"Lembranças Encobridoras"

por Emílio Salle


Lembrança encobridora trata-se de uma recordação, geralmente infantil, com muita nitidez e pouco significado, que tem por finalidade ocultar ou encobrir outra lembrança, esta sim de importante significado, usualmente experiências e fantasias sexuais infantis ou outras representações de natureza traumática.

Freud desde o início de sua obra teve um especial interesse tanto pelas memórias infantis como pela amnésia infantil. Em 1899, em seu trabalho intitulado “Lembranças Encobridoras” faz um primeiro exame mais detalhado sobre esse tema, tendo como ilustração clínica uma passagem autobiográfica.  “Verificamos então que há duas forças psíquicas envolvidas na promoção desse tipo de lembranças. Uma dessas forças encara a importância da experiência como um motivo para procurar lembrá-la, enquanto a outra – uma resistência – tenta impedir que se manifeste qualquer preferência dessa ordem. Essas duas forças opostas não se anulam mutuamente, nem qualquer delas predomina (com ou sem perda para si própria) sobre a outra. Em vez disso, efetua-se uma conciliação... e a conciliação é a seguinte: o que é registrado como imagem mnêmica não é a experiência relevante em si – nesse aspecto prevalece a resistência; o que se registra é um outro elemento psíquico intimamente associado ao elemento passível de objeção... o resultado do conflito, portanto, é que , em vez da imagem mnêmica que seria justificada pelo evento original, produz-se uma outra, que foi até certo ponto associativamente deslocada da primeira. E já que os elementos da experiência que suscitaram objeção foram precisamente os elementos importantes, a lembrança substituta perde necessariamente esses elementos importantes e, por conseguinte, é muito provável que nos afigure como trivial” (Freud 1899, p.290).

O processo pelo qual ocorre essa recordação encobridora – conflito, recalcamento e substituição, tem no deslocamento o mecanismo de defesa predominante. Diferentemente do que vai enfatizar ao longo de sua obra, nesta época Freud ainda via a lembrança encobridora principalmente como uma lembrança anterior à experiência ou fantasia recalcada.

O desenvolvimento posterior desse conceito é feito no capítulo IV  do seu clássico trabalho “Sobre a  Psicopatologia da Vida Cotidiana’, dois anos mais tarde (1901). Neste estudo faz um paralelo entre as lembranças encobridoras e outros lapsos, em especial o esquecimento de nomes próprios, no intuito de trazer à tona as forças inconscientes que operam no sentido de evitar a consciência de determinados conteúdos mentais. Divide as lembranças encobridoras em três tipos: retroativas ou retrocedentes (como descrito em 1899), simultâneas ou contíguas (na qual a lembrança encobridora  vincula-se à impressão encoberta não só por seu conteúdo, mas também pela contiguidade temporal) e, por fim, as mais frequentes, as adiantadas ou avançadas, nas quais uma impressão indiferente se consolida na memória como lembrança encobridora de algo mais significativo que aconteceu num tempo anterior.

Levanta suspeitas a respeito da autenticidade das nossas primeiras lembranças da infância, que talvez tenham sofrido a influência de uma diversidade de forças psíquicas posteriores. “Portanto, as ‘lembranças da infância’ dos indivíduos adquirem universalmente o significado de ‘lembranças encobridoras’, e nisto oferecem uma notável analogia com as lembranças da infância dos povos, preservadas nas lendas e mitos” (Freud 1901, p.56)