"Objeto Transicional"

por Joyce Goldstein


O aparecimento do Objeto Transicional, conceito criado e desenvolvido pelo psicanalista Donald Winnicott, está relacionado aos ritmos e tempos do vínculo mãe-bebê e representa um momento evolutivo estruturante. Para Winnicott, um bebê não é uma entidade autônoma e só poderá ser compreendido/amparado pela mãe e o ambiente que o rodeia.

Quando o ambiente numa comunicação profunda e sutil com o bebê, fornece plenamente o atendimento às necessidades deste, condição de Dependência Absoluta, o bebê vive a experiência ilusória de que criou um objeto adequado às suas necessidades. Para o bebê, os objetos advêm diretamente de suas necessidades, como se delas fossem criados e para os observadores há uma divergência entre o que foi criado e o que foi oferecido, mas a mãe-ambiente, por sua adaptação extremamente devotada às necessidades do bebê (mãe suficientemente boa), permite que ele tenha uma breve experiência de onipotência e ilusão - aquilo que ele cria existe realmente. A criança cria o seio, ele deve estar lá onde foi criado e onipotentemente a criança- é -o -seio. Por conseguinte, ainda não é capaz de reconhecer os limites do eu e não-eu, mundo interno e externo, subjetivo e objetivo, dentro e fora, percebido e criado.

Mais adiante, a mãe vai gradativamente retirando os cuidados quase que perfeitos, desiludindo seu bebê, condição de Dependência Relativa, a onipotência vai sendo dissolvida, a ilusão ainda não destruída e os objetos são vividos paradoxalmente como percebidos e criados ao mesmo tempo.

A criança inicia a transicionalidade, ou seja, ingressa no espaço transicional/potencial, assim chamado, por fazer parte do processo maturacional ligado à transição da dependência absoluta para a dependência relativa. Trata-se de uma área intermediária entre o subjetivo e o que é percebido objetivamente, onde a criança elege um objeto ao qual parece estar particularmente aderida: o Objeto Transicional.

A experiência de ilusão-desilusão levará à constituição do Objeto Transicional, cuja importância maior está no uso que a criança faz dele. O objeto transicional permite que o processo de transição/ separação seja tolerado, possibilitando ao bebê lidar com o vazio e suportar a presença de uma ausência.

Habitualmente é algo que a mãe coloca à disposição do bebê; travesseirinho, ponta do edredom, chupeta, ursinho de pelúcia, etc. É a primeira posse não-eu, o primeiro modo de relação com algo não-eu, achado e criado simultaneamente, cujo paradoxo não deve ser resolvido, muito menos perguntado à criança, se criou ou achou; deve ser tolerado. É de posse exclusiva da criança, é amado, conservado por um longo período de tempo e sobrevive aos ataques mutilatórios da própria criança. Adquire importância vital, os pais reconhecem e aceitam o valor do objeto.

O Objeto transicional ocupa o lugar da mãe, porém de modo algum a substitui totalmente. Existe um registro na criança, de que esse objeto a acompanha na ausência da mãe, mas não é a mãe. Sobre esta base se constrói o pensamento simbólico.

O objeto transicional vai perdendo gradativamente significação, não é objeto de luto e nem é reprimido. Simplesmente, se torna desnecessário, esquecido e substituído por espaços de criações humanas, desde as mais simples, até as culturais.