"Perversão"

por Manuel Pires dos Santos


Ao longo da historia humana, a perversão foi vista ora como uma conduta aceita ou tolerada em algumas culturas, enquanto em outras era rejeitada e demonizada. A arte desde cedo a expressou e poetas e pintores não cansaram de exaltá-la. Apenas no século XIX a perversão foi considerada digna de estudo pela ciência.  

Em Freud o termo perversão implica, de forma imediata, a referência a um desvio da norma de conduta comum da atividade sexual “normal”, aqui entendida como coito que visa à obtenção do orgasmo por penetração genital, com uma pessoa do sexo oposto. Assim, dizemos que há perversão quando o orgasmo é obtido com outros “objetos sexuais” (homossexualismo, pedofilia, bestialidade) ou por outras zonas corporais (coito anal, oral) e, ainda,  quando o orgasmo é subordinado, de forma imperiosa, a certas condições específicas (fetichismo, transvestismo, escoptofilia, exibicionismo, sado-masoquismo). Temos a perversão, então, referida sempre à pulsão sexual, especificamente. Freud,  falando das pulsões de autoconservação, não chama de perversão os seus desvios (como nas perturbações da nutrição, por exemplo), mantendo o termo apenas no âmbito da pulsão sexual. Reconhece, porém, uma ação da sexualidade (libidinização) nas funções alteradas das pulsões de autoconservação.

Por outro lado, afirma que a função sexual madura está ausente na criança, surgindo apenas na puberdade. Ora, a observação do comportamento do perverso, bem como as fantasias perversas no neurótico, e ainda aquelas integradas no ato sexual normal como “prazer preliminar”, levam à idéia de que a perversão não é algo raro ou singular, mas uma parte da constituição normal dos indivíduos, confirmando a existência, portanto, de uma sexualidade infantil imatura. Tal sexualidade está manifesta inicialmente nas pulsões parciais (ou seja, pulsões ligadas às zonas erógenas, presentes no corpo da criança, que buscam a satisfação independentemente umas das outras). A isso Freud denominou “disposição perversa polimorfa”. O que leva à conclusão que a perversão do adulto nada mais é que o retorno ou a persistência de um componente parcial e primitivo da sexualidade. Ou, dito de outro modo, é uma regressão a uma fixação da libido. Posteriormente, Freud é levado à idéia de uma evolução na escolha de objeto, acrescentando outro dado: a perversão, além de ser uma fixação numa fase anterior do desenvolvimento da libido, implica também numa fixação num tipo de escolha de objeto.

O desenvolvimento pós-freudiano da psicanálise acrescentou outros elementos resultantes do estudo das perversões. Lacan retira a perversão do âmbito da pulsão libidinal, colocando-a como uma estrutura psíquica independente,  com a concordância de vários autores. Já para Melanie Klein, a perversão é um distúrbio ligado à pulsão de morte, de natureza esquizóide, psicótica portanto, num ataque tanto ao objeto quanto ao sujeito. Por outro lado, a ênfase atual na compreensão mais aprofundada do que se estabelece na relação paciente-analista levou à percepção da presença, em alguns tratamentos, de relações perversas que se estabelecem na dupla terapêutica, independente da presença ou ausência da perversão.