"Suicídio"

por Manuel José Pires dos Santos


jame la lámpara un poco más /Déjame que duerma, nodriza, en paz

Y si llama él no le digas que estoy/ Dile que Alfonsina no vuelve

Y si llama él no le digas nunca que estoy/ Di que me he ido

                                                                             (Alfonsina y el mar)

                                              

Alfonsina Storni, poetisa suíço-argentina, matou-se aos 46 anos, afogando-se na praia de Mar del Plata, depois de lutar contra um câncer de mama e uma desilusão amorosa.

Albert Camus, escritor e filósofo, disse que

 “só existe um problema filosófico realmente sério: é o suicídio. Julgar se a vida vale ou não vale a pena ser vivida é responder à questão fundamental da filosofia. O resto vem depois”.

Camus debruça-se sobre o tema do suicídio a partir da filosofia. É fundamental, claro, saber se viver vale ou não a pena, mas não é apenas essa constatação que nos leva a agir no sentido de acabar com a vida ou preservá-la. O que nos leva a um questionamento desse tipo não é a lucidez: é a loucura.

Segundo algumas estatísticas, há um suicídio a cada 40 segundos no mundo (OMS) e possivelmente 30 suicídios por dia no Brasil; é a mais frequente causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos, sendo as doenças afetivas as principais responsáveis por isso, embora fatores sociais (como desemprego, fome, pobreza) sejam coadjuvantes frequentes.

A Psicanálise, como uma teoria psicológica por um lado e técnica terapêutica por outro, entende o suicídio como decorrência de doença psíquica. Na época de Freud a medicina já sabia que doenças mentais - principalmente a melancolia (denominação que descrevia boa parte do que hoje chamamos transtornos afetivos) - eram uma das causas mais comuns de suicídio. Freud, baseando-se em sua teoria da pulsão (no caso, na pulsão libidinal), buscou identificar as possíveis causas psíquicas de alguns tipos de melancolia. Observando a evidente semelhança entre o processo de luto (tristeza normal) e a melancolia (tristeza patológica), Freud apontou haver em ambas a reação a uma perda afetiva (perda de objeto). A perda no luto era consciente, a perda na melancolia, inconsciente. No luto, a realidade externa empobrecia, na melancolia o ego do indivíduo empobrecia. Auto-acusações graves ocorriam na melancolia, o que poderia levar ao suicídio, mas tal não acontecia no luto. Freud entendeu que as auto-acusações da melancolia eram, no fundo, dirigidas ao objeto que fora perdido. O ego do sujeito se identificara com o objeto ao invés de substituí-lo pós-perda (identificar-se é tornar-se como). Daí que as auto-críticas do ego eram, no fundo, dirigidas ao objeto dentro do ego. Portanto, o suicídio seria um ataque ao objeto, não ao ego. O sujeito mata-se tentando atingir o outro dentro dele.

Depois de Freud, Melanie Klein, partindo do estudo da ação da pulsão destrutiva nas relações objetais, concordou com Freud quanto ao fato de que o suicida busca atacar o objeto introjetado dentro do ego. Mas esse ataque seria feito contra o mau objeto apenas - Freud não distinguia bom e mau objetos - e tinha por objetivo proteger o objeto bom e a parte boa do ego, identificada com esse objeto bom. Então, tanto Klein (no modelo das relações de objeto) quanto  Freud (no modelo pulsional libidinal) entenderam o suicídio como uma tentativa de salvação do ego e não de seu aniquilamento, embora o resultado final seja sua morte.