"Angústia de Separação"

por Nazur Aragonez de Vasconcellos


É um tipo de angústia, portanto, uma emoção dolorosa, que surge como uma reação ao risco de perder ou separar-se de uma figura de ligação importante, geralmente a perda ou afastamento da mãe como objeto, que representa o amparo, a proteção, tanto aos riscos externos como também, fundamentalmente, as inundações internas oriundas de necessidades não atendidas.

Considera-se uma angústia ligada ao estado de desamparo devido ao nascimento imaturo do ser humano (neotenia), é associada a uma etapa do desenvolvimento normal da criança e tende a se expressar em diversas situações de separação ao longo da vida. Inclusive no processo analítico é um fenômeno que se evidencia nas variadas situações de descontinuidade (final de sessão, férias, interrupções de fim de semana ou imprevisibilidades). É um sentimento universal com um caráter normal no desenvolvimento, mas também pode adquirir uma dimensão patológica configurando um quadro clínico específico: o transtorno de ansiedade de separação (DSM-5) ou síndromes de abandono como referida por alguns analistas. São várias as abordagens e visões teóricas sobre as origens do desenvolvimento desta angústia e a intervenção sobre ela vai variar no setting analítico conforme a origem da angústia e a compreensão teórica do analista.

Freud foi o primeiro psicanalista a abordar e teorizar a respeito da questão do desamparo e da angústia de separação. A origem do conceito já pode ser percebida em 1905 quando o autor descrevendo a amamentação ressalta a importância do amparo precoce (Freud, 1905). Referindo-se a angústia infantil o autor enfatiza que a ansiedade diante de qualquer estranho bem como o medo da escuridão surge frente à perda da visão em relação à pessoa amada, “e se deixam acalmar quando podem segurar-lhe a mão na obscuridade”. Contudo a primeira referência explícita sobre a importância da separação da mãe na geração da ansiedade ocorreu na conferência XXV em 1916. 

A elaboração da angústia de separação foi descrita por Freud ao observar a brincadeira de seu neto de um ano e meio de idade durante a ausência materna. Ele forneceu relevante compreensão sobre o conteúdo subjacente do brincar da criança através da clássica brincadeira do carretel (Fort-Da). Com a evolução da compreensão advinda da análise de crianças foi ficando clara a constatação Freudiana de que através da encenação a criança representa e elabora ativamente a separação vivenciada passivamente. Ou seja, seria uma forma de elaboração da angústia de separação uma vez que o evento causador de sofrimento, a ausência da mãe, é transformado ativamente em algo prazeroso na atividade vivenciada no jogo.

Em inibições, sintomas e ansiedade (1926) a angústia é definida como uma reação frente a um estado de perigo e é reeditada toda vez que um estado desse tipo vem a se repetir. O protótipo desse perigo é oriundo do trauma de nascimento. É um perigo para a vida. Ainda que possamos supor que o bebê não tenha qualquer consciência de que sua vida corra perigo. Contudo podemos pressupor que a inundação de excitações, de estímulos, possa desencadear esse estado de desconforto.

Muitos psicanalistas desenvolveram trabalhos sobre angústia de separação. Destacamos alguns com vasta produção teórica relevante tais como Klein, Anna Freud, Winnicott, Spitz, Mahler, Bowlby e, mais contemporaneamente, uma importante obra do suíço, Jean-Michel Quinodoz.