Criar no Caos: Psicanálise e Arte em Tempos de Excesso

Uma conversa com Flávio de Oliveira e Souza, Ivan Fetter e Clara Pechansky
De tempos em tempos, a humanidade parece mergulhar em novas incertezas — crises sociais, políticas, ambientais e de valores pessoais, para citar apenas algumas. Diante desse cenário, o Jornal da Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre (SPPA) convidou dois psicanalistas e uma artista visual para refletir sobre uma pergunta essencial: a criatividade humana ainda pode transformar nossos tempos caóticos?
Para o psicanalista Flávio de Oliveira e Souza, membro da SPPA, o caos sempre acompanhou a humanidade, surgindo como guerras, colapsos econômicos, pandemias ou dissoluções simbólicas. Hoje, porém, ele assume a forma de excesso: hipervelocidade, intensidades e volumes de informações que ultrapassam nossa capacidade de pensar. Soma-se a isso a anomia tecnológica, o avanço da inteligência artificial, as guerras de narrativas e a polarização que insiste em reduzir a complexidade da realidade a dois polos.
“Em nossa mente, esse caos nos impõe medidas e, no embate entre a perda de vínculos e os simulacros, a criatividade surge como lampejo de clareza e sentido — uma resistência ao vazio e à entropia do mundo”, afirma. Na arte, lembra ele, esse processo se torna visível: o caos interno transforma-se em traços, cores e formas, dando expressão ao indizível. A criatividade, portanto, é o que torna suportável o desassossego, convertendo-o em linguagem.
Segundo Flávio, esse movimento pode sustentar um verdadeiro crescimento interno — aquilo que ele chama de criatividade positiva ou evolutiva. No entanto, o psicanalista alerta que a criatividade também pode assumir uma forma regressiva. Em tempos marcados pela efemeridade descrita por Zygmunt Bauman e pela estética “lisa” apontada por Byung-Chul Han, muitas vezes criamos não para transformar o mundo, mas para anestesiar o desconforto existencial. Surge, assim, a criatividade negativa: uma produção sem reflexão, sem atrito, que oferece conforto narcísico, mas conduz ao tédio e ao vazio. Nesse ponto, afirma Flávio, a psicanálise torna-se fundamental como promotora do pensamento e do crescimento criativo.
O psicanalista Ivan Fetter, membro da SPPA, acredita que a tensão entre forças destrutivas e criativas acompanha a humanidade desde sempre. “É justamente quando a ameaça de destruição se intensifica que o ‘espaço criativo’ emerge como força neutralizadora”, explica. Ao mesmo tempo, “esse espaço é também fonte de mudanças e novas ideias, frequentemente vividas como ameaça ao status quo e capazes de desencadear ataques ao pensamento livre”.
A artista visual Clara Pechansky lembra que o ser humano convive com o caos desde que pisou na Terra. “Podemos culpar as mudanças climáticas pelo desaparecimento dos dinossauros, mas não podemos anistiar o homem que usa o planeta como propriedade e estraga tudo ao seu redor”, diz. Para ela, ao mesmo tempo em que alguns destroem e ampliam o caos, outros constroem — e é aí que se distingue o fazedor de guerras do artista.
Clara recorda que, na história da Arte Ocidental, foram os mecenas que definiram conceitos como beleza, feiura, virtude, pecado, permitido e proibido. “Essa cultura foi definida por homens, nunca por mulheres”, enfatiza. Assim, artistas como Sofonisba Anguissola, Artemisia Gentileschi, Rosalba Carriera, Michaelina Woutiers, Camille Claudel, Tarsila do Amaral ou Maria Lídia Magliani são raras justamente por ousarem enfrentar a sociedade de suas épocas, denunciando repressões e forçando revisões de dogmas e padrões.
Com a sabedoria de quem se aproxima dos 90 anos, Clara faz um alerta: “Ao conviver diariamente com o caos, ainda somos nós, mulheres, que, através da arte, seguimos tentando abrir os olhos dos homens para as situações de domínio, escravidão e dependência que persistem no século XXI. Mais do que nunca, a arte pode salvar.”
Quando o caos se instala: qual o papel da psicanálise?
Flávio observa que a psicanálise contemporânea cria um campo criativo entre dois sujeitos. Ela não elimina o caos, mas o atravessa, ampliando a capacidade de expressão e abrindo brechas para a autenticidade em um mundo de simulacros. Em uma sociedade marcada pela perda de referenciais simbólicos e pela fragilização dos vínculos, a psicanálise adquire um papel cultural decisivo: promover ressonância entre sujeito e mundo, sustentando o espaço para pensar e o direito de existir de modo singular e criativo.
Ela não anestesia a dor, afirma Flávio, mas cria forma, símbolo e palavra onde antes existia vazio mental. Apoia a digestão emocional, como diria Bion, permitindo que o sujeito “brinque com o caos sem ser engolido por ele”, segundo Winnicott.
Ivan, por sua vez, distingue dois tipos de caos: um “vazio primordial”, fértil e infinito, que antecede e impulsiona o novo; e outro destrutivo, que ameaça o desenvolvimento do pensamento. No primeiro caso, a psicanálise observa e intervém apenas quando algo bloqueia o crescimento natural. No segundo, precisa manter-se viva e atuar dentro de seus princípios básicos — promover o crescimento emocional por meio do método criativo criado por Sigmund Freud.
Onde nasce a criatividade?
Para Flávio, a criatividade nasce do encontro entre ordem e caos — seja na biologia, na neurociência ou no campo sociocultural. Na psicanálise, entretanto, ela ganha significado particular: surge no estado de desamparo primordial. O bebê, diante da ausência do seio materno, alucina o peito, “sonhando” criativamente com a amamentação enquanto ela não chega. Essa criação abranda o caos e inaugura o pensamento. Esse recurso, diz ele, permanece ativo ao longo da vida, acionando a imaginação sempre que o sentido se fragmenta.
Ivan destaca que a criatividade não é uma ferramenta, mas um processo natural dependente da intimidade emocional entre bebê e mãe. São fundamentais a possibilidade de sentir a beleza dessa relação e de tolerar o mistério que ela carrega. A dificuldade em conviver com essa dualidade gera mentes totalitárias, que atacam o pensamento livre — motivo pelo qual as manifestações artísticas costumam ser as primeiras perseguidas. A psicanálise, ao buscar a verdade, ajuda a restaurar a liberdade interior.
Clara, por sua vez, resgata a longa história da expressão humana. Toda criança desenha, se lhe for oferecido material. Antes mesmo das técnicas, os primeiros hominídeos já gravavam seus medos e fantasias na pedra. Essa necessidade de expressão, diz ela, poderia acompanhar todos ao longo da vida se não fosse tolhida. “A base da criatividade está em contar histórias, ressignificar experiências, reinventar, reaproveitar e redescobrir. Como um bom reciclador, o artista despolui, limpa e recria.”