Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre (SPPA)

ANO 24 • • Nº 46

ÓRGÃO OFICIAL DA SOCIEDADE PSICANALÍTICA DE PORTO ALEGRE

Porto Alegre | RS

Autor

Juarez Guedes Cruz

Médico, psiquiatra e psicanalista. Membro efetivo e didata da SPPA.

Criatividade, um caminho possível em tempos caóticos

  • Desde que não se transforme em delírio, a criatividade na arte tem ajudado o ser humano a enfrentar tempos caóticos. Como nos ensina Borges, uma certa dose de ilusão é vital.

Londres, hoje. Uma fila de crianças acompanhadas por seus pais aguarda para visitar a plataforma 93/4 na estação de King’s Cross, famosa por ser o ponto de partida do trem que se destina a Hogwarts, onde se situa a Escola de Magia e Feitiçaria, da série de livros Harry Potter. Mais um desses exemplos de como a ficção pode criar realidades. Do mesmo modo, ninguém viaja para a região da Mancha sem imaginar que ali os moinhos de vento giram tal qual os braços de horrendos gigantes a serem enfrentados por Don Quixote, apesar dos protestos de Sancho. Sim, a ficção cria por breves instantes uma nova realidade. Desde que não se transforme em delírio, tal criatividade na arte tem ajudado o ser humano a enfrentar tempos caóticos. Certa dose de ilusão é vital.

Praga, amanhecer de 14 de março de 1939. A cidade acabou de ser invadida pelas tropas do III Reich. Cinco dias depois, o judeu Jaromir Hladick é preso e, em função de sua atividade ‘judaizante’, é condenado à morte. A execução é marcada para acontecer em dez dias. Enquanto aguarda a data, Hladick tenta imaginar, com detalhes, como poderia concluir a escrita de um romance intitulado ‘Os inimigos’. Faz uma recapitulação crítica de sua obra, e nutre a esperança de poder concluir o texto antes de ser executado. A estrutura de tal romance baseia-se no delírio de um dos personagens a respeito de um tempo circular e eterno. Sabendo-se a poucas horas de sua execução, Hladick roga a Deus mais um ano de vida para poder completar sua narrativa. Adormece e tem um sonho no qual Deus afirma que seu pedido foi aceito: o tempo solicitado será concedido. Hladick desperta quando os soldados vêm buscá-lo para a execução. Conduzido ao pátio onde será morto, é colocado frente ao pelotão de fuzilamento, que se apronta para disparar. Nesse instante, o tempo detém-se, enquanto os objetos permanecem em sua imobilidade. Vários sinais — a sombra imóvel da abelha, a fumaça paralisada, a gota da chuva suspensa no ar — mostram que o tempo se deteve e o universo físico imobilizou-se. Deus cumpre a promessa: entre a ordem, ‘atirar’, e a execução da ordem, ‘efetivamente atirarem’, Hladick ganha o tempo de um ano para terminar sua obra. Hladick trabalha duramente durante o ano que recebeu. Em sua mente, a obra é concluída. No momento em que escreve a última letra, o pingo de chuva escorre, o grito é lançado, a bala penetra em seu corpo e o mata. A última frase do conto esclarece que o encanto durou dois minutos.

Jorge Luís Borges, em ‘O milagre secreto’, mais uma vez nos mostra, de modo magistral, que, sem os milagres secretos da ilusão criativa dos nossos sonhos e devaneios, não existiria modo de conviver com o reduzido tempo que temos nessa caótica realidade sem qualquer preocupação conosco no breve intervalo que vai entre nascer e morrer.