"Associação Livre e Atenção Flutuante"

por Suzana Iankilevich Golbert


Para descrever recomendações técnicas da psicanálise, Freud fez uma comparação emblemática entre a psicanálise e o jogo de xadrez. Em ambos, o que podemos conhecer, sistematicamente, são apenas suas aberturas e seus finais. Impossível determinar, previamente, seus caminhos intermediários. A comparação ressalta que em ambos há regras a serem seguidas – que devem ser conhecidas por seus participantes -, e que se convive, desde o início, com incógnitas sobre como o jogo e a análise se desenvolverão. Propostas de encontro com o desconhecido.

A psicanálise se baseia na noção de que há conteúdos inconscientes que determinam conflitos, ações e sofrimentos nos indivíduos. Como medidas de defesa, tais conteúdos se esforçam para permanecer no inconsciente, para onde foram destinados. O trabalho da análise é o de investigar a origem patogênica dos complexos inconscientes, visando conhecê-los e tratá-los.

O paciente deve contar a seu analista tudo o que lhe vier à mente, sem se preocupar com aspectos lógicos e/ou inteligíveis de seu discurso. Deve falar livre e despreocupadamente, despindo-se de sua autocrítica, que funciona como uma barreira para impedir o acesso do inconsciente ao consciente. Essa é a regra fundamental para o paciente no tratamento: perseguir sua associação livre. Todo o fluxo de pensamento deve ser comunicado, a preocupação com conexões lógicas desprezada, para que se revele uma cadeia de associações inconscientes carregada de significado.

Em contrapartida, para o psicanalista, a regra é que realize uma escuta o mais livre possível de sua crítica ou julgamento, atitudes essas derivadas de seus próprios complexos inconscientes. Para essa escuta livre, é essencial que ele dedique a mesma atenção ao fluxo de informações do paciente, cuidando para não ressaltar um aspecto, em detrimento de outros. A atitude exigida ao analista é a de que mantenha uma atenção livremente flutuante, que permita uma compreensão da mente do paciente com a menor interferência possível da atividade inconsciente do próprio analista. Freud alerta para o perigo inerente ao não cumprimento dessa regra. “Assim que alguém deliberadamente concentra bastante atenção, começa a selecionar o material que lhe é apresentado; um ponto fixar-se-á em sua mente com clareza particular e algum outro será, correspondentemente, negligenciado e, ao fazer essa seleção, estará seguindo suas expectativas ou inclinações” (1912). 

Bion, psicanalista mais recente, sugere uma atitude de escuta “sem memória e sem desejo”, ou seja, que o analista trabalhe, na sessão, despido de expectativas pessoais e de preocupação com aquilo que já sabe. A semelhança entre as atitudes parece clara.

O físico Albert Einstein comentou sobre sua atitude de investigação: “Eu penso noventa e nove vezes e não descubro a verdade. Paro de pensar, mergulho em profundo silêncio, e eis que a verdade me é revelada”. Através da atenção flutuante, o analista mergulharia no profundo silêncio citado por Einstein, para caminhar, com o seu paciente, rumo à descoberta da verdade. A atenção flutuante (analista), aliada à associação livre (paciente), permitem à dupla analítica aprofundar o conhecimento da mente.

Para Einstein, que não era um psicanalista, mas um grande pesquisador, “a mente que se abre a uma nova ideia jamais voltará ao seu tamanho original”. A ideia nos permite aludir ao processo analítico.