"Intuição"

por Heloisa cunha Tonetto


Intuição, conforme o dicionário Houaiss (2007), é a faculdade de perceber, discernir ou pressentir coisas, independente de raciocínio ou de análise. Essa função básica, que influi diretamente na qualidade das relações sociais e afetivas, também está presente na prática analítica, pois toda a análise é um processo de natureza vincular e íntima entre duas pessoas. A intuição é um recurso que permite ao psicanalista captar algo que está além das impressões sensitivas.

O uso cada vez mais difundido da intuição – como elemento técnico – para o psicanalista acessar o inconsciente de seu paciente, nos remete para o vínculo inicial mãe-bebê, e este pode nos fornecer uma dimensão mais profunda sobre a importância do seu uso. As mães, de uma maneira geral, possuem uma capacidade inata de intuir e discernir o que se passa com o estado mental de seus bebês antes mesmo que eles tenham consciência disso.

Por exemplo, o bebê, ao ser alimentado, só se dará conta da qualidade psíquica que este ato envolve se puder transformar a sua ação em uma experiência emocional. Para que esta passagem – do ato à sua representação – possa efetuar-se, torna-se necessário a presença de uma mãe disponível, com uma função de continência. Uma mãe empática permite reconhecer, ou “adivinhar”, a natureza dos sentimentos e das emoções que estão sendo vivenciadas na relação com seu filho e, por consequência, “intuir” o que se passa na sua mente. Essa capacidade intuitiva vai atenuar ou intensificar certas ações que darão um adequado bem-estar ao próprio bebê, bem como ao ambiente em que se encontra esta dupla. Assim sendo, ao responder de modo adequado, usando a sua intuição, a mãe auxilia o bebê a descobrir o que está acontecendo consigo e quais são suas necessidades.

Uma mente primitiva, como a de um bebê, que já tem, desde o início, um ambiente favorável, vai poder vivenciar a silenciosa satisfação de ser contido e entendido. Estas vivências lhe darão qualidades psíquicas que servirão de modelo e permitirão a possibilidade de ampliá-las ao longo de outras relações, sociais e afetivas, favorecendo vínculos profundos e sustentáveis.

É nesta direção que encaminhamos o entendimento do que se passa na relação entre o psicanalista e seu analisando. Há uma ligação protegida por um enquadre técnico e conhecimentos teórico/práticos, mas o que permite uma experiência emocional profunda tem a ver com a capacidade intuitiva do analista. O uso dessa função natural possibilita o aprofundamento da relação, deixando a mente livre para o simbólico e a criatividade. O vir-a-ser  do conhecimento e da expansão da mente, então, poderá acontecer naturalmente.