"Fixação"

por Lisandra Guillen Lopes de Salles


O termo FIXAÇÃO é definido pelo dicionário como "Ato ou efeito de fixar, de tornar fixo ou estável, operação pela qual se faz aderir alguma coisa a uma superfície". Contempla  diferentes áreas do saber fazendo referência à "conservação, impedir movimento, estabilização, tornar inalterado". Disto depreende-se que a fixação diz respeito à algo que se estabeleceu e permaneceu.

Em psicanálise, encontramos este termo em um dos primeiros escritos de Freud, no texto Um Caso de Cura pelo Hipnotismo (1886), onde ele faz menção a algo que "permaneceu fixado" (Pg.167) e há uma descrição das aplicações do termo FIXIERUNG (fixação) sendo entendida em sua grande maioria como um "... sentido que se aproxima do sentido corrente de "permanentemente colocado" ou "estabelecido"" (Pg. 167).

Já em Três Ensaios sobre Sexualidade (1905), Freud traz de forma mais clara que o sentido psicanalítico do termo fixação é uma parada do desenvolvimento, ou seja, descreve que a pulsão fica estagnada em algum ponto do desenvolvimento. Segundo ele, isto pode ocorrer pelo excesso de excitação em algum estágio muito inicial de desenvolvimento, onde o pré-prazer é intenso e falta força pulsional para que o processo continue. Ou seja, a pulsão é, de forma incomum, muito gratificada, permanecendo fixada.

Na Conferência XXII - Algumas ideias sobre desenvolvimento e regressão - Freud (1917 [1916-1917]) nos diz "... no caso de cada uma das tendências sexuais, considero possível que algumas partes das mesmas tenham ficado para trás, em estádios anteriores de seu desenvolvimento, embora outras partes possam ter atingido o objeto final." (Pg. 344)

Ao analisar seus pacientes, Freud dá-se conta que eles não puderam seguir adiante naquele aspecto da vida, manifestando condutas, ideias, sentimentos, que se caracterizam por um modo de agir de uma fase anterior. Assim, a neurose seria o resultado desta conservação ou fixação das impressões destas ligações mais precoces,  a manifestação atual de algo há muito vivido (fixado).

Neste sentido, é que estabelece uma conexão entre fixação e neurose, ou seja, a neurose se apresenta como um comportamento persistente revelando o modo de funcionamento de um passado muito distante, que se repete sem possibilidade de alteração.

Não atingindo seu desenvolvimento pleno, a libido fica fixada em modos de satisfação relativas a fases muito precoces de relações primárias que, naquele momento, são incapazes de promover a satisfação real, constituindo-se assim a fixação como o fator interno que predispõe a etiologia da neurose sendo um poderoso fator na sua formação.

No texto Cinco Lições de Psicanálise - PRIMEIRA LIÇÃO - Freud (1909) traz: "Como esses londrinos pouco práticos, procedem, entretanto, os histéricos e neuróticos: não só recordam acontecimentos dolorosos que se deram há muito tempo, como ainda se prendem a eles emocionalmente; não se desembaraçam do passado e alheia-se por isso da realidade e do presente. Essa fixação da vida psíquica aos traumas patogênicos é um dos caracteres mais importantes da neurose e dos que têm maior significação prática." (Pg.33)

Quanto mais intensa for a fixação, maior a tendência a regressar à ela e maior a dificuldade de enfrentar a realidade externa de forma diferente, utilizando mecanismos de defesa, modos de comportamento e de satisfação próprios de uma época anterior que se revelam inadequados ou insuficientes para lidar com as situações do presente, impossibilitando a pulsão de encontrar a satisfação de forma adequada à realidade. 

No tratamento psicanalítico é possível "voltar" àquele polo de atração - ponto de fixação -  onde a libido ficou retida para a obtenção de maior clareza quanto a seu significado, possibilitando modos de funcionamento mais adequados para o presente.