"Intersubjetividade "

por Antonio Carlos J. Pires


Os primeiros estudos sobre a questão da intersubjetividade foram realizados por Willy e Madeleine Baranger, na década de 1960. Para chegar à formulação do conceito de campo analítico, estes autores buscaram inspiração na psicologia da Gestalt, na obra de Merleau-Ponty e, principalmente, no conceito de identificação projetiva criado por Melanie Klein. A identificação projetiva é um meio primitivo de comunicação inconsciente, não verbal, que também funciona como um  recurso para tentar 'livrar' o indivíduo do contato com seus conflitos internos. Através deste expediente, é possível mobilizar na mente de outra pessoa um determinado estado mental conflitivo com o qual temos dificuldade de lidar, e do qual desejamos nos livrar por gerar sofrimento psíquico.

O casal Baranger ampliou a concepção de Klein, ressaltando que a identificação projetiva não é apenas um fenômeno intrapsíquico, de caráter individual, mas um  acontecimento interpessoal. Em uma sessão de análise, haveria um interjogo de identificações projetivas que geraria um campo dinâmico, onde as experiências emocionais compartilhadas pela dupla dariam origem a uma fantasia inconsciente própria daquela díade. Assim, competiria ao analista não só observar o que se passa na mente de seu analisando, visando compreendê-lo, mas também auto-observar-se, procurando entender a fantasia inconsciente criada pela díade. O olhar do analista intersubjetivista não se dirige apenas à subjetividade do mundo interno do analisando, mas ao construto intersubjetivo surgido no campo bipessoal da sessão analítica. A postura dos intersubjetivistas é a de se deixarem capturar, em parte, pelas vivências infantis que o analisando reedita no campo analítico e, a partir da elaboração desta vivência, transformá-la em uma interpretação capaz de dar um significado à fantasia do campo.

A título de ilustração, os Baranger apresentam, em um de seus trabalhos, o caso de um analisando que, na sua primeira sessão, apresenta-se confuso. Ele começa a sessão contando que sua noiva havia rompido com ele e que, logo em seguida, ele 'entrara em surto psicótico'. Na saída da sessão, ao tentar pegar um cigarro, o paciente deixa cair no consultório vários objetos que tinha no bolso. Terminado o trabalho daquele dia, o analista recebe um chamado telefônico de um amigo do analisando, alertando-o que o paciente estaria muito mal, desnorteado, confuso. A partir daí, o analista pôde perceber que este também era o seu estado mental frente aquele analisando: ficara desorientado, paralisado diante do ocorrido, sem saber o que dizer ao paciente.

Na sessão seguinte, o analista, agora compreendendo o amigo como porta voz  do próprio analisando, pôde interpretar este conteúdo para ele. A partir desta intervenção, seguiu-se uma sessão mais coerente: o paciente pôde ter um insight sobre o que estava se passando, mostrando-se mais integrado.

Segundo os Baranger, na primeira sessão relatada, o analista sentiu-se invadido pelo estado confusional do analisando, como se este tivesse esparramado no campo –  via identificação projetiva – objetos soltos e vivências desconexas do seu mundo interno; ele 'inundara' o consultório com suas primitivas ansiedades. Esta vivência é que teria paralisado o analista. Criara-se, assim, uma fantasia inconsciente psicótica no campo bipessoal daquela sessão. Na sessão seguinte, ao compreender a chamada telefônica do amigo, o analista resgatou a capacidade de pensar – através de uma 'segunda mirada' sobre o campo – devolvendo ao analisando a parte sadia que ele havia projetado em um lugar seguro (o amigo).