"Psicanálise Aplicada"

por Alice Becker Lewkowicz


Freud escreveu, a propósito de A interpretação dos sonhos (1900) e de um outro livro, Os chistes e sua relação com o inconsciente (1905), que essas duas obras mostraram desde logo que os ensinamentos da psicanálise não podem restringir-se ao campo médico, mas são suscetíveis de se aplicar a outras diferentes ciências do espírito. Era realmente este o objetivo essencial: libertar-se da tutela médica, escapar ao simples registro do procedimento terapêutico, para não ficar reduzido a servir à psiquiatria.

 Em mais de uma ocasião, Freud fez questão de dar a esse objetivo legitimidade teórica, lembrando, sobretudo na trigésima quarta das Novas Conferências Introdutórias Sobre Psicanálise (1933), que, depois de compreender o alcance da psicanálise como“psicologia das profundezas”, ele fora levado a admitir que, na medida em que nada daquilo em que os homens crêem ou que executam é compreensível sem o concurso da psicologia, daí deviam “resultar espontaneamente aplicações da psicanálise a numerosos campos do saber, em particular aos das ciências do espírito, aplicações estas que se impunham e exigiam serem elaboradas. A ambivalência freudiana a respeito da psicanálise aplicada refletiu-se tanto nas contribuições do próprio Freud, quanto nas reações contrastantes que esse campo tem despertado na comunidade psicanalítica. Em todos os seus trabalhos considerados da esfera da psicanálise aplicada, com efeito, podemos constatar a existência de um segundo objetivo, este puramente teórico, que na maioria das vezes vem substituir a aplicação pura e simples. Hoje em dia, a psicanálise aplicada é objeto de julgamentos particularmente contrastantes.

Correntemente utilizada no mundo anglófono— autores tão diferentes quanto Ernest Jones e Peter Gay classificam, ambos, uma parcela importante das obras de Freud com o rótulo de psicanálise aplicada, sem que isso provoque o menor debate.

Por outro lado, a expressão “psicanálise aplicada” é alvo, na comunidade psicanalítica francesa, de uma rejeição particularmente violenta. (Roudinesco, 1998, p. 605 a 608).

Analistas pós–freudianos como Renato Mezan (1985), Fabio Herrmann (2001) e Jean Laplanche (1987) concordam que o termo “aplicação” da psicanálise criaria uma compreensão equivocada no sentido de que a Psicanálise seria um conhecimento pronto e acabado, podendo assim ser meramente “aplicado” a outras áreas do conhecimento (apud Kobori, 2013).

A utilização do termo psicanálise aplicada poderia gerar uma conotação de transposição de um saber/teoria acabado, oriundo da clínica, para fenômenos além do escopo da clínica, como cultura e sociedade.

Esta condição do já sabido nega os pressupostos metodológicos da psicanálise como ciência, quais sejam: sua proposta de construção de conhecimento no seu aspecto de privilegiar o não saber, a descoberta, o velado de onde surgirá algo novo.

Em função deste argumento, Fabio Herrmann propôs a expressão clínica extendida e Jean Laplanche psicanálise extramuros. No Congresso da FEPAL de 2016, em Cartagena, foi cunhada uma expressão que consideramos que pode nos auxiliar a diferenciar o método analítico vinculado à clínica daquele vinculado ao trabalho em outras áreas do conhecimento: psicanálise a céu aberto.

Neste sentido estaríamos ampliando os espaços onde o método poderia ser usado dando uma conotação de maior liberdade quanto ao alcance de suas possibilidades.

Outro termo que tem sido utilizado pela vertente Lacaniana da psicanálise é o de psicanálise implicada.

A articulação entre sujeito e enlaçamento social e político discute a relação entre psicanálise dita em extensão ou psicanálise aplicada fora da clínica, dado que se beneficia também das contribuições dos autores da sociologia e da política.

Assim, essa prática não é entendida tanto como psicanálise aplicada, mas como psicanálise implicada, ou seja, aquela constituída pela escuta dos sujeitos situados precariamente no campo social (Rosa,2012).