"Borderline"

por Idete Zimermann Bizzi


Transtorno de Personalidade Borderline é um diagnóstico psiquiátrico referente a um quadro de longa duração, em que ocorre, de forma oscilante e repetitiva, marcada instabilidade emocional, impulsividade na conduta, e risco de perda do senso de realidade. Sofrimento, e sentimento de confusão são centrais e profundamente desorganizadores para esses indivíduos. Os sintomas não preenchem os critérios clássicos para uma neurose ou para uma psicose, sendo muitas vezes de difícil diagnóstico. O indivíduo não está predominantemente desconectado da realidade, e delirante, como ocorre na psicose, mas também não tem um funcionamento emocional e racional minimamente estável, o que caracteriza a neurose. São pessoas que conservam capacidades importantes de noção da realidade, e aparentam, muitas vezes, estar bem, relacionar-se bem, ter uma vida produtiva, enquanto que o mundo interno não corresponde a esses indicativos, e é inundado por sentimentos crônicos de vazio, confusão. Ao investigar mais detidamente a vida dessas pessoas, tem-se também que seus vínculos interpessoais costumam estar continuamente ameaçados por um padrão impulsivo, em que são comuns agressões físicas, verbais, e condutas autodestrutivas, como tentativas de suicídio, automutilação, ou exposição a perigos. São comuns explosões de agressividade, raiva ou pânico, que acabam, com frequência, por afastar pessoas significativas, gerando tristeza, solidão e profundo sentimento de culpa. Como indicam os termos, em inglês, border (fronteira), e line (linha), tratam-se de pessoas que transitam nos limites da perda da sanidade mental, e cujo problema central está nas  linhas (imaginárias) de estruturação dos espaços mentais, vitais a qualquer ser humano. O termo “limítrofe” é uma boa tradução para o português. Imagine-se a mente como uma casa de paredes sólidas, dividida em sala, quartos, cozinha, com divisórias firmes: essa é uma mente saudável (estrutura neurótica). Imagine-se a casa sem a porta, e com algumas paredes externas e internas caídas: essa é a mente psicótica, que perde a noção do que é real ou imaginado, do que é seu ou do outro, do que é fantasia ou realidade. O estado mental borderline, ou limítrofe, por sua vez, pode ser comparado a uma  casa com várias paredes externas firmes, mas com divisórias internas frágeis, que se desfazem como que por encanto (quando frustrados ou estressados), e se refazem quando o fator desorganizador passa. Quando, porém, muitas paredes internas sucumbem, também as externas começam a ceder, e o indivíduo borderline pode desenvolver episódios psicóticos, e requerer hospitalização ou cuidados psiquiátricos intensivos. São pessoas particularmente sensíveis ao meio ambiente e as separações, com intenso receio de abandono, e paradoxal ansiedade frente a aproximação e estabelecimento de intimidade, muitas vezes percebida como perigosa intrusão, o que desencadeia uma reação fóbica.

As teorias psicanalíticas a respeito desses casos indicam uma precoce preponderância de vivências destrutivas, que acabam por obscurecer e misturar-se patologicamente com as capacidades criativas e amorosas dessas pessoas. (6)

As causas do transtorno são um misto de tendências agressivas, fragilidade pessoal constitucional e um ambiente familiar instável, com vivências desorganizadoras e negativas desde a tenra infância. (4)

A evolução desses quadros costuma ter efeitos devastadores, dificultando a formação de vínculos afetivos, crescimento profissional e pessoal. A taxa de suicídio é alta (3 a 10%) (3). A sensação de vazio ou de farsa traz sofrimento atroz. Como esses sintomas também ocorrem em outras patologias psiquiátricas, como transtorno de humor, é importante que se proceda uma avaliação clínica com um profissional (psiquiatra, psicólogo, psicanalista). Com o passar das décadas, há uma tendência à remissão sintomática, com amenização dos quadros (5). A prevalência na população geral está estimada em 1,6%, (2). O tratamento indicado é a psicoterapia ou psicanálise. Os tratamentos de base psicanalítica têm desenvolvido abordagens diferenciadas a esses pacientes, o que tem resultado em maior aderência aos tratamentos e melhores resultados. (1). O uso de medicações pode se mostrar útil em alguns casos.