"Reverie"

por Paulo Oscar Teitelbaum


Reverie – [fr. rêverie; ing. daydream; port. devaneio] Conceito introduzido na psicanálise por Wilfred Bion, designa um “estado de sonho” da mente (do francês rêve = sonho), presente tanto no sono como na vigília.

Refere-se especificamente a um estado mental da mãe, estreitamente relacionado à função α, capaz de receber e acolher as impressões sensoriais e emocionais de seu bebê. Em outras palavras, é a capacidade da mãe de fazer identificações introjetivas com as identificações projetivas do bebê, processá-las mentalmente (com sua função α), dando-lhes algum significado, o qual pode, então, ser transmitido ao bebê permitindo a reintrojeção dos conteúdos agora modificados (“desintoxicados”), numa forma que seu aparelho mental ainda imaturo pode assimilar.

O protótipo das emoções que o bebê não é capaz de processar mentalmente seriam as inevitáveis frustrações na relação inicial com o seio, que desencadeariam vivências aterrorizantes de morte iminente, as quais ele não pode compreender. A capacidade de reverie permite que a mãe compreenda (em um registro muito mais emocional do que sensorial) e acolha tais angústias, transformando assim uma angústia intolerável em um medo tolerável.

O conceito de reverie é parte fundamental da teoria do pensamento desenvolvida por Bion. Para ele, qualquer experiência emocional ou sensorial não é passível de ser pensada, consciente ou inconscientemente, se não for primeiramente transformada em representações (elementos α) pelo trabalho da função alfa. Através da reverie, a mãe coloca sua própria função alfa a serviço da função alfa ainda incipiente do bebê, permitindo desta forma, que a experiência emocional deste se torne pensável. A repetição destas situações promove a introjeção de um objeto (mãe) receptivo, capaz de acolher, tolerar e significar, objeto com o qual o bebê se identifica e, à medida que sua própria experiência emocional se torne pensável, pode começar a desenvolver sua própria capacidade de pensar sobre seus estados mentais.

No contexto do tratamento psicanalítico, Bion designa o estado de sonho, de reverie, como o estado mental desejável do analista quando trabalhando com seu paciente (ampliando assim o conceito de atenção flutuante proposto por Freud), introduzindo a conhecida expressão: trabalhar sem memória e sem desejo.

Bion propõe que o analista, à imagem da dupla mãe-bebê, ao manter a mente operando em um registro mais emocional do que sensorial, permeável às suas próprias fantasias, emoções, devaneios e pensamentos durante a sessão, possa estar receptivo às identificações projetivas de seu paciente, permitindo que sua função α produza representações mentais que levem a novas compreensões e/ou significados para o material trazido pelo paciente, promovendo a expansão da mente e o crescimento mental. Tais representações mentais podem se expressar no analista como registros sensoriais (imagens visuais, sons, cheiros, etc.) com diferentes graus de organização: desde de simples flashes indistintos até sequências imaginativas mais longas e organizadas. A validade destas representações mentais produzidas no analista, como sendo originadas em identificações projetivas do analisando, no entanto, deve ser constatada pela observação da sequência da interação comunicativa do par analítico.