"Ansiedade"

por Alda Regina Dorneles de Oliveira


A ansiedade é um tema muito amplo e ocupou Freud na maioria de seus escritos segundo James Strachey, editor das Obras Completas. O termo “ansiedade” é utilizado nas Obras Completas, porém a partir do alemão Angst é traduzido como “angústia” em outras obras. Ao longo de sua obra vai falar em ansiedade fazendo par com susto, medo, temor, etc. Em suas primeiras idéias (teoria econômica, estruturada nos anos 1895-1900) a ansiedade surgia como uma forma direta de descarga da libido rejeitada; com a concepção de um aparelho psíquico composto de ego, id e superego (teoria estrutural,1924) a ansiedade aparece não necessariamente em ligação direta com a libido sexual, e sua concepção teórica torna-se mais complexa. Então Freud estuda e especifica as ansiedades como sinal (símbolo), automática ou frente a um perigo real. As ansiedades características das neuroses constituem um imenso estudo e tratam de um quantum de ansiedade que vai se fixar constituindo diferentes quadros neuróticos. Nesse sentido, além de Freud pode-se ver J.Laplanche.

Em Psicanálise, ansiedade é um estado afetivo de expectativa que pode chegar ao desprazer, acompanhado de sensações físicas relacionadas a determinados órgãos do corpo. Vamos considerar o início da vida, quando o bebê com ego em seus primórdios chega a um estado de desamparo em face de uma necessidade não atendida num tempo suficiente. Essa dependência, que no início predomina em termos biológicos, logo se incrementa em termos psicológicos, tendo gerado a famosa frase de Freud: “...há muito mais continuidade entre a vida intra-uterina e a primeira infância do que a impressionante cesura do ato do nascimento nos teria feito acreditar”.  O protótipo da situação geradora de ansiedade, segundo Freud, é o nascimento e as próximas situações sucedem-se ao longo do desenvolvimento que, em si mesmo, é um desafio constante para o indivíduo. Assim, precisará enfrentar as modificações geradas pelo ciclo vital em seu corpo/mente e estas, embora naturais, demandam atendimentos complexos, na maioria das vezes testando os limites do já alcançado e gerando expectativa ansiosa. Como a dependência do meio externo é constante, dele partem ou nele são projetadas expectativas que novamente podem gerar ou reforçar a ansiedade; afinal, muitos são os perigos que ameaçam a vida desde cedo, relativos às possibilidades de perdas do objeto/mãe em si, perda do amor do objeto, ansiedade de castração, medo do superego, etc.

À medida em que a experiência emocional vai acontecendo, tendo como centro a ansiedade, desenvolvem-se os mecanismos de defesa e a capacidade de gerar significados no psiquismo, destacando-se dois matizes básicos que vão tonalizar a ansiedade: o persecutório e o depressivo. Nesse sentido, ver Melanie Klein. No relacionamento afetivo, quando o amadurecimento alcança a condição de individuação e reconhecimento do outro, a ansiedade gerada pela perda, antes vivida somente como ofensiva ao eu e portanto persecutória, passa a ser sentida também como uma falta dolorosa do outro, agora com tonalidade depressiva, mesclada com tristeza.  Podemos perceber a ansiedade em transformação seja no psiquismo humano seja nos estudos psicanalíticos; ela vai se elaborando na medida em que se desenvolve o psiquismo e na medida em que os estudos avançam com compreensões e descrições mais precisas.