"Ternura"

por Regina Pereira Klarmann


Ternura: A palavra em alemão Zärtlichkeit traduzida, a partir da segunda edição, de 1989, foi atualizada. O que antes era traduzido por afeição passou a ser traduzido por ternura. Antes de definir a palavra ternura, no vocabulário de Laplanche e Pontalis (1976), os autores fazem referências à palavra ternura em outras línguas. No francês, utilizam tendresse; em inglês, tenderness; nas demais línguas, a tradução para o português é ternura.

Laplanche e Pontalis (1976) explicam a ternura para Freud, segundo a primeira teoria das pulsões: Em oposição à sensualidade, ternura indica uma atitude para com outrem que reproduz o primeiro modelo de relação amorosa da criança, em que o prazer sexual não é encontrado independentemente, porém sempre apoiado na satisfação das pulsões de autoconservação. Laplanche (2015) revela que a ternura seria o agarramento, a necessidade de contato, o aninhamento, além da busca por calor que estão incluídos nas relações iniciais entre mãe e bebê.

Freud (1905, 1940) destaca o valor da amamentação no seio materno e na mamadeira, servindo como modelo para todos os relacionamentos amorosos. Relaciona a importância para a capacidade de ternura da mãe ao alimentar seu bebê, com os sentimentos de ternura. Indica este vínculo como uma condição importante para a preparação da escolha de objeto. “O encontro com o objeto é, na verdade, um reencontro” (p. 209).   

Entendo que a mãe com condições de libidinizar seu bebê, com cuidado materno terno, estará oferecendo-se como modelo de ternura e, assim, propiciando condições para ele introjetar tais sentimentos. Essa dinâmica aponta para a importância da mãe reconhecer a alteridade do filho, no decorrer do processo de seu desenvolvimento. Quando a mãe ensina seu filho a amar, está somente cumprindo sua tarefa.

Freud (1921) pensa que há uma completa fusão de sentimentos ternos e ciumentos e de intenções sexuais, mostrando-nos de que maneira a criança faz da pessoa que ama o objeto de todas as suas tendências sexuais, ainda não centradas.  A pessoa amada é objeto das aspirações sexuais e, quando as duas correntes se unem, há uma confluência de afetos. Há a renúncia da configuração amorosa edípica do sujeito, e as aspirações sexuais ficam recalcadas restando, em relação aos primeiros objetos, laços de ternura. Quando a resolução do complexo de Édipo está a contento, a ternura passa a ser o sentimento que o filho tem pelos pais, e esse sentimento apoia a escolha de objeto, que começa a se dar nesse período. A pulsão sexual não é despertada apenas pela excitação da zona genital; aquilo a que chamamos ternura um dia exercerá seus efeitos, infalivelmente, também sobre as zonas genitais.

Green (1988), também explica a ternura. A partir da resolução edípica, a ternura e a hostilidade se confrontam. Porém, há uma relativa independência entre as relações de ternura e de hostilidade e a organização fálica, sob a égide na qual o Édipo se coloca.  Ao concluir, de forma satisfatória, a etapa edípica, a relação de ternura pelo progenitor surgirá ligada à relação de sensualidade, censurada pela ameaça de castração.