"Neurose"

por Luiz Carlos Mabilde


O conceito de neurose aponta para algum tipo de sofrimento mental ou emocional, de leve a moderado, que pode ter diferentes expressões sintomáticas, tais como ansiedade, depressão, inquietude, irritabilidade, insegurança, medo, etc. Em adição, neurótico designa um tipo de pensamento, comportamento ou percepção, cuja apreensão da realidade se dá com uma leve deformação.
Estas são as características essenciais da neurose, que também ajudam para distinguir a neurose da psicose (loucura), já que nesta última o transtorno é grave e a deformação grosseira, maciça da realidade.
A palavra neurose resulta do grego neuron (nervo) + osis (doença), isto é, doença nervosa ou doença dos nervos.
O termo neurose foi cunhado pelo médico escocês William Cullen, ao descrever afecções nervosas, porém foi Freud quem lhe deu nova e revolucionária explicação e tratamento, por meio da sua recém-criada Psicanálise.
Com base na observação clínica, ao tratar pacientes neuróticos, Freud foi descobrindo distintos fatores que causavam as neuroses, revolucionando a comunidade científica da época, dado o ineditismo de suas teorias e a natureza essencialmente psíquica das mesmas.
Para ele, as neuroses são constituídas por três fatores intervenientes, formadores de séries complementares, que dispõem esses fatores, segundo a sua maior ou menor participação no resultado final da doença. Por exemplo: quanto maior for o trauma, menor será a pré-disposição e vice-versa:

1) Pré-condição ou Disposição: Corresponde a constituição do indivíduo, na qual a hereditariedade joga papel fundamental;
2) Causas Concorrentes ou Auxiliares: São todos os agentes banais ou circunstanciais, que funcionam como verdadeiros agentes desencadeadores de uma neurose, que permanecia oculta. São exemplos dessas causas: perturbações emocionais ocasionais, esgotamento físico, intoxicações, acidentes traumáticos, sobrecarga intelectual, etc.
3) Causas Específicas: Cada neurose tem uma causa especial, sendo a causa comum a vida pulsional do sujeito, quer por um distúrbio sexual e/ou agressivo contemporâneo, quer por fatos de sua vida passada.

Freud percebeu que esses fatos sexuais (e/ ou agressivos) referiam-se tanto a abusos sutis quanto grosseiros, assim como a seduções menos rápidas ou repulsivas ou mesmo a meras fantasias sexuais (e/ou agressivas), os quais – uma vez despertadas na tenra infância – tinham que ser reprimidas por serem consideradas completamente inadequadas.
Com a chegada da puberdade, qualquer fato novo – daí em diante - poderia ter o poder de despertar a lembrança reprimida, ocasião em que o efeito desta última supera o do próprio evento atual, causando a neurose.  
O tratamento analítico tem por objetivo rastrear a personalidade do paciente na busca dos conflitos inconscientes (reprimidos) que, uma vez não resolvidos, causaram os sintomas do paciente. Seu método inclui a análise da relação analista-paciente, dos sonhos e demais atos e fantasias inconscientes surgidas nas sessões.
Esse conjunto de medidas, aliadas a continuidade das sessões, é o que permite o profundo conhecimento da personalidade e sua resolução.