"Superego"

por   Ida Ioschpe Gus


 

A noção de superego foi introduzida por Freud em “O ego e o id” (1923) ao desenvolver a teoria estrutural ou Segunda Tópica, cuja constituição do aparelho psíquico descrevia as relações dependentes entre três instância: id, ego e superego. Esta terceira instância inclui a função de consciência moral compatível a de um juiz ou censor, que observa e avalia o ego com base num complexo de ideais e valores, comparando-o com um modelo ideal internalizado, ora podendo criticar, censurar e punir, através de afetos penosos como os sentimentos de culpa e remorso, como pode elogiar e recompensar o ego, elevando sua autoestima.

Já desde 1914/15, a teoria freudiana descrevia estruturas parciais: o ideal de ego e uma instância crítica, que viviam fazer parte deste conceito mais amplo, que encarna a lei e proíbe a transgressão.

Como o ego, também o superego tem suas raízes nas identificações que substituem os objetos investidos pelo id, especialmente as primeiras identificações ocorridas quando o ego era ainda frágil, constituindo-se como herdeiro do complexo de Édipo. Posteriormente, contribuições sociais e culturais via educação, religião, moralidade vigentes na organização da sociedade enriqueceram sua composição. Mas, o superego não é um mero resíduo das primeiras escolhas objetais do id, representa também uma enérgica formação reativa contra tais escolhas, uma vez que o ideal do ego é responsável por tudo que é esperado da natureza mais elevada do homem. Assim, o id é totalmente amoral, o ego se esforça por ser moral e o superego é supermoral.

Freud destaca que tal instância não se forma a imagem dos pais, senão como a imagem do superego destes, de modo que ao introjetar os mesmos conteúdos, converte-se no representante da tradição e dos juízos de valor que persistem através das gerações.

Muitos autores insistem que a interiorização das proibições é muito anterior à declinação do complexo de Édipo, concordando com Ferenczi (1925) que exemplificou com a educação esfincteriana. Por esta razão, alguns passaram a sustentar a ideia de um superego precoce (Klein) ou de fases pré-edípicas precursoras do superego (Reich, 1954; Jacobson, 1964).

O trabalho com crianças sugere que elas internalizam as expectativas dos pais precocemente e cedo as transformam em auto expectativas, sofrendo autocrítica caso infrinjam os padrões ideais. O complexo de Édipo, contudo, proporciona a integração dos estágios iniciais. A criança começa a temer a perda do amor e aprovação do superego mais do que teme perder o amor dos pais. Com o tempo, as funções do superego tornam-se mais impessoais e alcançam uma autonomia maior dos objetos externos, estabelecendo-se considerável consistência.