"Função Paterna "

por Maria Lucrécia Sherer Zavaschi


Toda a formação cultural do homem ocidental e boa parte da de outros povos coloca em posição privilegiada o papel e a função da mãe, deslocando o papel e a função paterna para posições periféricas e menos importantes na formação do indivíduo.

Brazelton o Cramer (1992) referem estudo no qual se constatou que em 4% das culturas pesquisadas havia uma relação regular e íntima entre o pai e o bebê. A não valorização do papel do pai é paradoxal, uma vez que, especialmente no ocidente, a figura do homem conquistou um lugar proeminente, a ponto de a mulher e os filhos assumirem seu nome (Howells, 1971).

No entanto, com as transformações sociais contemporâneas, a começar pelo trabalho feminino e pela independência da mulher, tem-se descoberto que a importância do pai pode ir além de sua função de provedor e protetor da família.

Nos primórdios da psicanálise, no final do século XIX, o pai teve uma relevância marcante no estudo da etiopatogenia das neuroses, especialmente da histeria. O pai em Freud assume diferentes papéis, mas sem dúvida é com o complexo de Édipo que assume maior preponderância.

A primeira menção de Freud à influência do pai está numa carta a Breuer, em 1892, em que faz uma explanação de como apresentariam ao público a teoria da Histeria. Referiu-se ao retorno de uma lembrança ou de um “trauma” relacionado com um episódio proibido, caracterizado pela sedução da paciente Anna O., quando menina , por parte do pai ou de seu representante. Ambos consideraram que seus múltiplos sintomas estariam relacionados com essa situação traumática, que ao mesmo tempo evocava desejos e culpa na paciente.

Os primórdios da função paterna datam dos primeiros homo sapiens. O pai psíquico ou na mente das pessoas, ou a função paterna de proibição do incesto na mente das pessoas, tem suas raízes já nos primeiros aglomerados humanos, antes mesmo da existência da escrita e das religiões. Mendel apud Ody (1985) situa a interiorização progressiva da imagem do pai durante o período paleolítico.

Em “Totem e Tabu”, Freud (1913) apresenta as raízes arcaicas da proibição do incesto real. Nas sociedades primitivas, através de sua organização social em clãs totêmicas, o homem primitivo impedia o incesto de forma rigorosa. A violação concreta era energicamente castigada.

A explicação do tabu esclarece a natureza da consciência humana que surgiu numa base de ambivalência emocional. Desta forma, um dos sentidos opostos envolvidos será inconsciente, e mantido recalcado pela dominação do outro. O que acontece no caso do neurótico, é que o desejo original de que a pessoa amada morra, e o ato parricida propriamente dito, é substituído pelo “medo de que ele morra”.

Ao eliminar e devorar o pai primevo, os filhos adquiriam sua força. Desta forma assumiam as características do pai. Mais tarde Freud (1917, p.281) chamaria o mecanismo mental decorrente desses atos de “identificação com o objeto”.

“Os primórdios da religião, da moral, da sociedade, da arte, convergem para o complexo de Édipo. Estes achados coincidem com as descobertas psicanalíticas de que o mesmo complexo constitui o núcleo das neuroses. Parece-me ser uma descoberta muito surpreendente que também os problemas da psicologia social se mostrem solúveis com base num único ponto concreto: a relação do homem com seu pai” (Freud,1913,p.185-186).

 

Freud supunha que a ambivalência fosse um fenômeno fundamental, “que originalmente não fazia parte de nossa vida emocional, mas foi adquirida pela raça humana em conexão com o complexo paternal.” Freud supôs que  sentimento de culpa pelo “assassinato do pai”tenha persistido por milhares de anos e tenha continuado vigente até hoje através do sentimento de culpa do neurótico. (Freud, 1913, p.186).

Em “Sobre o Narcisismo: uma Introdução” (Freud, 1914)7, ao lançar as bases do conceito de superego e das relações entre o ego e os objetos externos, Freud traça uma nova distinção entre “a libido do ego” e a “libido objetal”. Coloca então em relevo o papel do pai real de maneira decisiva na estruturação do superego. Chamou de “relação anaclítica” ao vínculo com os primeiros objetos sexuais do bebê, que são as pessoas que lhe dispensam os cuidados primários. Essa pessoa seria a mãe ou seus substitutos. Nessa medida, se o pai é o primeiro substituto da mãe, para ele, o pai estaria dispensando “cuidados maternais” ao filho. Winnicott em 1971, também daria a mesma denominação a esses cuidados por parte do pai.

Em “Luto e melancolia” (Freud,1917, p.271) numa nota do editor inglês, aparece o trecho de um manuscrito endereçado a Fliess, datado de 1897, quando pela primeira vez Freud antecipa o conceito do complexo de Édipo: “ Os impulsos hostis contra os pais (o desejo de que morram) são também um constituinte das neuroses”. Esses sentimentos são reprimidos quando a compaixão pelos pais é ativa, como na doença ou na morte destes. “Em tais ocasiões, é manifestação de luto o recriminar-se pela morte deles (...) ou punir a si mesmo de uma maneira histérica” (op. cit., p.272) Esse trabalho exigiu o exame do conceito de mecanismo de identificação* como fase preliminar da escolha objetal. Seria a primeira forma pela qual o ego escolhe um objeto e deseja incorporá-lo, de acordo coma fase oral ou canibalística do desenvolvimento libidinal. A forma de realizar esse intento seria “devorá-lo”. Na revisão cuidadosa desse conceito em Freud, realizada por Pechansky (1989, p.162) está sintetizada sua evolução, demonstrando que esse mecanismo está implicado na estruturação do aparelho psíquico e que dessa forma “assumiu progressivamente um valor central nas formulações do desenvolvimento do indivíduo.”