"Setting (enquadre, marco, moldura)"

por Sergio Lewkowicz


O setting constitui o conjunto de fatores constantes necessários para que o tratamento analítico possa transcorrer da melhor maneira possível.  Embora exista tradução para o termo setting em português, como enquadre, marco ou moldura, o uso da expressão em inglês ficou consagrada tanto no Brasil, como internacionalmente.

O setting configura a combinação de regras necessárias para que se estabeleça um processo de tratamento, o processo analítico que terá um efeito terapêutico. O setting seria equivalente aos trilhos que sustentam a passagem do trem do processo analítico (Bleger, 1967).

Esses fatores constantes foram propostos por Freud em seus artigos sobre técnica de 1912 e 1913 e desenvolvidos pelos analistas posteriores. Freud buscava através de sua experiência pessoal transmitir aos analistas as características que poderiam ser mais favoráveis para o desenvolvimento do tratamento analítico (Freud, 1912).

Nesse sentido, o setting além de proporcionar uma posição técnica também proporciona uma posição ética aos analistas.
A maioria das regras do setting é formulada durante o contrato que é feito logo no início do tratamento analítico.

Existem normas fixas que são baseadas na teoria psicanalítica e que devem ser utilizadas por todos os analistas para favorecer o processo analítico, tais como a duração das sessões, o uso do divã, o horário fixado, os honorários do analista, as férias e demais combinações importantes ao tratamento. São normas que visam estimular o desenvolvimento de um campo transferencial/contratransferencial, uma característica essencial da relação entre paciente e analista para o tratamento analítico.

No entanto, essas normas fixas serão influenciadas pelas peculiaridades de cada cultura onde está inserida aquela dupla paciente/analista. Como também pelas características pessoais de cada analista, tais como seu consultório, sua formação pessoal, seus valores e preconceitos, etc.

Meltzer (1986) ainda considera como fundamental no setting o que denomina de “uma atitude mental do analista” que vai se manifestar através da neutralidade, abstinência e anonimato do analista, como salientado por Pechansky (2015).

Bleger (1967) talvez o autor latino-americano que mais tenha se dedicado ao tema do setting, nos alerta para a situação de estabilidade e silêncio do enquadre. No entanto, as rupturas ao setting são inevitáveis, o paciente ou o analista adoecem por exemplo. Às vezes surgem atrasos ou imprevistos. São momentos que são muito úteis para o tratamento, pois favorecem o surgimento de material novo e rico. Bleger se preocupa quando isso não ocorre, com longos tratamentos em que o setting não se modifica nunca e acredita que isso ocorre em situações bem graves, de natureza psicótica.

Melanie Klein (1932) também apresentou uma contribuição de extrema importância ao tema do enquadre, quando adaptou o setting para a análise de crianças, utilizando o brinquedo no tratamento psicanalítico usado na infância.

Finalmente cabe mencionar que vários autores descrevem um “setting interno” do analista equivalente à atitude analítica descrita por Meltzer, o que permitiria a prática da psicanálise em situações de realidade externa distinta do consultório como em pacientes hospitalizados por exemplo.