"Elementos Alfa e Beta"

por Gustavo Soares


Os elementos alfa estão diretamente relacionados ao pensamento de Bion , e à Teoria do Pensar, que se constitui no principal pilar teórico de sua obra.

A teoria do pensar em Bion afasta-se do pensamento determinista e positivista vigente até então na psicanálise, para ele o processo analítico visa não um saber a mais, mas um saber para poder transformar, através do aprender da experiência emocional, o “conhecer” sempre significou algo da ordem de reduzir o não sabido, o desconhecido e essa atitude pode significar um abafamento do novo, algo que ao invés de ser explicado, precisa ser intuído e se desdobrar em associações novas, criativas.

No modelo mais cartesiano o pensar é produto da maturação do ego levando-nos a uma teoria mais adaptativa, biológica. Para Bion,  o pensar humano é consequência da pressão dos pensamentos, sendo assim é o fato de existir de ter contato com o próprio ser que move o pensar, se pretendo ser sou forçado a pensar, logo altera o cogito: “penso, logo existo” para “existo, logo penso”.

Neste contexto introduz o conceito de reverie materna – capacidade inicial da mãe em acolher e conter os impulsos e emoções primitivas do bebê, que as comunica através da identificação projetiva, ajudando-o a formar seu mundo interno e ao aprendizado da função do pensar.

Na psicanálise isso implica em uma expansão epistemológica para uma mente concebida por uma teoria das funções: função alfa, elementos alfa, elementos beta, barreira de contato e tela beta. Essa ideia leva a uma concepção de um inconsciente sem fronteiras, infinito sempre em expansão. (2014)  

Seguindo esse modelo a identificação projetiva é uma forma de comunicação do ser humano e assim as pessoas se comunicam querendo ou não, gerando uma comunicação inevitável entre as pessoas.

A função alfa opera sobre as impressões sensoriais e emoções, transformando-as em elementos alfa, que possuem uma característica singular: podem ser armazenados, retidos na memória como experiências e, em geral, são transformados em imagens visuais, que por sua vez, sofrem novas transformações e são utilizados para os sonhos, pensamentos oníricos e recordações.

Bion propôs o termo barreira de contato para essa formação de elementos alfa e que irá marcar uma separação entre consciente e inconsciente. Pode ser comparada a uma membrana semipermeável em um processo contínuo de formação que por sua vez se alimenta da formação dos elementos alfa, gerando o desenvolvimento no individuo de uma capacidade de estar consciente ou inconsciente e de uma relação realista com o tempo entre passado, presente e futuro ou até saber se está dormindo ou acordado.

 

Elementos Beta

Os elementos beta são tal qual os elementos alfa produtos da mente, não se relaciona a patologia mas sim a um predomínio do que Bion chama de parte psicótica da personalidade.

Os elementos beta enquanto processo de crescimento e amadurecimento do indivíduo são aqueles que não foram passíveis de “continência” da função alfa – predomínio da parte não psicótica da personalidade , não permitindo que aquela atue na mente do outro, possibilitando que haja maior produção de elementos alfa e consequentemente uma maior capacidade de simbolização.

No modelo da relação inicial do bebe com seio observamos que ele projeta na mãe, seus medos e suas angústias iniciais, relacionados ao temor da morte, ao desamparo, comunicando através da identificação projetiva essas impressões sensoriais e emoções muito primitivas, os elementos beta. A mãe, como continente dessas impressões, dessa carga emocional as recebe e as contém, desintoxica, modificando-a para que ele receba de volta sob uma forma tolerável.

A capacidade da mãe de tolerar as angústias iniciais da criança, modifica o medo, diminuindo a angústia e ela transmite elementos alfa para a criança e permite que sejam utilizados, na medida em que os elementos beta ficam destituídos de sua força disruptiva que faz com que a criança sempre tente se livrar deles e com isso não desenvolve sua capacidade para pensar. O resultado é uma maior ampliação da parte não psicótica da personalidade, produtora de elementos alfa.

Os elementos beta para Bion, são objetos compostos de coisas-em-si-mesma, equacionado ao conceito de coisa em si de Kant. Sendo fatos não digeridos, ou não sonhados e se prestam só a evacuação.

Tanto elementos beta como alfa foram introduzidos por Bion para desenvolver sua Teoria do Pensar.

Bion(1973) escreve; “ Elementos-beta são uma forma de falar acerca de um material que não é pensamento; elementos-alfa é uma forma de falar acerca de elementos que hipoteticamente supomos ser uma parte do pensamento”.