"Agressão"

por Maurício Marx e Silva


O termo agressão em psicanálise tem se referido a uma gama ampla e variada de fenômenos e conceitos, conforme o período da história da psicanálise, o autor ou a escola que estejam servindo de enquadre para a sua discussão.

Inicialmente uma pulsão pouco definida na primeira tópica freudiana, um constituinte do inconsciente em contraposição ao pré-consciente e o consciente, a agressão adquiriu uma conceituação mais definida com a introdução do conceito de pulsão de morte em “Mais além do princípio do prazer”.

Com a idéia de que a matéria viva havia se criado a partir do inorgânico, mais desorganizado, e que esta trajetória teria gerado uma tendência interna e inerente de retorno a este estado inorgânico original, não vivo, a Pulsão de Morte, Freud derivou a agressão da necessidade de defletir esta tendência de retorno ao não-vivo para o exterior para permitir, ainda que transitoriamente, a vida. A agressão então constituiria a tendência à autodestruição defletida para o exterior, para os objetos, a partir da intervenção das pulsões de vida.

Embora esta concepção a partir da tendência de retorno ao inanimado tenha nascido controversa para o próprio Freud, e as controvérsias não tenham nunca desaparecido das discussões posteriores, com esta concepção da origem da pulsão de morte sendo progressivamente abandonada em favor de uma concepção mais puramente psicológica, a vinculação da agressão à pulsão de morte nunca deixou de ser feita dentro das metapsicologias próprias das escolas posteriores. O grupo Kleiniano, na Inglaterra, fez da agressão destrutiva, derivada diretamente da pulsão de morte, principalmente através de uma inveja primária que buscaria destruir o bom, e de sua influência na constituição do psiquismo, seu principal fator na etiologia das diferentes psicopatologias. Já o grupo independente, principalmente a partir de Winnicott,  enfatizou muito mais a agressão dentro da tendência à vinculação ao objeto e ao desenvolvimento.


A inevitável relação da agressão com a emoção da raiva também pode ser compreendida dentro destes diferentes enfoques. Numa psicanálise que tentava entender as profundezas do psiquismo partindo da experiência clínica com as patologias, principalmente as mais graves, a raiva que era observada era principalmente aquela que levava a manifestações destrutivas para o indivíduo e seus objetos, a raiva dentro da patologia. Já numa teorização que partia principalmente de uma observação do desenvolvimento normal, e só eventualmente patológico, a raiva era percebida como uma emoção natural e necessária para imprimir mais energia na luta pela vida quando diante da frustração na relação com os objetos.


Provavelmente as diferentes concepções reflitam não só diferenças teóricas mas também o fato de que, a despeito de nosso desejo pela simplicidade, que muitas vezes leva à simplificação, tenhamos que discriminar diversas situações muito diferentes entre si que tenham sido descritas usando o mesmo termo amplo “agressão”.