"Édipo"

por Cátia Olivier Mello


Édipo... O que é isso?

Denominado assim por Sigmund Freud (1924), o Complexo de Édipo tem este nome por tomar emprestada a tragédia grega de Sófocles (496-406 a. C.) chamada Édipo Rei para explicar o desenvolvimento psicossexual de meninos e meninas e lhes permitir, ao final, ser um indivíduo único.

A partir do relato de seus próprios sonhos e da observação das crianças pequenas, Freud (1900 e 1950) notara que os meninos nutriam sentimentos amorosos por suas mães e hostis por seus pais, ocorrendo o mesmo com as meninas, que ficavam enamoradas de seus pais e rivalizavam com suas mães quando pequenas. Notou também que este sentimento melhorava mas não sumia na idade adulta, ocorrendo normalmente com todos os seres humanos. Amante das artes, Freud tomou emprestado o mito de Édipo para explicar o fenômeno. Na história da tragédia grega o rapaz Édipo, sem saber, apaixona-se por sua mãe Jocasta e mata seu pai Layo. Ao descobrirem o que ocorrera, Édipo e Jocasta ficam desesperados pela culpa. Édipo se cega e Jocasta se suicida. A exemplo de Édipo, ao perceber que casamento com seus pais/cuidadores não será possível, já que o relacionamento sexual entre pais e filhos é proibido na nossa cultura, as crianças ficam decepcionadas com seus pais e sentem-se excluídas, tristes e culpadas (Freud, 1924). Aos poucos, com ajuda dos próprios pais ou cuidadores elas vão entendendo e aceitando esta Lei da Cultura e buscam outros homens e outras mulheres (substitutos dos pais) para casar. Isto permite que cada criança possa ampliar o seu ciclo de relacionamento criativamente e aceitar regras e limitações (Freud, 1913).

Que efeitos tem o Complexo de Édipo na prática?

Do ponto de vista do desenvolvimento observa-se que desde que nasce, o bebê humano está em contato com homens e mulheres, os quais têm hábitos, regras e modos de convivência compartilhados. Embora tenham nascido com um sexo biológico que os identifica como homens ou mulheres, subjetivamente as crianças precisam experenciar papéis, modos de viver e pensar considerados masculinos e femininos na cultura da qual fazem parte. Tal processo é longo e intrincado, permitindo que haja muitos movimentos de aproximação e afastamento da criança tanto com pai quanto com a mãe, de modo que pouco a pouco vão incorporando aspectos da subjetividade tanto femininos quanto masculinos. Chama-se a estes movimentos de aproximação e afastamento de Identificação, ao final do qual a criança já não se sente mais tão triste, excluída ou decepcionada por não ser o centro das atenções dos pais pois já os tem simbolicamente consigo si no modo de agir, pensar e sentir (Freud, 1924 e Aulagnier, 1979).

Os sentimentos fraternos de rivalidade, ciúme e colaboração também fazem parte do Complexo de Édipo, pois é com os irmãos (ou companheiros de classe, amigos ou primos) que aprendemos a compartilhar o tempo e a atenção dos pais, bem como a não ser os seus únicos amores. Ao mesmo tempo, os irmãos passam pelas mesmas angústias e alegrias, fazendo-os parecidos entre si e diferentes dos pais (Kancyper, 1995).

A percepção das gerações consolida a diferença entre os mais velhos e os mais jovens, e aliada às diferenças entre homens e mulheres resulta na aquisição da noção de que cada pessoa é diferente da outra e como tal deve ser respeitada na sua individualidade, seja ela homem ou mulher (Moreira, 2004).