"Trauma Psíquico"

por Edgar Chagas Diefenthaeler


“Trauma real” tem origem exógena e seu efeito perturbador e até desorganizador, é atual e evidente. É esta a sua definição desde seu aparecimento em 1855. Freud utilizou esta expressão para qualificar não o trauma e sim a cena de sedução infantil que constituiria o seu primeiro tempo, segundo a teoria da sedução. Apesar do abandono dessa teoria, privilegiando assim as noções de fantasias inconscientes e de realidade psíquica, Freud nunca deixou de sustentar a existência de fatos reais violentos e de seu valor patogênico.

Os analistas contemporâneos preferem levar mais em consideração o real em sua brutalidade traumática, o que não dispensa de se elaborar longamente a atividade fantasmática que o real suscita; eles apoiam-se na concepção econômica do trauma, tal como Freud a definiu em 1920, para reconhecer que um evento, por sua natureza e intensidade, pode ter um efeito demolidor.  

“Trauma sexual” designa o pavor e seu efeito patogênico produzido por um ato ou uma cena de caráter sexual que envolve violência contra o sujeito que a sofre num estado de passividade.

Freud, no início de sua prática, diante da frequência de cenas sexuais relatadas por seus pacientes, conclui pela realidade de uma sedução na infância por parte de um adulto: deduziu daí que o trauma é sempre sexual. No começo da descoberta clínica, a sedução passou a ser nos anos 1895-1897 uma teoria, a do traumatismo em dois tempos: o primeiro só adquire sentido e efeito no a posteriori da puberdade, por ocasião de um segundo evento que, por analogia, vem reavivar-lhe as marcas, o que acarreta a invasão do psiquismo pelo surto libidinal e seu correlato, a angústia.

Simultaneamente com a sexualidade infantil, Freud descobre então que as cenas de sedução são, com frequência, reconstruções fantasmáticas; não obstante, apesar do abandono de sua “neurótica”, ele nunca deixará de se questionar sobre a parte fictícia ou real das cenas. De fato, o que é traumatizante não é o evento como tal, mas os afetos e as representações, inclusive as fantasias, que ele mobiliza. Seu impacto será função do momento em que ele se produz em relação à capacidade do Eu da criança para metabolizar a excitação assim desencadeada, e da repercussão que terá em sua organização fantasmática. Mas para que um traumatismo possa atuar numa cena interior e em vários tempos – assim “ele oferece à análise a ocasião mais favorável”, segundo a observação de Freud em 1937 -, é necessário que ele não seja prematuro demais nem intenso demais.

O traumatismo sexual, conforme o define Freud na primeira tópica, não se pode entender sem as noções de sedução, de recalque, de a posteriori e de realidades interna e externa.