"Betty Joseph "

por Ivan Fetter


Joseph foi uma das destacadas analistas do grupo kleiniano inglês. Nasceu em Birminghan em 7 de março de 1917 e faleceu em 4 de abril de 2013, aos 96 anos.

Fazendo uma retrospectiva de sua longa e produtiva vida, podemos constatar que poucos analistas levaram tão a sério o preceito técnico de “trabalhar no aqui-e-agora”. Foi a analista do “detalhe”, fazendo uma verdadeira microscopia da sensível intimidade do que se passa em uma sala de análise. Seu olhar voltado para a clínica, observava a relação analítica em toda a sua complexidade e em seus sutis movimentos, gerados pelo “uso que o paciente faz do analista” para se proteger de suas ansiedades, tanto as persecutórias, como as depressivas.

Vindo da área do serviço social, iniciou sua formação em 1945, analisando-se com Michael Balint. Seguiu sua análise didática com Paula Heimann e um trabalho de supervisão com Hanna Segal, o qual gerou uma amizade e uma rica troca de ideias entre elas que durou cerca de 40 anos. Encontrou em Segal uma interlocutora com quem discutir seus casos clínicos. Betty Joseph foi uma das últimas sobreviventes de um legado direto de Melanie Klein, frequentando seu círculo íntimo.

Joseph seguiu Klein com o mesmo espirito que Klein seguiu Freud, abrindo um campo de estudos que gerou modificações técnicas importantes. Usou a técnica kleiniana clássica, mas desenvolveu, a partir dos anos 70, um estilo próprio de praticar a psicanálise, com uma escuta acurada dos pacientes, com uma atenção às mudanças psíquicas que ocorrem na mente durante a sessão, com o uso técnico da transferência/contratransferência. Um bom exemplo foi a aplicação técnica do conceito de identificação projetiva, descrito por Klein em 1946, uma área a ser explorada, que gerou importantes avanços para as futuras gerações de psicanalistas.

O seminário que conduziu durante anos, tornou-se, segundo Hanna Segal, um verdadeiro laboratório, descrevendo em pormenores as trocas entre paciente e analista na sessão, especialmente as mudanças frente às intervenções do analista. O seu interesse e experiência com pacientes de “difícil acesso” e aqueles com “vício pela quase-morte”, com características altamente destrutivas, foi de grande utilidade para que muitos colegas pudessem reverter situações em que havia uma barreira, muitas vezes intransponível, para um processo analítico evoluir favoravelmente.

Podemos descrevê-la como uma analista com intuição fina e rigor intelectual e técnico. Isso gerou-lhe uma abrangência e admiração, mesmo para analistas afastados do modelo kleiniano.

Esteve na SPPA em duas oportunidades, em 1997 e em 2002, deixando questões importantes para serem pensadas a partir de suas ricas supervisões e conferências.