"Wilfred Ruprecht Bion"

por Juarez Guedes Cruz


Filho de um funcionário da coroa britânica, Bion nasceu na Índia e lá viveu até seus oito anos, quando foi enviado à Inglaterra para estudar. Aos dezoito, desligou-se do colégio para lutar na Primeira Guerra Mundial. Terminada essa conflagração, Bion retomou seus estudos na Universidade de Oxford e foi durante o curso de História que entrou em contato com a obra de Sigmund Freud. Influenciado por essa leitura, resolveu aprofundar-se na compreensão do psiquismo humano, tendo cursado a faculdade de medicina de 1924 a 1930, já pensando em tornar-se psiquiatra. Em 1938, iniciou sua análise com John Rickman. Pouco depois, serviu, durante a Segunda Guerra Mundial, como psiquiatra do Exército. Durante esse período, criou uma nova abordagem dos pequenos grupos, definindo as constelações inconscientes de suposto básico e de trabalho no funcionamento grupal. Encerrada a guerra, analisou-se com Melanie Klein, de 1945 até 1953. Em 1950, foi admitido como membro associado da Sociedade Psicanalítica Britânica, onde ocupou o cargo de Presidente, de 1962 até 1965. Em 1968, mudou-se para a Califórnia, tendo lá trabalhado e lecionado por onze anos. Durante esse período, realizou várias visitas ao Brasil, onde deixou um grande número de seguidores. Em 1979, poucos meses antes de sua morte, retornou para a Grã-Bretanha.

Dentre as várias contribuições importantes de Bion para a teoria e a técnica psicanalíticas, destaca-se a conceituação de reverie (devaneio). Em sua primeira referência a este conceito, em Uma teoria do pensamento, de 1962, diz ele: “A capacidade materna para o devaneio é o órgão receptor para a colheita das sensações de si mesmo que o bebê obtém por meio de sua consciência”.

Bion também ampliou o conceito de identificação projetiva, de Melanie Klein, ao dizer que esse fenômeno se constitui na função mental primordial de comunicação da mãe com seu bebê. Para ele, a mente materna funciona como um continente capaz de acolher os conteúdos de aflição, hostilidade e amor do bebê e devolvê-los, sob a forma de carinhos e palavras, de modo que o bebê possa nomear, e aceitar, como suas, aquelas partes que lhe causavam sofrimento. De modo semelhante, o analista tenta qualificar-se para receber, em estado de devaneio, a angústia, a raiva e o amor de seu paciente ― em suas expressões verbais e não verbais. Após elaborar esses conteúdos, o analista fica apto a devolvê-los ao analisando, sob a forma de interpretação e outras intervenções, de modo que este possa, de maneira gradual, discriminar, aceitar e reconhecer como seus aqueles aspectos de sua personalidade que considerava perigosos e ameaçadores e com os quais manobrara cindindo-os, expulsando-os e identificando-os no objeto.

Derivam daí, várias outras contribuições importantes: o conceito de função continente da mente, a descrição do estado mental ideal do analista durante a sessão ― sintetizada na impactante e, muitas vezes, pouco compreendida fórmula “sem memória, sem desejo, sem compreensão” ― e a ideia do conhecimento e da verdade como ‘alimentos para a mente’.