"Neurose obsessiva"

por Viviane Sprinz Mondrzak


A neurose obsessiva foi um dos primeiros quadros clínicos descritos por Freud, logo após a histeria e, a partir da observação dos sintomas obsessivos  pode estudar vários aspectos do funcionamento psíquico. Um de seus conhecidos casos clínicos, O Homem dos ratos, trata justamente deste tema.

A neurose obsessiva é  definida a partir da presença de determinados sintomas: distúrbios do pensamento, com ideias obsessivas, repetitivas, sentidas como corpos estranhos, que provocam sofrimento; e atos compulsivos (rituais como lavar as mãos repetidamente), sobre os quais a pessoa não tem controle e que procuram combater as ideias obsessivas. Estas ideias  corresponderiam a desejos/sentimentos inconscientes, não admitidos pela consciência mas que conseguem vencer a barreira da censura.

Estes sintomas são resultados de determinados mecanismos de defesa que o ego do indivíduo utiliza para fazer frente às ansiedades despertadas pelo conflito entre os desejos e o que a realidade impõe de restrições à sua satisfação. Os principais mecanismos defensivos utilizados são: isolamento (manter o afeto separado da ideia correspondente), racionalização (outra forma de manter os afetos afastados, procurando explicações intelectualizadas para tudo), anulação (crença mágica de que um determinado pensamento ou ato pode desfazer outro pensamento: p. ex. se lavo as mãos, “limpo pensamentos sujos”), formação reativa (transformar um sentimento no seu oposto, de forma exagerada: p. ex. pedir desculpas a todo  momento). Para Freud, corresponderiam a uma fixação na etapa anal do desenvolvimento da sexualidade infantil, onde as questões em torno do controle esfincteriano (como limpeza, autonomia, controle) estão num plano de destaque.

Como o próprio Freud se deu conta, estes mecanismos não eram  utilizados exclusivamente por pacientes com um quadro sintomático de neurose obsessiva, mas faziam parte do repertório de defesas de todos indivíduos, responsável, inclusive, por características importantes no funcionamento psíquico. Ordem, meticulosidade, persistência, estão entre estas características que, desde que não presentes de forma excessiva, são responsáveis pela capacidade de manter alguma disciplina, respeito e padrões éticos.

Os desenvolvimentos do pensamento psicanalítico cada vez mais levaram ao estudo da estrutura obsessiva, mais do que focar somente nos sintomas, estudando os traços de caráter obsessivos , que determinam uma forma geral de funcionamento destes indivíduos.

Assim, a ideia é reservar o termo neurose obsessiva para aqueles quadros onde os sintomas obsessivo-compulsivos estão presentes de forma marcante, trazendo sofrimento e limitações importantes.