"Objeto"

por Marli Bergel


O termo objeto é utilizado em psicanálise enquanto conceito ligado a uma relação de um sujeito com um outro, sendo que este outro recebe a designação de objeto.

Freud, ao pensar o indivíduo, o vê como alguém dotado de um corpo biológico que possui necessidades, sendo que estas, principalmente no início da vida, apenas podem ser atendidas através de uma ajuda alheia. Devido ao desamparo inicial, a presença de um outro, semelhante, é absolutamente necessária.

Na medida em que este semelhante, objeto externo, atende aos estímulos internos (pulsões), marcas mnêmicas vão se inscrevendo. Assim, o conceito de objeto está diretamente ligado ao de pulsões porque somente ele, no início da vida, é capaz de satisfazer as necessidades pulsionais, de ordem conservativa e sexual.

Gradualmente, a partir dos ritmos e das repetições de experiências nos intercâmbios com o objeto externo, este vai sendo construído dentro do sujeito. Falamos então em objeto interno, outro conceito caro à psicanálise. Representações de objeto criam-se dentro do indivíduo a partir do enlace das pulsões com o objeto.

Tanto a presença do objeto quanto a ausência são importantes na constituição do indivíduo. A presença se faz necessária para que marcas mnêmicas da relação com o mesmo se inscrevam. No entanto, a ausência também é fundamental para que se constitua um espaço de ausência, no qual se criam representações do objeto. Porém, esta ausência será estruturante na medida em que não ultrapassar certo limiar. Desta maneira as funções do objeto são interiorizadas e a capacidade de pensar se desenvolve.

Sendo assim, é num movimento dialético de presença/ausência do objeto que o indivíduo vai se constituindo. Sempre presente o objeto não possibilita o espaço de ausência necessário para a construção da estrutura psíquica. Num bom ritmo, se a mãe atende as necessidades de seu filho, gradualmente este poderá constituir-se enquanto sujeito separado, diferenciado do outro. A separação é tolerada na medida em que foi possível identificar-se com o investimento libidinal materno. Presença amorosa, cuidados, estímulo, segurança e proteção proporcionam à criança a sensação de ser amada, fundamental para sua auto-estima.

No entanto, a presença de um objeto apenas não basta na vida de uma criança para um desenvolvimento saudável. A entrada de um terceiro objeto entre uma mãe e seu filho é fundamental. Também por isso o espaço de ausência tem valor estruturante, pois é ele que possibilita a entrada do objeto paterno. Mesmo antes deste ser percebido como um terceiro, ele exerce seus efeitos através da mediação do psiquismo materno, na medida em que esta pode articular um laço indireto entre a criança e o pai, através de seu desejo pelo mesmo.

Portanto, é da interiorização da relação da criança com os seus objetos que estruturas psíquicas (Ego e Superego) vão se formando para compor o psiquismo do sujeito.