"Analisabilidade"

por Gerson Isac Berlim


Desde que Freud lançou as bases da psicanálise, há mais de cem anos, a sociedade e a cultura têm passado por profundas modificações. Como o homem se insere em conformidade com a imposição do meio, pode - se dizer que a psicopatologia, sofrendo a mesma influência, passou dos histéricos da época, a dar lugar a quadros tais como, narcisistas, borderlines e aditos. O conhecimento psicanalítico vem se expandindo significativamente, podendo-se falar em uma expansão da mente psicanalítica.

Durante décadas, foi somente discutida a questão da indicação/contraindicação em função da psicopatologia e dos diagnósticos psiquiátricos, evoluindo com o passar do tempo, ao pensar essencialmente nas diferentes capacidades egóicas.

B. Joseph (1975) lançou a ideia da acessibilidade, introduzindo um novo viés na reflexão acerca da flexibilidade na aceitação de pacientes para análise, o que possibilitou a muitos, a “chance” de se analisar, em lugar de serem “condenados” à exclusão. A ideia de acessibilidade alerta que existem pacientes mais difíceis de acessar do que outros, e não que existam pacientes inacessíveis.

A introdução de parâmetros relativos à técnica psicanalítica, bem como o aproveitamento dos avanços da psicofarmacologia, tem possibilitado que se criem condições que permitem que a psicanálise seja mais acessível e eficiente.

Em função da analisabilidade, está cada vez mais se ampliando a discussão sobre o emprego do método psicanalítico e as questões levantadas por Thomä e Kächele (1985), tais como: “Quais modificações se alcançam, com que paciente, com quais dificuldades, quando o procedimento psicanalítico se aplica, de que maneira e por qual analista? ” Estas questões devem ser atentamente refletidas, visando-se a uma posição minimamente restritiva, tendo em vista a incerteza com relação ao diagnóstico da não analisabilidade.

Os autores referidos refletem ainda sobre a transferência e seu manejo, questão nuclear na psicanálise, cujas fronteiras tem estado em constante expansão.  Pensam eles na necessidade de se entender operacionalmente a transferência, conforme as variações das condições técnicas, como por exemplo, a instalação da neurose transferencial alimentada por interpretações transferenciais, ou a transferência como reação à situação analítica.

Neste sentido, podem ser diferenciados os pacientes conforme o desenvolvimento do quadro transferencial e assim, pensar-se numa psicopatologia psicanalítica, onde estudos significativos, citados por eles, com relação a aplicações da técnica em pacientes por exemplo esquizofrênicos, por Rosenfeld, perversos, por Masud Khan,Chasseguet-Smirgel e McDougall, narcisistas, por Kohut e borderlines por Kernberg, estendem largamente o alcance da terapêutica psicanalítica, na medida em que o analista também seja capaz de se adequar às condições necessárias aos diferentes casos.

Tendo como base desenvolvimentos mais recentes, pode-se entender que é indicada terapia analítica a um paciente sempre que se crê possível, expandir sua capacidade mental de pensar. Isto significa essencialmente, alcançar uma melhor função continente, que permita manejar e vivenciar mais adequadamente suas circunstâncias experimentadas. Em outras palavras, pode-se dizer que a análise deve ser capaz de promover a introjeção de um novo modelo mental que torne a vida possível.

O trabalho analítico, em sua essência, não se refere mais ao tratamento da doença de um paciente em si, mas sim, em permitir que a dor mental seja pensada, dor esta que tem origem na conflitiva do paciente, e que isto é alcançado através da atualização de tal conflitiva na relação analista/analisando.