"Preocupação materna primária"

por Maristela Priotto Wenzel 


Preocupação materna primária (1956)

 

Donald Winnicott, pediatra e psicanalista, desenvolveu uma teoria e técnica em importante escala com conceitos que muito contribuíram para o estudo da psicanálise, com ênfase na importância das relações primitivas mãe-bebê.

O conceito de preocupação materna primaria é apresentado por Winnicott, de acordo com a teoria e técnica desenvolvida por ele.

Esse conceito se caracteriza por um estado verdadeiro de fusão emocional da mãe com o seu bebê. Ela é o bebê e o bebê é ela.

O psicanalista ressalta que esse estado de sensibilidade se desenvolve gradualmente, aumentando durante a gravidez, em especial, ao final dela. Bem como, continua por algumas semanas após o nascimento do bebê.

Winnicott ressalta, entretanto, que esse estagio de preocupação materna primaria, se não fosse pela gravidez, seria uma “doença” e diz ser necessário que a mulher seja emocionalmente saudável para poder emergir desse estado de “doença normal”.

A mãe que desenvolve esse estado de preocupação materna primaria fornece um setting, isto é, um espaço seguro para que o bebê possa desenvolver-se, revelando suas tendencias, experimentando e descobrindo o seu ambiente com espontaneidade, nesse “setting” gerado pela mãe.

O ambiente facilitador oferece ao bebê a possibilidade de continuidade de ser - ser um personagem.

Winnicot introduz a expressão “devotada” que se traduz por uma mãe sensível que percebe as necessidades do bebê, pois ele não pode existir sozinho, necessita da presença de alguém numa relação inicial, de “dependência absoluta”, para ser capaz de seguir sua marcha de crescimento.

Julio de Mello Filho refere que a questão da ritimicidade é presente em quase toda a obra de Winnicott e que esta ritimicidade se relaciona diretamente aos fenômenos transacionais. A transicionalidade é um ritmo de vai e vem entre o bebê e a mãe. Os períodos de sucção durante a amamentação são experiências de ritmo. O contato olho a olho tem um papel importantíssimo no vínculo que une a mãe e o bebê. Assim como a mãe é organizadora do setting, onde se inclui o ritmo, promove o que Winnicott chamou de “mutualidade". Entretanto, ele ressalta que muitas mulheres não conseguem vivenciar a preocupação materna primária, isto é, contrair essa "doença normal". Winnicott assinala como: forte identificação masculina - preocupações alternativas muito grandes, que não abandonam prontamente. Mães que se preocupam excessivamente com seu filho, tornando-se o bebê sua preocupação patológica. O resultado de todo esse arsenal de movimentos emocionais resultam que estas mães tem dificuldades de se separar de seus filhos por tentar compensar o que ficou perdido. Os fracassos desta primeira fase leva o bebê a se sentir “enredado” por mecanismos de defesas primitivos dando lugar a um falso self. Por esta razão, disse Winnicott, o bebê precisa existir num ambiente com prazeres rítmicos "acalentadores", que forneça a possibilidade de conduzir uma constituição psíquica rumo a um verdadeiro self.

Para finalizar, cito o que Clare Winnicott respondeu ao perguntarem a ela como era trabalhar com Winnicott. “Era estar numa situação de completa reciprocidade, em que dar e receber não se distinguiam, em que papéis e responsabilidades eram pontos pacíficos e jamais disputados”.

          

Bibliografia:

Textos Selecionados da Pediatria a Psicanálise.               

D.W.Winnicott - O Ser e o Viver uma visão da obra de Winnicott.                   

Júlio de Mello Filho - Artes Médicas - 1989