"André Green"

por Luciane Falcão


André Green foi um homem que animou o mundo psicanalítico contemporâneo tornando-se um de seus maiores pensadores, oferecendo novas possibilidades de se observar o funcionamento do aparelho psíquico. Para isto, contou com sua inteligência surpreendente, sua curiosidade, sua capacidade de se aproximar de diferentes áreas da ciência e da cultura.

Nasceu no Cairo, em 12 de março de 1927 e ali viveu até seus 19 anos. Era filho de judeus sefardistas: pai português e mãe espanhola. Desde cedo, a cultura e a língua francesa (a materna) o atraiam. Considerava a morte prematura do seu pai (estava com 14 anos) um dos acontecimentos mais marcantes da sua vida. Ao mesmo tempo, sua mãe, extremamente sensível, também foi a base de suas motivações em relação ao trabalho analítico sobre o afeto e a sua descrição sobre o complexo da mãe morta assim o comprova (ela sofreu de uma depressão quando Green tinha dois anos).

Em 1946 mudou-se para Paris, ingressando na faculdade de Medicina. No Hospital Saint-Anne investiu com prazer na sua formação: além do aprendizado, era um local em que pesquisadores e personalidades encontravam liberdade e onde também conheceu Henri Ey, o seu grande mestre. Nele, que era a alma do Hospital Saint Anne, encontrou qualidades humanas e simplicidade, aliado à curiosidade intelectual e uma vasta cultura. O considerava um substituto paterno.

Teve uma sólida base de conhecimentos nas áreas humanas, e encontrou no pensamento clinico de Freud e na psicanálise a base que lhe permitiu acesso ao funcionamento do inconsciente. Mesmo criticado, frequentou os seminários de Lacan, além de aproximar-se de psicanalistas ingleses, como Winnicott e Bion.

Fez sua formação analítica na Sociedade Psicanalítica de Paris, tornando-se Membro Efetivo e um dos mais destacados analistas, principalmente pela qualidade de sua produção e dedicação à psicanálise. Em 1956 iniciou sua primeira análise com Maurice Bouvet. Depois, um reanálise curta com Jean Mallet. Posteriormente, com Catherine Parat:  “poderia dizer que com ela eu fiz minha verdadeira análise, porque ela mostrou provas de qualidades eminentes…”

Foi presidente da SPP (1987) e também diretor do Instituto de Psicanálise da mesma; vice-presidente da IPA; professor no University College, em Londres; Professor Honorário da Universidade de Buenos Aires; Membro da Academia de Humanidades e Pesquisa de Moscou; Membro da Academia de Ciências de Nova York; Membro da Sociedade Britânica de Psicanálise. Em 2007 foi agraciado com o prêmio “Relevantes Realizações Científicas” – a maior distinção da IPA.

Tonou-se um dos maiores pensadores da psicanálise contemporânea e seus trabalhos servem de base para muitos Institutos de Formação Psicanalítica, da mesma forma que são respeitados por vários meios da cultura. Sua obra é traduzida em mais de 10 línguas e foi desenhada não só por sua história pessoal, por sua capacidade de apreender o humano através da sua experiência clinica com seus pacientes, como também pela literatura - Shakespeare, Proust, Conrad, Borges, Henry James, Vassili Grossman entre outros.

Devemos a Green uma série de conceitos e noções que se tornaram familiares no nosso meio, tais como: o complexo da mãe morta, o narcisismo primário como estrutura,  narcisismo de vida e narcisismo de morte, o trabalho do negativo, as funções objetalizantes e desobjetalizantes, a estrutura enquandrante do eu e sua relação com a alucinação negativa, o duplo limite, a desertificação psíquica, os processos terciários e a terceiridade, o representante-afeto, a relação pulsão-objeto, a linguagem e todo um desenvolvimento para compreensão das pulsões destrutivas, essenciais para a compreensão dos casos limítrofes.

Acredito que o fato de A. Green entender que nenhum corpo teórico contém uma única verdade, fez dele um psicanalista que via a psicanálise não tendo uma teoria definitiva mas, ao contrário, sempre em movimento, acreditando que conhecimento sobre o que é humano não pode ficar restrito a rígidas definições.