"Ambivalência"

por Renato Moraes Lucas


            Em termos linguísticos o substantivo Ambivalência provém da junção do prefixo latino Ambi, que  se refere a existência de um elemento que apresenta dois aspectos ou valores, ao termo latino Valentia, que se apresenta em relação àquilo que tem força. Neste sentido, na ambivalência de um pensamento, sentimento ou objeto assume-se a existência conjunta e paralela de dois valores, significados ou características dispares, habitualmente incompatíveis ou contraditórios, mas intrinsecamente investidos.

            Laplanche conceitua Ambivalência como a “presença simultânea, na relação com um mesmo objeto, de tendências, de atitudes e de sentimentos opostos, fundamentalmente amor e ódio “  (p. 17). Estas tendências opostas, discutidas por Anzieu (1996), constituir-se-iam verdadeiramente como ambivalência, quando se  inserem dentro do contraditório. Neste, aspectos simultâneos, pertencentes ao mesmo sistema de abstração psíquico, agiriam sobre o desejo, que em termos defensivos levaria o Eu tentar localizar, pelo processo de recalcamento (Verdrängung), o verdadeiro e o falso em lugares diferenciados dele mesmo (verdadeiro no sistema inconsciente e falso no consciente ou o contrário). A contradição teria no sintoma um compromisso entre os sistemas, onde ambos aspectos seriam satisfeitos ao mesmo tempo. A ambivalência diferenciar-se-ia da ambiguidade, presente no paradoxo, onde aspectos sucessivos pertencentes a sistemas diferentes de abstração, agiriam sobre o desejo fazendo-o transbordar sobre a memória, a percepção, o juízo e o pensamento, constituindo o não verdadeiro e o não falso em paralelo no psiquismo (no inconsciente ou no consciente), não formando assim a separação pelo recalcamento e, consequentemente, o sintoma.

            O conceito de Ambivalência se constituiu em um termo clássico na psicanálise e foi introduzido por Freud, tomando emprestado o termo original de Bleuler (1911). Este (apud Pereira, 2000) estabelece a ambivalência afetiva como um sintoma fundamental da Esquizofrenia, juntamente ao autismo , às alterações da afetividade e aos distúrbios das associações, provenientes da fragmentação patológica da mente e levando à progressiva ruptura com a realidade factual. Freud refere-se contudo à Ambivalência, no trabalho A Dinâmica da Transferência (1912), apenas citando Bleuler, como a presença de manifestações afetivas opostas no indivíduo, tanto em termos de normalidade, quanto como uma característica intrínseca à psiconeurose. Esta duplicidade direcionada ao objeto constituiria a Transferência positiva e a Transferência negativa presentes na análise, muitas vezes dirigindo-se a mesma pessoa (o analista ou outro)  ou, eventualmente, dissociada e deslocada. Entretanto, já nos historiais clínicos da Analise da fobia de uma menino de cinco anos (Pequeno Hans) e na Análise de um caso de neurose obsessiva (O homem dos Ratos), ambos de 1909, já se percebe os múltiplos direcionamentos dos conteúdos afetivos amorosos e agressivos presentes de forma simultânea e precocemente dissociados. Em Inibição, Sintoma e Angustia (1925) Freud especifica como moções pulsionais contrárias, constituindo-se por fim em um conflito psíquico, são parcialmente manejadas pelo Ego através de sintomas: deslocamento e evitação na Fobia e recalcamento do aspecto agressivo e formação reativa na neurose obsessiva. Neste mesmo ano acrescenta  a contribuição do mecanismo da Negativa (1925), para reduzir a sobrecarga sobre o Ego frente ao retorno do recalcado. Posteriormente, no artigo Fetichismo (1927) e em Divisão do Ego no processo de defesa (1938), Freud teoriza que, além da cisão tópica decorrente do recalcamento, existe, através do mecanismo da Desmentida (Verleugnung), o estabelecimento e manutenção de dois lugares distintos e paralelos de funcionamento no Ego e em níveis de abstração diferenciados (uma parte regride a níveis mais primitivos e outra progride), para o manejo da realidade externa. Ele diz neste último trabalho, que o menino em questão “Continuou com sua masturbação como se isso não implicasse um perigo para seu pênis, mas , ao mesmo tempo, em completa contradição com sua aparente intrepidez e indiferença, desenvolveu um sintoma com o qual, apesar de tudo reconhecia o perigo” ( p.3377). Apesar de Freud se referir à contradição entre os mesmos, que desta forma estruturaria à ambivalência no Ego, a Desmentida da realidade criaria mais a ambiguidade típica do processo paradoxal.

            Contemporâneo à Freud, Abraham (1911) desenvolve seus estudos sobre a etiologia da Psicose Maníaco-depressiva, onde a ambivalência na relação objetal tem especial destaque. Ele considera fases de maturação psicossexual da libido, onde uma primeira fase oral, dita primária e considerada pré-ambivalente, é seguida por uma fase oral sádica , onde a ambivalência ao objeto se expressaria pelo surgimento da agressividade ao seio (canibalesca) em paralelo à moção libidinal amorosa prévia (p.112). Em uma segunda fase libidinal, a fase anal-sádica, o objeto tenderia a ser manejado de forma ambivalente, ou através de sua destruição fantasiada pela expulsão anal (fase anal expulsiva) ou através de seu controle (fase anal retentiva). Assim, ele teoriza sobre a etiologia, respectivamente, da Melancolia e da Neurose Obsessiva.

            Em 1952 e trabalhos subsequentes, Melanie Klein realiza contribuições importantes ao tema. Ela refere que a Libido e a pulsão de Agressão, tomados por ela como presentes no bebê de forma inata, determinam um tipo inicial de relação objetal (Posição Esquizo-paranóide) ao serem projetadas (e posteriormente introjetadas) para o objeto (deflexão pulsional) e mantidas como se fossem dirigidos a objetos diferentes (Objeto parcial) em um processo sucessivo e, neste sentido, paradoxais. Um passo seguinte deverá ser dado, quando o bebê, pelo contínuo processo projetivo-introjetivo, inicia a perceber que o objeto ao qual destina pulsões agressivas, é o mesmo (Objeto Total) sobre o qual está libidinalmente ligado. Tal situação inaugura um tipo específico de relação objetal (Posição depressiva) com procedimentos internos e externos para reparar o objeto supostamente destruído pela agressão projetada. Pode-se verificar assim a presença da oposição de tendências,  entre em ambas as posições, como conceitua Laplanche. Entretanto, é na posição depressiva que mais claramente a ambivalência pode ser vista, pois na mente do bebê há simultaneidade de pulsões, ou como a autora diz ”estados de amor e ódio”(p.73), na busca de progressiva integração.

            Winnicott (1954-5) acrescenta uma elaboração pessoal sobre a aquisição da posição depressiva de Klein. Ele não compartilha com a autora, a ideia da existência de forças mortíferas no interior do bebê como um elemento inato e etiológico, mas define esta agressividade interna como resultado de um desequilíbrio no bebê frente às vivências instintivas que perturbariam um estado de estabilidade deste frente ao objeto. Concorda com a mesma, entretanto, que a referida posição é uma aquisição decorrente da evolução de processos psíquicos e ressalta que é uma condição para a evolução a este estado, a  sustentação que o objeto deverá dar ao processo. Desta forma, o objeto suficientemente bom, aceitaria a oposição de elementos psíquicos provenientes do bebê , com base no que o autor chamou de a sobrevivência do objeto (1969). Esta aceitação de elementos agressivos seria uma contribuição essencial para a integração destes aspectos no bebê, levando por final, ao verdadeiro  sentimento de culpa e compaixão.

            Considerando a discussão acima quanto ao contraditório e ao paradoxal, poder-se-ia dizer que a ambivalência no pensamento de Winnicott, seria uma etapa mais avançada de maturação psíquica, com a integração de opostos no mesmo sujeito e objeto, de forma progressiva, com a aceitação destes opostos dentro do mesmo sistema. Além disso, Winnicott parece afastar-se da ideia clássica acerca de mecanismos psíquicos, mais ou menos bem sucedidos, destinados ao manejo de opostos, mas toma como essencial a integração destes como manifestação de maturação emocional.

            Autores contemporâneos teorizam sobre a existência de zonas de não representação ou de parcial representação dentro de estados psíquicos não neuróticos (Levine, Scarfone. C e S Botella); sobre a existência de um inconsciente Encravado (Laplanche) ou inconsciente Amencial (Dejours), manifestados por um conjunto  sintomático  (passagem ao ato, caracteriopatias, psicosomatoses, Adições) observado em paralelo às produções psiconeuróticas, que se  exteriorizam  em uma  Transferência Paradoxal  (Roussillon) e que, apesar de muitas vezes aparentarem oposição, não podem ser definidos  per se como ambivalentes,  mas sim como paradoxais, como inicialmente referido.

            Em termos sumários pode-se dizer que a Ambivalência em uma visão clássica, encontra-se relacionada ao contraditório, onde elementos opostos e simultâneos pertencentes ao mesmo sistema de abstração, dentro de uma estrutura psiconeurótica, são manejados pelo Ego de forma defensiva, tanto pelo recalcamento secundário quanto por defesas secundárias. Em termos da teoria das relações de objeto, ela proviria da maturação psíquica pela chegada à Posição depressiva permitindo a integração progressiva destes opostos no sujeito e no objeto, que seriam assim totalizados, e que contaria com a participação essencial do objeto. Este, seja  a mãe no processo primitivo ou o  analista no processo analítico, deverá suportar inicialmente um processo paradoxal, permitindo a integração dos opostos e a constituição da ambivalência característica da posição depressiva em que o amor e o ódio integrados no sujeito e no objeto podem conviver de forma suficientemente estável.

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