Autora
Kátia Radke
Presidente da SPPA
Palavra da Presidente
O tema deste número do Jornal da SPPA — a criatividade como possibilidade de lidar com o caos — parece-me especialmente oportuno diante do momento que vivemos: catástrofes ambientais, pandemia, guerras, polarizações políticas e um certo naufrágio de princípios éticos.
A história mostra que a humanidade já atravessou muitos períodos caóticos, sendo que a criatividade se fez presente de inúmeras formas: na arte, na medicina, na vida comunitária, nas alternativas solidárias que emergem quando as estruturas sucumbem.
No momento em que a realidade externa se desorganiza, como nos contextos acima citados, os sujeitos sentem ameaçada a sua continuidade de ser, conforme diz Winnicott. Diante da perda de referências, a criatividade pode funcionar como tentativa de elaboração do traumático. Winnicott mostra que o espaço potencial, o território entre o dentro e o fora, é capaz de ser ativado justamente quando o sujeito encontra algo que intersecciona o vivido e o impensável. A arte, por exemplo, mantém essa passagem aberta: permite que a experiência caótica seja tocada sem que o indivíduo seja “engolido” por ela.
A título de exemplo, na esteira do caos medieval, nasce a arte renascentista: Leonardo, Michelangelo e Botticelli podem ser vistos como expressões de um potencial criativo que floresce no pós-catástrofe.
Também no período posterior à Primeira Guerra surge Kafka, na literatura, e, na psicanálise, Freud escreve Além do Princípio do Prazer, articulando a pulsão de morte com a compulsão à repetição, vendo esta como uma tentativa de elaboração do traumático.
Mais recentemente, no caos desencadeado pela pandemia de Covid-19, testemunhamos a força de novas formas de cuidado e organização: telemedicina, ensino remoto, plataformas de interação, redes solidárias que se multiplicaram com rapidez inesperada. Todas elas constituíram expressões da pujança criativa em tempos de colapso.
Podemos pensar, assim, que a capacidade criativa funciona como uma maneira de sobrevivência psíquica. Criar pode ser um modo de resistir ao desmoronamento interno.
Acredito que o potencial criativo seja uma possibilidade de reconstrução diante do excesso. É a capacidade humana de continuar inventando quando tudo o que existe parece ter se dissolvido.
Penso que essa edição do Jornal da SPPA, ao contar com artigos tão ricos e criativos, reafirma o quanto a criatividade é fundamental em tempos difíceis.
Trata-se também de um momento especial para mim: a hora de me despedir de um cargo tão especial e gratificante, o de Presidente da SPPA, uma instituição rica, pujante e de evidente excelência científica. Confio que a criatividade irá me ajudar a transformar a presente despedida em abertura para novos encontros, ancorada na preciosa coleção de memórias que essa experiência me proporcionou.
Boa leitura a todos.