"Simbolização"

por Ruggero Levy


O termo símbolo origina-se da definição grega de symbolon, que consistia num objeto cortado em duas partes portado por duas pessoas pertencentes a uma mesma seita que se separavam e que constituía-se num signo de reconhecimento no momento em que seus portadores se reencontravam e podiam reunir os pedaços. O symbolon denotava a ligação entre aqueles dois sujeitos. De modo mais geral podemos dizer que um símbolo é aquilo que liga dois elementos. Por exemplo, a representação simbólica de uma cadeira em um papel liga, vincula, a cadeira, objeto real, e a imagem mental que temos de uma cadeira. Assim como a palavra "cadeira" é a representação simbólica que une a cadeira, objeto real, e a imagem perceptiva que temos de uma cadeira. 

Inicialmente, a psicanálise através de Sigmund Freud, seu criador, reservava o termo símbolo apenas para aqueles elementos que possuíam um significado universal, não individual, compartilhados em uma determinada cultura ou em várias, fazendo com que seu aparecimento em um sonho, por exemplo, já poderia conduzir a uma interpretação direta. Como a psicanálise interessava-se em estudar as representações simbólicas pessoais, únicas a um determinado indivíduo, Freud preferiu designa-las representações e conceituou várias delas.

Posteriormente, a psicanálise passou a utilizar novamente o termo símbolo para referir-se às representações simbólicas criadas pelo próprio sujeito em função de suas experiências de vida e não apenas reserva-lo para os símbolos universais. E mais do que isso, a psicanálise passou a interessar-se pelo processo de criação dos símbolos, como ele ocorre e o que se passa no funcionamento mental quando há falhas no mesmo. Podemos ampliar mais e dizer que a psicanálise contemporânea tem se interessado pela maneira como produzimos os pensamentos (que são constituídos de símbolos) e como os utilizamos, ou seja, interssa-se mais em como pensamos do que apenas com o que pensamos.

Assim, podemos dizer que o ser humano se caracteriza pela capacidade de criar uma rede de símbolos que retratam suas experiências ao longo de sua vida e que constituem o que chamamos de psiquismo. O psiquismo é constituído de símbolos, se não os produzíssemos, não existiria o psiquismo humano, a subjetividade humana. Este processo de criação de símbolos que são idiossincráticos, individuais e únicos de cada ser humano é o que chamamos de simbolização. Esta trama simbólica criada pelo indivíduo constitui seus pensamentos conscientes e inconscientes e é o que costumamos chamar de psiquismo humano. Os símbolos, chamados de representações em algumas correntes psicanalíticas, retratam as experiências do sujeito com o mundo externo e também os estímulos sensoriais e sensações provenientes de seu interior.

O processo de formação de símbolos constituintes do psiquismo é tão essencial e característico do Homem que o famoso filósofo Ernest Cassirer (1944) dizia que não deveríamos chamá-lo de animale rationale, mas sim de animale symbolicum.