Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre (SPPA)

ANO 24 • • Nº 46

ÓRGÃO OFICIAL DA SOCIEDADE PSICANALÍTICA DE PORTO ALEGRE

Porto Alegre | RS

Autora

Denise do Prado Bystronski

Membro efetivo da SPPA

Criatividade. Um caminho possível em tempos caóticos?

  • O caos também é parte inescapável do processo criativo.

A artista plástica Fayga Ostrower, em seu livro Criatividade e processos de criação, disse que “criar é formar”, ou seja, gerar forma. Não apenas uma forma artística, mas uma comunicação, um modelo de se relacionar com o outro, com o mundo, com o interno. Formar envolve o conteúdo significativo das coisas, inclui alguma medida de ordenação. O potencial de renovação existe sempre, porém vinculado a profundos conteúdos de vida, “pois é ao nível dos conteúdos interiorizados que se dá a criação”.

No caos, as formas se fragmentam, se perdem ou afrouxam seus sentidos ao infinito, impedindo que a realidade, os sonhos e os sentimentos e significados a eles associados possam ser articulados, encontrem um continente para desenvolver-se. Também na psicanálise, há que se reconhecer nos escombros do caos a linguagem potencial para sua expressão. E dar-lhe alimento para que esta condição se trans-forme.

O caos também é parte inescapável do processo criativo. Inclui a dor do desconhecido, desconectado, absurdo, do que se fragmenta ao infinito antes de assumir nova forma. Esta dor precisa ser tolerada no espaço “entre” a intenção e a forma, onde algo irá acontecer. Como na cesura, pensando em Bion.

A criatividade pressupõe um modelo internalizado na mente que inclua a capacidade de gestar uma forma e colocá-la em conexão com o outro e com o mundo. Podemos pensar no casal parental interno em coito criativo de que nos fala Meltzer.

Na sessão psicanalítica, a esperança de gerar um lugar de criação além do caos deve partir de dentro da mente do analista, com seus bons objetos internos e fé no método, na esperança de que, dentro do paciente, essa possibilidade criativa também exista, mesmo que sob escombros traumáticos de falta ou excesso ou ainda estilhaçada na atmosfera de seu mundo interno em deformação. A fé do analista no potencial criativo da dupla ajuda a tolerar os momentos de absurdo e incerteza.

Uma pergunta a ser feita frente ao caos poderia ser: Existe um contexto, uma língua que não conheço, uma conexão afetiva que ainda não alcanço, em que essa confusão, esse caos, possa ser lido?

OSTROWER, F. Criatividade e processos de criação. 1987, Petrópolis, Ed. Vozes.