"Bissexualidade"

por Angela Mynarski Plass


A noção da bissexualidade foi introduzida por Freud no final do século XIX, na época ele suspeitava que a bissexualidade desempenhava um importante papel nas neuropsicoses. Com o desenvolvimento da área da embriologia, se descobriu que o embrião humano contém uma potencialidade masculina e outra feminina, tornando a bissexualidade humana também uma realidade da natureza.

A bissexualidade proposta por Freud se refere a presença de disposições masculinas e femininas que coexistem no psiquismo de todos os seres humanos. O masculino e o feminino são referências importantes como posições psíquicas. Na área da biologia é a partir de um óvulo e de um espermatozoide que começa uma nova vida. Assim, a bissexualidade psíquica consiste na existência conjunta dessas duas grandes referências no psiquismo, com suas configurações singulares.

Em trabalhos posteriores Freud relacionou a bissexualidade psíquica ao complexo de Édipo deixando claro que a bissexualidade estava na base desse complexo.

A presença da bissexualidade no psiquismo, leva a noção da diferença sexual na infância e ao longo do processo do desenvolvimento psicossexual à escolha de objeto, seja esta escolha heterossexual ou homossexual. Após o estabelecimento da orientação sexual, o sujeito vai seguir ao longo de sua vida carregando aspectos da sexualidade que foi reprimida. A bissexualidade psíquica não significa confusão de sexos.

Autores psicanalíticos posteriores a Freud, como Bion e Green, com suas compreensões teóricas, descreveram varios aspectos das interações precoces entre a mãe e o bebê, e o papel do pai, enfatizando o tanto que as figuras materna e paterna (ou seus representantes) participam na organização da vida psíquica do bebê.

Quando existem dificuldades ou impasse do sujeito em assumir o seu desejo e a consequente noção da castração relacionada ao complexo de Édipo, essa circunstância o mantém em um estado incompleto da elaboração da sua bissexualidade. Nessa circunstância, a ambivalência afetiva não é metabolizada psiquicamente, dificultando ou até impedindo o pensar e o conhecimento da realidade psíquica.

A elaboração da bissexualidade esta relacionada a dissolução do complexo de Édipo, para tal depende do ambiente humano próximo e das configurações inconscientes transmitidas pelos pais (ou representantes) à criança. Portanto, a bissexualidade também se inscreve no psiquismo pela relação com o outro, não se encerra na condição constitucional.

A bissexualidade psíquica tem um papel nas fantasias e identificações iniciais do bebê, faz parte da construção do espaço interno e sua integração, esta associada ao reconhecimento da diferença sexual e interfere nos processos de subjetivação do sujeito. Freud seguiu falando sobre a bissexualidade até o final de sua obra, em relação a escolha de objeto e ao estabelecimento da orientação sexual.