"Narcisismo"

por Eneida Iankilevich


Em um mito de tradição grega, Narciso, filho de um deus rio e de uma ninfa, apaixona-se pela própria imagem, morrendo em função disto. A repercussão deste tema no imaginário ocidental faz pensar que assinale um aspecto essencial da vida humana, o “amor a si mesmo”.

O termo derivado, ‘narcisismo’, foi utilizado por outros profissionais da saúde mental antes de Freud, em geral em relação à psicopatolgia da sexualidade humana. Foi utilizado por este autor pela primeira vez em 1910, para descrever um tipo de escolha objetal feita por homossexuais, que denominava “invertidos”, orientada pela busca de características próprias no parceiro. Freud considerou esta como uma maneira de “escolher a si mesmo como objeto sexual”. Seu trabalho sobre Leonardo da Vinci (1910) ilustra esta concepção.

A obra do fundador da psicanálise caracteriza-se por um constante questionar e fazer evoluir os conceitos teóricos a partir da prática clínica, o que torna ao mesmo tempo fascinante e difícil seu estudo. Um dos conceitos em que isto mais se evidencia é no de narcisismo, como o próprio Freud teria afirmado em uma carta a Abraham, segundo Jones (1979): “o narcisismo teve um parto difícil e traz todas as marcas da deformação correspondente”. Assim, a princípio aparecendo como um tipo de escolha de objeto, pouco depois é descrito como um estágio do desenvolvimento psicosexual normal da criança, intermediário entre o do auto-erotismo e aquele mais evoluído, do amor ao objeto reconhecido como um ‘outro’, separado do self.

É no artigo especifico sobre o tema, “Sobre o narcisismo: uma introdução”, de 1914, que passa a considerar narcisismo um conceito essencial no desenvolvimento sexual do ser humano, como fenômeno libidinal. Neste artigo, inspirado no estudo das psicoses, Freud descreve narcisismo primário e secundário. No primário, possível pela crença na onipotência do pensamento, o objeto de amor “escolhido” seria a própria pessoa e o mundo percebido como girando em torno de si mesmo. O narcisismo secundário seria a atitude resultante do retorno ao eu de investimento feito nos objetos do mundo externo. Seria secundário pela necessidade de ter acontecido um investimento da libido do eu em objetos do mundo externo e só então um retorno desta ao eu. Seriam momentos do desenvolvimento normal com risco de tornar-se patológicos, especialmente frente a situações traumáticas, podendo vir a constituir patologias estabelecidas.

Vários autores estudam e discutem esta complexa concepção. Melanie Klein e seus seguidores, por exemplo, não admitem a existência de um estado “anobjetal”, que seria uma das características do narcisismo primário. Falam, então, em “estados narcísicos”, opondo-se à noção freudiana de uma “fase” sem relações de objeto.

Outros autores, à luz dessas evoluções, e reconhecendo o narcisismo como aspecto inerente do desenvolvimento, estudam o fenômeno desde outros pontos de vista (“narcisismo libidinal e destrutivo”, para Rosenfeld, “narcisismo de vida e de morte”, em Green, para citar alguns).

Freud concebia as “patologias narcisistas”  como inabordáveis ao método analítico. Pela impossibilidade de investimento objetal, tais pacientes seriam incapazes de estabelecer uma relação transferencial, ficando impedido o tratamento psicanalítico. A evolução da teoria e da técnica têm modificado esta noção, e ampliado o alcance do método com resultados já reconhecidos.

O conceito de narcisismo, alvo de divergências teóricas importantes, tornou-se mais abrangente, estudado de vértices diferentes, mas segue aspecto essencial na busca de entendimento da constituição da psique humana.