"Esther Bick"

por Nara Amália Caron


Dotada de fantástica inteligência e curiosidade incomum pelas profundezas da alma humana e um talento excepcional para observar psicanaliticamente os bebês e as crianças pequenas, Esther Bick deixou um rico legado para a psicanálise. Destaca-se, em especial, pela sua notável invenção – o método psicanalítico de observação de bebês – que consiste na experiência de observar semanalmente bebês no seu ambiente natural, a família, desde o nascimento até os dois anos de idade. Descobriu o potencial desta experiência para a formação analítica, tanto para a expansão interna e ampliação da capacidade receptiva e continente do analista, como para aguçar a curiosidade, interesse e compreensão dos fenômenos psíquicos primitivos.

Esther Bick nasceu em 04/07/1902, em Przemys’l, na Polônia, e faleceu em 20/07/1983, em Londres. Única filha sobrevivente de uma família judia ortodoxa, que morreu em campo de concentração, era divorciada e não teve filhos. Em 1936, mudou-se para Viena, onde completou seu doutorado sobre o desenvolvimento infantil. A insatisfação com essa experiência de pesquisa com o método experimental para acessar os bebês, levou Bick a idealizar um método enraizado na psicanálise, cujo dispositivo básico é interno, isto é, baseado na experiência do próprio observador com o mundo primitivo do bebê. Mudou-se para a Inglaterra, pouco antes do inicio da Segunda Guerra Mundial, iniciou sua primeira análise com Michael Balint e, posteriormente, analisou-se com Melanie Klein. Trabalhou durante a guerra em creches para crianças evacuadas e, em 1948, convidada por John Bowlby para organizarem o curso de formação de psicoterapeutas de crianças, na Tavistock Clinic, colocou em ação o seu método psicanalítico de observação de bebês, que passou a fazer parte do currículo desde o início. Seu trabalho revolucionou o atendimento de crianças e adolescentes, com a inclusão dos pais e despertou curiosidade e interesse em psicanalistas europeus e latinoamericanos, muitos dos quais difundiram o método standard - e suas aplicações na clínica e na pesquisa-, em seus países de origem. Mostrou-se uma professora e supervisora talentosa e criativa, ali permanecendo até 1960, quando passou a desenvolver essas funções no Instituto da Sociedade Britânica de Psicanálise.

Embora Esther Bick tenha deixado apenas quatro trabalhos publicados, são clássicos e impressionam pela atualidade, consistência, clareza e precisão teórico-técnica. Foi através da observação de bebês e análise de crianças com patologias graves que criou a sua teoria do desenvolvimento emocional primitivo, e alguns conceitos psicanalíticos como identidade adesiva, segunda pele, bidimensionalidade, que muito tem contribuído para a compreensão de patologias graves como psicose e autismo, bem como para a prevenção e intervenção precoce.

Poucos analistas tiveram tamanha influência com tão poucas publicações. O método por ela desenvolvido segue se difundindo pelos cinco continentes. Em setembro de 1997, foi criado, pela Tavistock Foundation, o International Journal of Infant Observation and its Applications, que segue até hoje com publicações trimestrais. Em 2012, foi criada a AIDOBB, associação internacional que organiza atividades científicas de observação de bebês. Em 2014, durante o Congresso da FEPAL, foi criada a latinoamericana ALOBB, filiada à internacional.