"Sublimação"

por Paulo Berél Sukiennik


Desde a primeira menção na carta dirigida a Fliess (1896), até os trabalhos mais tardios de 1938, no “Esboço de Psicanálise”, encontramos ao largo de toda a obra de Freud referências, comparações com outros conceitos, descrições e definições sobre a sublimação.

Porque ocorre a sublimação, que tipo de energia carrega, qual sua origem, qual seu alcance? São questões que a obra de Freud nos leva a refletir e tentar organizar, uma vez que abrangem importantes e fundamentais conceitos psicanalíticos aos quais a sublimação se acha ligada.

Esse processo, na obra de Freud, relaciona-se com: o destino das pulsões; o desenvolvimento normal; com a identificação; a formação do caráter; um mecanismo de defesa; a repressão; a cultura e a criação; o tratamento analítico; o instinto de morte e a agressividade; o incesto e o complexo de Édipo; com perversão; e com outras questões ainda interrogadas.

Os processos sublimatórios integram normalmente o processo evolutivo do desenvolvimento, e as formações psíquicas, tais como o caráter e estruturas (ego, superego), devem sua origem a este mecanismo. A cultura encontra também sua gênese nesse destino pulsional. As pulsões sexuais que se sublimam são impulsos perversos, parciais, infantis, incestuosos ou componentes instintivos; há uma aparente contradição entre repressão e sublimação; ao ser usado defensivamente, tem certas vantagens sobre outros mecanismos de defesa; varia em cada indivíduo a capacidade sublimatória; no tratamento analítico a sublimação colabora com o seu êxito; é possível se imaginar a possibilidade de que o instinto de morte se sublime; além de outros aspectos.

Isso demonstra a complexidade e a importância desse conceito para a teoria psicanalítica, para a compreensão da obra de Freud, tornando imprescindível que alguns referenciais sejam apontados.

A relação com a energia libidinal, ponto de partida para Freud aprofundar-se sobre esse mecanismo, a partir dos “Três Ensaios” (1905), é um dos pontos mais fortes e consistentes sobre esse fenômeno e continua bastante atual. O reconhecimento da existência da pulsão de morte (1920) não parece ter modificado muito o sentido original do conceito ligado a energia primariamente sexual, e não destrutiva, contudo reforça a ideia de que as pulsões agressivas também podem ser sublimadas.

Se há uma condição pulsional favorável, com a correta transformação e predisposição de seus componentes libidinais, a pulsão sexual presta-se a ser deslocada para outras atividades, substituindo “seu objetivo imediato por outros desprovidos de caráter sexual e que possam ser mais altamente valorizados” (Freud,1910). A iniciação sexual que abandona seu fim de obter um prazer parcial ou reprodutivo, adota um outro. (Freud, 1916-1917).

Sendo assim, os impulsos sublimados se descarregam, drenados por uma trilha artificial, na medida que cessa o impulso original, uma vez que a respectiva energia é retirada e deslocada para um substituto, sem haver necessidade de contenção por uma contracatexia. As forças do ego incidem angularmente, não se opondo frontalmente aos impulsos originais, diferentemente da repressão (Fenichel, 1957).

Para Freud, a ideia central sobre a sublimação parece resumir-se a afirmação contida em “Sobre a Psicanálise” (1913ª), onde sustenta que: “O instinto sexual possui em alto grau a capacidade de ser desviado dos objetivos sexuais diretos e ser dirigido a metas, mais elevadas, que não são mais sexuais” (p. 268). 

O conceito de sublimação de Freud é continuamente repensado por alguns autores no intuito de delimitar, traduzir e entender esse conceito aparentemente simples e, no entanto, altamente complexo. Complexidade demonstrada pela amplitude de conceitos encerrados num só e que se relaciona com a maioria dos fenômenos descritos por ele em sua obra.

A sublimação é, antes de tudo, um mecanismo estruturador da psique do ser humano. Antes de funcionar como um mecanismo de defesa (o que por um lado não afasta a ideia de ser estruturante, tal como o é a repressão, “defesa” necessária para a possibilidade da existência), a sublimação age como uma das quatro vicissitudes a que devem passar as pulsões. Somos o que somos, também porque existe uma capacidade inata de retirar das pulsões a energia necessária para a construção social e individual. Cumpre-se assim um genial mecanismo onde o prazer é obtido através das atividades culturais, artísticas e outras, possibilitando com isto a harmonia do sistema.

Faz-se necessário ressaltar a importância do pensamento evolutivo de Freud, ao longo de mais de quarenta e três anos, desde o projeto até as últimas publicações, onde consagra uma linha de raciocínio que, embora aberta a novas ideias, manteve-se fiel ao seu pensamento original. Demonstrado-nos um dos mais belos exemplos do processo sublimatório ao longo de uma vida, disse “não duvidar de que sublimara seus instintos e fazia um trabalho cultural da mais alta categoria” (Gay, 1989).