"Psicanálise de crianças e adolescentes "

por Rui de Mesquita Annes


Freud fundou a psicanálise trabalhando com adultos, mas descobriu que as primeiras causas do transtorno mental brotavam de fatores atuantes nas primeiras fases do desenvolvimento. Suas descobertas e conclusões sobre a sexualidade infantil - negada até então – estariam implicadas na causação da neurose do adulto. Esta observação provocou grande reação da sociedade vienense da época e precisava ser provada. Assim, Freud estimulou membros de seu grupo a falar das observações sobre seus próprios filhos, quando surgiu a oportunidade de analisar um menino de cinco anos com sintomas de fobia. Nessa análise, o pai de Herbert, o "pequeno Hans", observava e registrava fatos e comentários do filho, cabendo a Freud revelar o sentido que seria transmitido ao menino. Freud seguiu os princípios da técnica analítica da época, interpretando à criança seus desejos edípicos e sua angústia de castração. Este caso rendeu, em 1909, a publicação do trabalho clínico "Análise da fobia de um menino de cinco anos", assim confirmando sua teoria da sexualidade e a aplicabilidade da análise às crianças.

No artigo de 1909, Freud afirmou sua crença de que a análise de Hans só fora possível devido à confluência pai-analista, propondo modificações na técnica utilizada com o adulto por considerar, dentre outros aspectos, que a associação livre não tinha razão de ser pelo fato de a criança não possuir superego.

Hermine Von Hug-Hellmuth, primeira analista depois de Freud a aplicar a análise infantil, divergia da ideia da necessidade da criança explicitar os impulsos inconscientes, mas de expressá-los em atos simbólicos, introduzindo o uso de jogos e brinquedos como modalidade de acesso ao mundo infantil.

Após sua morte, em 1924, levantaram-se as duas correntes da psicanálise de criança, representadas por Anna Freud e Melanie Klein, persistindo um debate entre elas em torno do que é a “verdadeira psicanálise”, sendo que um dos fatores de discordância era a descrença de Anna Freud quanto à possibilidade de a criança estabelecer uma transferência, aspecto este defendido por Klein e que permanece até hoje.

A medida que o conhecimento foi se ampliando, os teóricos privilegiaram aspectos que estavam em acordo com o modo como concebiam a psicanálise e a respectiva influência em sua prática: a interpretação transferencial da fantasia inconsciente, atribuindo ao brincar a equivalência da associação livre (Melanie Klein); a influência dos aspectos educativos oriundos do conhecimento psicanalítico (Anna Freud); a importância fundamental do vínculo com a mãe na formação da mente na criança (John Bowlby); a importância da participação do ambiente na constituição do indivíduo e a proposição do brincar compartilhado como atividade autônoma de produção de sentido (Donald Winnicott).

É senso comum que a compreensão do significado do desenho, jogos e, principalmente, do brincar é um poderoso método de acesso ao mundo interno infantil.

Em relação à psicanálise de adolescentes, até algumas décadas atrás, era considerada tarefa árdua atender psicanaliticamente o adolescente, pois se lhe aplicava um modelo adulto. A busca do conhecimento de cada etapa da adolescência, com suas características próprias, permitiu uma abordagem correspondente.