"Campo Psicanalítico"

por Paulo Henrique Favalli


Termo criado por Madeleine e Willy Baranger (1961) com o qual buscam definir a estrutura da situação de análise como um campo dinâmico onde duas pessoas, analista e analisando, se encontram indefectivelmente ligadas e complementares enquanto dura a situação dentro da qual nenhum membro dessa dupla é inteligível sem o outro.

A proposição dos Baranger dá início a uma radical mudança paradigmática nos fundamentos teóricos e técnicos da observação psicanalítica.  Freud, ao abandonar sua teoria inicial em que supõe serem os sintomas histéricos decorrentes de uma cena precoce de sedução sexual, descreve a formação do inconsciente como resultante de um conflito entre as demandas incessantes da sexualidade infantil e as defesas contra ela. Em consequência desta concepção propôs um método de tratamento que teria como foco o funcionamento mental do paciente, sobretudo como esse funcionamento se manifestava na relação com o terapeuta, o que passou a ser nomeado, no jargão, de transferência. Esse método supunha a participação de um psicanalista isento, capaz de observar de forma objetiva os processos mentais ocorrendo dentro da mente de seu paciente. No entanto, a própria experiência clínica encarregou-se de questionar essa proposta na medida em que constatava serem a “neutralidade” ou a “receptividade passiva” do terapeuta condições teóricas distantes das ocorrências reais vividas no consultório. A proliferação de trabalhos sobre os fenômenos contratransferenciais dá testemunho desse fato. O mais isento e sagaz dos terapeutas não poderia estar imune à reciprocidade dialética que se estabelece entre o sujeito e o objeto do conhecimento, a qual tem merecido dedicada atenção dos teóricos que se ocupam desse tema (Hessen, 1925). Atualmente há consenso quanto à impossibilidade de uma observação de cunho psicanalítico caucionada pela soberana objetividade do terapeuta observador. Sua inerente subjetividade impõe-se no ato de observação. Com a concepção de um campo relacional, que é certamente estruturado pelo jogo de identificações projetivas recíprocas, não há mais como pensar as ocorrências da vida mental de paciente e analista isoladamente. A idéia de uma tensão oscilatória constante entre as individualidades de cada um e a absorção dessas para dentro da intersubjetividade relaxa a premência analítica de distinguir o que é de um ou do outro (transferência e contratransferência). Amplia-se o ângulo de observação, já que não se mantém o foco no inconsciente com sua delimitação tópica dentro da mente individual conforme a formulação teórica clássica. Trata-se de um inconsciente deslocado, pois não se refere a um ou outro dos participantes, mas a ambos. Ou, como diz Sapisochin (2012), surge uma neoformação criada entre psiquismos de analista e paciente. “O campo é uma estrutura diferente da soma de seus componentes, como uma melodia é diferente da soma das notas” (Baranger, M., 1992).  Esse inconsciente feito a dois, que transcende aos indivíduos, só se configura quando acontecem os diálogos analíticos durante a sessão (Sopena, 2009). Portanto, o encontro analítico deve se constituir num espaço gerador de uma experiência emocional da dupla, privativa e irrepetível.  

É necessário que se diga que a concepção do campo psicanalítico, como descrita acima, surge no bojo de aportes teóricos que implicaram em mudanças profundas nas abordagens clássicas sobre a constituição do psiquismo. Refiro-me, sobretudo, a D. Winnicott e W. Bion. Seja pela noção de “função continente” ou pela necessidade da ocorrência de “um ambiente suficientemente bom”, esses autores deixam claro que a mente humana não é algo dado por sua própria conta. Para que se processe a transformação das experiências emocionais mais primitivas em representações mentais capazes de promover o pensamento simbólico é necessário o comparecimento de outra mente que concorra para a formação do substrato sobre o qual vai se construir o que entendemos como funcionamento mental do indivíduo. A transposição dessa compreensão para os acontecimentos surgidos dentro da sala de análise levou ao que hoje se conhece como o campo psicanalítico intersubjetivo.