"Sonho"

por Flávio de Oliveira e Souza


Do ponto de vista psicanalítico, o sonho (no alemão Traum) é um fenômeno psíquico que ocorre durante o sono, constituindo-se de imagens e representações cujo aparecimento e ordenação fogem ao controle do sonhador. O afrouxamento das censuras ordinárias da vida de vigília durante o sono torna viável a emergência de conteúdos reprimidos do inconsciente que aparecem ocultados na trama onírica. Segundo Freud, os sonhos se constituem na realização alucinatória de desejos reprimidos, mesmo que isso não seja tão óbvio à primeira vista. Foi no livro “A Interpretação do Sonhos” de 1900 que Freud nos apresenta um modelo onde, pela primeira vez, o trabalho com os sonhos não é visto como referência a fenômenos externos ao sonhador (como previsões, visões, influências metafísicas ou mitológicas) mas como método de interpretação onde, através de associações, o sonhador poderia alcançar conteúdos inconscientes normalmente inacessíveis. O sonho se eleva assim à “via régia ao inconsciente” e uma operação psíquica própria do sonhador. Primariamente, o sonho se forma através de uma elaboração movida por excitações psíquicas que buscam expressão e conexões associativas principalmente através de pictogramas (imagens mentais). Para Freud, o sonho também é o guardião do sono, pois protege o indivíduo que sonha da irrupção das pulsões do id. Os sonhos lembrados e relatados afastam-se de seu conteúdo original (latente) através de uma elaboração secundária. Esta se encontra na transição entre o sonho original sonhado (estado bruto) e sua remodelação em uma narrativa coerente e com sentido, onde os restos diurnos (experiências cotidianas) participam emprestando elementos “cênicos”. Assim, cria-se uma distância entre os significados inconscientes do sonho e aquele que é lembrado e relatado (conteúdo manifesto do sonho). As distorções promovidas pela censura, que busca afastar os pensamentos proibidos à consciência através da elaboração secundária, se dão principalmente por meio dos mecanismos de condensação (um elemento contém vários sentidos, superposição), deslocamento (um cão representando o pai, p.ex.) e simbolização (metáfora e metonímia). A obra “A Interpretação dos Sonhos” vai muito além do exame dos sonhos, nos apresentando uma nova teoria do aparelho psíquico que inaugura a própria psicanálise. Adiante dos conceitos básicos de Freud sobre os sonhos, o tema evoluiu de modo complexo nos últimos 100 anos. Para citar dois autores clássicos, Klein, para além da teoria pulsional, colocou a ênfase na expressão das fantasias inconscientes relacionadas com objetos internos. Bion, por sua vez, soma às concepções anteriores seu acento no sonho como forma de pensamento simbólico, abrindo a importante discussão sobre os pensamentos não simbólicos, sonhos evacuatórios, debates contemporâneos sobre o irrepresentável e novas formas de abordagem terapêutica dos sonhos. Seguindo-se nesta linha, numa visão mais contemporânea, acrescenta-se às ideias clássicas sobre o sonho a noção do sonhar como uma função de trabalho mental que transforma afetos e memórias em estrutura mental. Ou seja, sonhar compreende um processo de transformação e construção mental baseado em imagens pictóricas onde desenvolvem-se novos símbolos, ampliando a capacidade de pensar e significar novas experiências emocionais. Uma falha na capacidade onírica acarreta falha na formação de novas conexões e crescimento mental (saúde). Na prática psicanalítica contemporânea, fortemente influenciada pelos aspectos intersubjetivos, mente de analista e paciente promovem em conjunto uma interpretação de sonhos mais voltada ao desenvolvimento das capacidades simbólicas e de manejo dos afetos e pensamentos. Além do clássico modelo do “o quê” está sob a repressão a psicanálise se ocupa hoje em “como” a mente funciona e como a relação psicanalítica pode promover esta transformação da base simbólica através do trabalho com os sonhos.