"Melancolia"

por Katia Wagner Radke


Freud e Abraham, assim como outros autores psicanalíticos, discorreram extensamente sobre o tema da melancolia.

A ênfase deste texto recairá, predominantemente, sobre o vértice metapsicológico abordado pelos dois autores citados.

Ambos referem-se à ligação entre melancolia e as fases mais primitivas do desenvolvimento emocional. Freud pontua ainda a importância do narcisismo e da instância psíquica que veio a denominar de superego para compreensão desta patologia.

Partem da correlação entre luto e melancolia para melhor entendermos o que se passa nesta última. Enquanto que no luto observa-se uma reação a alguma perda real que, espera-se, seja superada após certo período de tempo, na melancolia, geralmente, o que se encontra é uma reação a uma perda de natureza mais relacionada a um ideal e não a uma perda real. O objeto não necessariamente morreu, mas foi perdido, enquanto objeto de amor, por um desapontamento, ou por algo sentido fortemente como desconsideração, desferido por este objeto de amor.

Enquanto no luto o mundo externo se torna pobre e vazio, na melancolia é o próprio ego que se empobrece: o sujeito é acometido por um estado de ânimo profundamente doloroso, por uma suspensão do interesse pelo mundo externo, inibição geral e, sobretudo, por uma significativa diminuição da autoestima, revelada, na maioria das vezes, por insultos desferidos contra si mesmo, rebaixando-se perante outros, parecendo ter alguma satisfação em expor-se deste modo.

O desapontamento sofrido com o objeto de amor causa um importante "abalo" psíquico no sujeito. A consequência não é, como se esperaria em um processo rumo à resolução, a retirada de libido deste objeto e o deslocamento da mesma para outro objeto. Na melancolia a libido é deslocada para o próprio ego. Esta libido passa a ser usada para produzir uma identificação do ego com o objeto perdido; "a sombra do objeto recai sobre o ego". A partir de então, o ego passa a ser tomado e julgado pelo superego como se fosse um objeto: o objeto que fora perdido.

Deste modo, o conflito que fora entre o ego e a pessoa amada - que desapontou - transforma-se em um conflito entre o superego e o ego, agora modificado pela identificação, onde o primeiro ressalta seu desagrado moral com o ego.

A identificação narcísica com o objeto torna-se um substituto do investimento libidinal anteriormente depositado no objeto. E por que teria sido este o destino da libido?

Freud e Abraham atribuem, em grande parte, à forte ambivalência previamente existente, bem como a uma fraca aderência do investimento libidinal no objeto.

Deste modo, pode-se entender melhor que as auto recriminações do melancólico são, na verdade, recriminações dirigidas ao objeto amado perdido; as quais foram retiradas do objeto e desviadas para o próprio ego.