo como desmantelamento, desamparo e irá se repetir até que possa ingressar no discurso, na medida em que estivermos implicados nestas cenas e pudermos tentar construir novas tramas juntamente com os personagens. Pensamos que nosso papel se aproxime do coro nas tragédias.

O coro tinha várias funções no drama grego: era uma personagem da peça; fornecia conselhos, exprimia opiniões, colocava questões e, por vezes, tomava parte ativa na ação. Ao coro competia também criticar valores de ordem social e moral, exercer o papel de expectador ideal ou voz da opinião pública, reagindo aos acontecimentos e ao comportamento das personagens como o dramaturgo julgava que a audiência reagiria se estivesse no seu lugar. Desempenhava ainda a função de elemento impulsionador da emoção dramática, conferindo movimento ao que estava a ser representado e promovendo quebras de ação de forma a levar o público a refletir sobre o que se passava. Em muitas destas peças, o coro transmitia ao público o que os personagens principais não poderiam dizer, como os seus medos ocultos ou segredos.

Assim como nós, que diante da perplexidade provocada pelo convívio com esses adolescentes e essas educadoras, buscamos nas Erêndiras um coro que dê voz a novas elaborações éticas no confronto entre vida e morte que estas experiências tem exigido.

 

 

 

 

Referências

Galeano, E. (1997).  O livro dos abraços. Porto Alegre: L&PM.

 

García Marquez, G. (2014). A incrível e triste história da Cândida Erêndira e sua avó desalmada. Rio de Janeiro: Record.

 

Fernandez, A. M. (2009). Las diferencias desigualadas: multiplicidades, invenciones políticas y transdisciplinar. Bogotá:  Universidad Central.

 

Didi-Huberman, G. (2013). Diante da imagem: questão colocada aos fins de uma história da arte. São Paulo: Editora 34.

 

Novaes de Sá, R. (2016).  A Analítica Heideggeriana da existência em “Ser e tempo”.  Rio de Janeiro. Monografia (Especialização em Psicologia Clínica). Programa de Pós-Graduação em Estudos da Subjetividade Dep. de Psicologia UFF, Rio de Janeiro, 2016.

 

* SPPA - Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre

** SMED – Secretária Municipal da Educação

*** Projeto Pescar -