"Violência"

por Carlos Augusto Ferrari Filho


VIOLÊNCIA origina-se do termo violar, do latim violare: fazer ou tratar com violência; devastar, danificar um território; profanar; ultrajar. Sec. XVI e XVII: violência, do lat. Violentia: caráter violento, feroz, indomável; força violenta. Violência é o uso excessivo de força que ameace a integridade física ou emocional.

A abordagem da violência pela neurobiologia com base em estudos interdisciplinares evidencia forte vínculo entre causas sociais e biológicas, como por exemplo, o papel da genética molecular na criminalidade e violência. Assim, um fator importante são  as relações de natureza epigenética, como   a falta de amor materno e o aparecimento de violência. A sequência de nucleotídeos do DNA permanece relativamente estável ao longo da sucessão geracional, mas as proteínas de cromatina, que envolvem o DNA, podem ser alteradas pelos aminoácidos em contato com o ambiente. As relações com o ambiente mudando a expressão genética do indivíduo, geram efeitos que se transmitem às gerações seguintes. Pesquisas recentes revelam a detecção de efeitos cerebrais em consequência de fenômenos traumáticos, tais como privação social, emocional e nutricional, de natureza precoce, em seres humanos, sofrimentos que geram redução no funcionamento do córtex orbito frontal, do córtex pré-frontal infra límbico, do hipocampo, da amigdala e do córtex temporal lateral. Estudos também demonstram que tais fatores estão associados à diminuição da conectividade na substância branca, assim como o fator “maternidade interrompida ou deficiente” gera mecanismos que levam à degeneração cerebral. Abuso sexual precoce, entre 3 a 5 anos, está relacionado com a diminuição do volume do hipocampo e na adolescência, entre 13 e 16 anos, relacionado com a diminuição do volume do córtex pré-frontal.

Um olhar psicanalítico sobre esse conjunto de fenômenos implica lembrar das diversas violências possíveis tanto nas relações de objeto primitivas como naquelas ao longo da infância e adolescência.  Considera-se aqui as possibilidades do traumático no espaço vincular, primeiro na situação do excesso – o invasivo objeto perverso violador do self, e, segundo, nos casos de perda, ou da falta, quando o que dói é a dor do desinvestimento forçado, após a retirada de objeto libidinalmente investido, até então, disponível. Se após o traumático a vida cronologicamente continua, ainda assim é necessário, em termos do self, lidar com zonas de experiências não elaboradas, e, muitas vezes, não elaboráveis. Aqui, a tendência é a busca, através da compulsão à repetição, de relações de objeto que tendem a cristalizar, inclusive no transgeracional, saídas passivo-agressivas para aquele interjogo sado-masoquista sofrido passivamente. Por fim, é importante citar aquela maldade, ou violência, que começa nos indivíduos, vai para os grupos e pode, depois de imantar ou cooptar zonas na cultura – organizações, partidos políticos e até mesmo toda uma sociedade - estabelecer um tempo propício à toda sorte de violências. Pode-se especular que repetir-se-ia no cultural, tal qual espelho multifacetado, a fenomenologia da desumanização, descrita anteriormente na dimensão das relações de objeto.