"Depressão"

por Carmem E. Keidann


Esta expressão inclui um espectro de emoções que precisam ser discriminadas. Diferenciar uma tristeza causada por um luto é importante.

Alguém que nunca se entristece pode estar apresentando uma dificuldade de enfrentar a vida, reagindo de uma forma como se estivesse se protegendo, evitando sentir a dor e o sofrimento comum ao ser humano.

Quando nos referimos à perda, num primeiro tempo, nos lembramos da morte de um ente querido, mas o termo pode abarcar outras perdas, como de um emprego, de um companheiro, de um ideal.

Os sentimentos são de tristeza, desânimo, falta de interesse pelas atividades corriqueiras, diminuição do apetite, insônia, entre outros.

Há um clássico texto de Freud, de 1915, “Luto e Melancolia”, que contém o cerne da compreensão psicanalítica da depressão.

A melancolia se refere a um estado de diminuição da autoestima, de queixas exageradas do outro, de auto recriminações. 

Ressaltamos, por exemplo, que, quando alguém perde por morte um companheiro e acusa o objeto perdido de estar causando este sofrimento, isso significa que, dentro de si, a figura do ente querido que morreu permanece ainda muito forte, tomando conta das emoções e impedindo que a catexia (energia de ligação) fique disponível para outros relacionamentos.

No luto comum (ou normal), este período de tristeza é circunscrito temporalmente, e, aos poucos, a pessoa aceita a perda, sofre a dor e gradualmente direciona seu afeto a outras pessoas que fazem parte da sua vida.

No chamado luto patológico, este processo não se realiza, e então o quadro tem as características da melancolia (ou Depressão mais intensa).

Um outro psicanalista que desenvolveu o tema foi Abraham, que observou as diferenças de regressão, os aspectos narcisistas, as relações de objeto na infância e o funcionamento do superego e das defesas do ego.

O papel e a manifestação da agressão, do ódio e da raiva precisam ser levados em conta, pois se entrelaçam com os conflitos de ambivalência que são comuns na depressão. A culpa é um sentimento que emerge pelo ataque fantasiado aos seus objetos internos e resulta num conflito.

No tratamento de orientação psicanalítica, buscamos alcançar os conflitos envolvidos na dinâmica do quadro. Quando falamos em conflitos, referimo-nos a algo interno que se relaciona às experiências infantis das primeiras relações da criança com os seus pais ou cuidadores. Desde cedo, pela vivência de ser amado, o bebê vai estruturando seu ego, se relacionando progressivamente com a realidade e aprendendo a tolerar as frustrações.

Na Depressão mais intensa, é possível haver sintomas psicóticos, com perda do contato com a realidade. O quadro clínico se caracteriza por angústia excessiva, sentimentos de vazio, apatia, desânimo, incapacidade de desfrutar da vida, impotência sexual, sentimentos de inferioridade, inibições do pensamento e retardo motor. Algumas vezes, se manifestam sintomas paranóides e hipocondríacos.

 O diagnóstico acurado de uma Depressão é fundamental, levando em conta os fatores constitucionais e hereditários para a indicação de um tratamento. A inclusão de medicamentos e a hospitalização podem ser necessárias.