"Luto"

por Maria Regina Limeira Ortiz


O luto é uma reação de afeto à perda de um ente querido, de alguém que se ama ou de algo que nos é considerado muito valioso. A perda implica em um processo de sofrimento e dor. Ao nos envolvermos afetivamente investimos energia, vitalidade, fazemos planos, projetos e acabamos nos ligando de modo a não imaginarmos nossa vida sem a presença real do que passa a ser tão importante para nós. Quando a morte nos pega de surpresa, nos deparamos de repente com um vazio enorme. Um espaço imposto sem que tenhamos tempo para nos prepararmos para tal perda. Onde antes havia algo ou alguém querido com que compartilhávamos nossa vida, de uma hora para outra, já nada existe.

A tristeza que é sentida faz parte do processo de luto. O mundo se torna desinteressante, pobre, vazio, parece que nada mais importa, pois o sofrimento se impõe e a falta se faz presente. Apesar desses sentimentos, no luto normal a autoestima de quem perdeu alguém ou algo importante encontra-se preservada. Essa dor  pode ser superada pela pessoa usando seus próprios recursos emocionais, mas o auxilio e presença de familiares e amigos é muito importante na superação da falta do objeto perdido.

Considerado dessa forma, imagina-se que após um período de tempo, o luto como um processo normal frente as perdas reais da vida é superado.

No processo de luto normal aos poucos a realidade se impõe e a pessoa vai retomando a sua vida, investindo seu afeto em novos objetos, em novas perspectivas, buscando melhores qualidades de vida.

A medida que o tempo vai passando, vai aprendendo a viver com a ausência do objeto perdido, irreversibilidade da morte, o lamento da perda, a dor e seu enfrentamento, a necessidade de romper os laços, reorganizar e prosseguir a vida. As perdas trazem consigo vivências de sofrimento mas também oportunidade de amadurecimento e mudança.

Mas, quando a tristeza é excessiva e a pessoa não consegue se desapegar,  se mantendo em estado de eterno sofrimento com queixas recorrentes, sejam elas psicossomáticas, choros, isolamentos, medos, uso abusivo de substâncias, álcool, estados melancólicos ou eufóricos, é momento de buscar ajuda especializada.

A possibilidade de falar a respeito do sofrimento e dos sentimentos experimentados frente à morte auxilia no alívio das angústias. Muitas vezes são vivências muito perturbadoras que trazem em sua origem lembranças de pesar de outros momentos da vida da pessoa. Nesse momento de dor podem ser reeditadas situações não compreendidas e não resolvidas que agora se fazem presentes. O importante é estar atento a evolução do processo de luto e reconhecer quando for necessário buscar ajuda para que essa dor não se transforme em um quadro com complicações mais graves.

Em Psicanálise encontramos um trabalho muito interessante escrito por Freud intitulado “Luto e Melancolia” (1917[1915]) que procura justamente diferenciar o processo do luto normal do estado de melancolia, onde não há necessariamente a perda real de um objeto.